Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Onde está a notícia?

Por Thobias Almeida em 19/05/2009 na edição 538

A edição do dia 11 de maio da Folha de S.Paulo traz um sinal de alerta à imprensa escrita em geral nesse momento de dificuldade ímpar, com perda acelerada de leitores e receitas. Fica evidente que a decadência da imprensa formal é, em grande medida, culpa de sua própria incompetência, soberba e do respeito a interesses menores que não aqueles naturais ao exercício do jornalismo.


Como leio a versão digital do jornal, não há como indicar a página em que se encontra o flagrante do jornalismo rasteiro praticado hoje em dia, não só pela Folha, mas por todos os jornalões. Informo que está lá, na editoria ‘Brasil’, a manchete que chamou minha atenção: ‘Indústria do tabaco bancou campanha de deputado’.


A matéria se refere ao deputado Sérgio Moraes (PTB-RS), relator no Conselho de Ética do processo contra Edmar Moreira (sem partido-MG), o ‘deputado do castelo’, como já alcunhou a própria imprensa. Sérgio Moraes, na semana passada, forneceu declarações controversas que caíram como uma bomba na mídia, entre elas, a de que não leva em consideração a opinião pública e o noticiário, garantindo que sua eleição independe de atores externos, mas sim, de seus eleitores.


Total perda de tempo


Evoco aqui Luis Nassif, jornalista que há muito luta contra os excessos e desvios de conduta praticados pela imprensa brasileira. Nassif, em artigo publicado no seu site, apontou o dedo para a personalidade revanchista e imperialista da imprensa brasileira, sempre pronta a atirar em quem ousa discordar de suas crenças. É bom reforçar que nem Luis Nassif nem este artigo se prestam a analisar a conduta do deputado Sérgio Moraes e suas declarações, mas sim, a reação despropositada e condenatória da mídia contra o parlamentar.


Voltando ao objeto inicial deste texto, analisemos a matéria da Folha de S.Paulo. Lendo o conteúdo da reportagem, se é que aquilo possa ser classificado como tal, fica evidente que um espaço dentro do jornal foi usado para nada, ou melhor, foi usado visando a interesses alheios ao jornalismo. Dois subtítulos reforçam a percepção de inutilidade da matéria: ‘Setor foi responsável por 59% das doações recebidas pelo deputado na eleição de 2006’; ‘As fábricas doadoras têm unidades na região de Santa Cruz do Sul, cidade da qual Moraes foi prefeito duas vezes, vereador e deputado’. A pergunta que não quer calar: onde está a notícia?


A lei eleitoral não veta a doação declarada de recursos às campanhas eleitorais por parte de empresas. Tampouco é proibida a doação de dinheiro por empresas localizadas no reduto eleitoral do candidato. E, até a presente data, não se configura como ilícito um deputado ter sido prefeito duas ou mais vezes ou vereador em qualquer município do país. Então, onde está o fato motivador da matéria? Simplesmente não existe, a peça se mostra inócua, imprópria, irrelevante, uma total perda de tempo, recursos e mão-de-obra à luz da prática jornalística correta e isenta.


Jogos e trapaças


O corpo da matéria segue essa tendência e também não oferece nada ao leitor, a não ser a confissão de que a reportagem não deveria existir. Está lá a declaração de um opositor de Sérgio Moraes na cidade de Santa Cruz do Sul:




‘Sobre a repercussão das declarações de Moraes no município, o vereador Hildo Ney Caspary (PP), que faz oposição ao PTB do deputado, disse que as pessoas da cidade estão preocupadas em trabalhar e não têm tempo a perder com manifestações favoráveis ou não ao deputado’.


Na verdade, a Folha de S.Paulo quis transformar um fato sem relevância jornalística em munição para novos bombardeamentos. O jornal procurou ligar o deputado à indústria do cigarro, visto que a sociedade cada vez mais luta contra o tabagismo e nutre uma visão negativa sobre esse setor produtivo. Cabe a pergunta: será que as empresas de cigarro fizeram doações somente ao deputado que ousou ‘se lixar’ para a imprensa e a opinião pública? Óbvio que não.


Novamente deve ficar apropriado para um ocupante de cargo público, representante do povo na casa parlamentar de mais alto grau no país. Porém, compactuar com jogos e trapaças da imprensa que procuram forjar a opinião pública com arremedos e irrelevâncias é tão ou mais danoso que as próprias falas do parlamentar.


Luzes de emergência estão acesas


É urgente uma total reciclagem da imprensa brasileira. As distorções são cada vez mais recorrentes, os conchavos com grupos de poder tornam-se cada vez mais nítidos, a soberba de se considerar acima do bem e do mal fica evidente a cada ‘assassinato de reputação’. Não é aceitável que a imprensa ultrapasse os limites do jornalismo e se autoproclame um tribunal inquisitório, onde são apontados os bons e os maus, os mocinhos e os bandidos, os bravos e os covardes, os relevantes e os transparentes.


Esse comportamento só faz aumentar a distância entre o jornal e sua audiência, além de aniquilar a principal riqueza que um veículo informacional pode ostentar: a credibilidade. Enquanto os barões da mídia não enxergarem que esses desvios estão cavando sua própria cova, restará colocar a culpa do desaparecimento dos jornais impressos única e exclusivamente nas novas tecnologias (internet) e em uma geração que supostamente não se interessa pelo meio que, por séculos, foi a fonte de informação mais popular no planeta.


As luzes de emergência estão acesas e o alerta é repetido incansavelmente pelos estudiosos da mídia: o decréscimo da qualidade e o distanciamento dos preceitos jornalísticos são tão ou mais decisivos para que o anunciado fim dos jornais impressos se concretize.

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Jornalista, Rio Piracicaba, MG

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