Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Onde começa a discriminação

Por Ligia Martins de Almeida em 01/02/2005 na edição 314

Cabelos longos bem cuidados, pele perfeita, maquiagem discreta, combinando com a roupa clássica e elegante: essa é uma das primeiras fotos de página inteira da revista Claudia, edição de janeiro. Mas a personagem não está lá por seus dotes físicos. Ela é a bióloga Ana Clara Guerrini Schenberg, que recebeu o Prêmio Claudia de 2004 na categoria Ciências.

Ana Claudia, professora da Universidade de São Paulo, desenvolveu uma bactéria transgênica – que chega ao mercado em dois anos – capaz de viabilizar a produção de plástico biodegradável.

O Prêmio Claudia, que está em sua nona edição, escolhe também destaques na área de Negócios, Cultura, Políticas Públicas e Trabalho Social. A escolha é feita a partir de votação das leitoras e de um grupo de notáveis, que decidem entre 15 finalistas.

Se, como diz a revista, ‘a disputa é acirradíssima’, entendemos que muito mais do que 15 mulheres foram selecionadas em cada setor. Tantas mulheres disputando um prêmio desses não surpreende ninguém, em especial quando se sabe que 56% dos matriculados na universidade brasileira são mulheres.

A surpresa é que revistas como Claudia não explorem temas como o do prêmio em suas edições mensais. Se foram 15 finalistas, isso significa que houve pelo menos 30 mulheres de destaque em cada área, número suficiente para dar idéias de pauta para muitas edições.

E, pelo que se viu nas fotos, as matérias não precisariam ficar restritas aos temas eventualmente áridos de cada campo de estudo ou de atuação. Todas as mulheres homenageadas nesta edição do prêmio poderiam figurar em matérias de cabelo, maquilagem, roupa e forma física. É só ter imaginação, unir o útil ao agradável e mostrar verdadeiro universo feminino. As leitoras teriam uma chance de ver que conteúdo também merece o respeito das revistas que elas usam como guia apenas para o visual. E, com toda a certeza, ficariam felizes em ver que o esforço e a inteligência ganharam o merecido destaque.

Questão de gosto

Se os editores de revistas femininas – no Brasil e no resto do mundo – prestassem um pouco mais de atenção nas leitoras, seria possível até evitar explosões de preconceito como no caso do reitor da Universidade de Harvard, ao dizer que as mulheres são menos aptas para a ciência do que os homens.

O tema – que apareceu numa notícia curta nos jornais de quarta-feira (19/1) – voltou a ser discutido na semana passada. Um artigo do Washington Post, traduzido pelo Estado de S.Paulo de domingo (30/1), mostra que Larry Summers, reitor de Harvard, acabou reabrindo, pelo menos nos Estados Unidos, a discussão sobre a diferença entre homens e mulheres.

Segundo o artigo do Post, em 2003, 46,8% da força de trabalho norte-americana era de mulheres. E, se raras são as engenheiras civis (9%), engenheiras mecânicas (6%) e físicas (8%), isso se deve apenas a uma escolha das mulheres, que ocupam 46% dos empregos entre os biólogos e 30% das vagas existentes para os cientistas ambientais nos Estados Unidos.

Se lá a polêmica foi reaberta, aqui nem chegou a acontecer.

Não se viu, nos jornais nem revistas femininas brasileiras, um protesto contra as sexistas declarações do reitor de Harvard. A notícia que apareceu nos jornais parecia mais um calhau, desses que as redações aproveitam quando sobra um buraco na página.

A discriminação contra mulheres, aliás, só aparece na imprensa brasileira nas matérias comemorativas de 8 de março, o Dia Internacional da Mulher. As entrevistadas, nesse caso, são participantes de organizações não-governamentais que se preocupam com a violência contra mulheres. Como ignorar a existência de mulheres cientistas, executivas, pesquisadoras, professoras e jornalistas não fosse também uma forma de discriminação.

A discriminação começa nas redações femininas, presas na camisa-de-força da fórmula moda-beleza-decoração. Fórmula que, além de repetitiva, é pouco criativa, já que faz com que mulheres inteligentes, realizadoras e bonitas como a bióloga Ana Clara e a executiva Chieki Aoli (prêmio de Economia) só consigam espaço uma vez por ano.

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Jornalista

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