Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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IMPRENSA EM QUESTãO > COLUNISMO POLÍTICO

Opinião e o inconformismo antidemocrático

Por Venício A. de Lima em 02/05/2006 na edição 317

Algumas das principais colunas políticas veiculadas pela grande mídia impressa e eletrônica têm revelado o inconformismo de seus consagrados jornalistas com a percepção dominante entre os brasileiros sobre a crise política e os rumos indicados, até agora, pelos vários resultados das pesquisas de opinião sobre as eleições de 2006.

Em alguns casos, esse inconformismo não se restringe ao que ocorre entre nós e alcança, inclusive, os resultados eleitorais mais recentes de vizinhos países sul-americanos, como Bolívia e Peru, além, é claro, do inconformismo já assentado em relação a resultados eleitorais na Venezuela.

Ademais da permanente desqualificação dos líderes políticos democraticamente vitoriosos como, por exemplo, referir-se a eles como ‘expressões caducas de uma retórica que ficou perdida nos anos 70’, um dos pontos comuns do inconformismo dos colunistas é a velha percepção elitista sobre a ‘ignorância’ da população brasileira, sua desinformação e sua incapacidade de decidir ‘corretamente’. Além disso, os colunistas não se conformam (nem compreendem o porquê) de suas ‘esclarecidas’ opiniões não estarem prevalecendo entre a maioria da opinião pública.

Não voltarei aqui ao tema do ‘autismo’ persistente desses colunistas – um direito deles – cujas opiniões estão a distanciá-los, cada vez mais, da opinião da maioria da população brasileira (ver, a esse respeito, ‘A opinião privada tornada pública‘ e ; OI 373, ‘Opinião da imprensa não é a opinião pública‘).

Retomo, no entanto, um velho mas sempre atual tema da ciência política – a consolidação dos regimes democráticos – que me parece apropriado, não só ao que vem ocorrendo com os principais colunistas, mas com o conjunto da cobertura que a grande mídia tem oferecido da crise política desde maio de 2005.

Impressão distorcida

Em capítulo de livro escrito e publicado há cerca de 20 anos (‘A Nova República brasileira: sob a espada de Dâmocles’, in Democratizando o Brasil, organizado por Alfred Stepan, Paz e Terra, 1988), a professora Maria do Carmo Campello de Souza, recentemente falecida, discute, dentre outras, a questão da credibilidade da democracia. Nas rupturas democráticas, afirma ela, as crises econômicas têm menor peso causal do que a presença ou ausência do system blame. Citando especificamente a Alemanha e a Áustria na década de 1930, pode-se dizer que ‘o processo de avaliação negativa do sistema democrático estava tão disseminado que, quando alguns setores vieram em defesa do regime democrático, eles já encontravam reduzidos a uma minoria para serem capazes de impedir a ruptura’.

Nesse contexto, a análise que a professora Campello de Souza fez da situação brasileira durante a transição da chamada Nova República, mantém a sua pertinência para os dias de hoje. Vale a pena a longa citação:

A intervenção da imprensa, rádio e televisão no processo político brasileiro requer um estudo lingüístico sistemático sobre o ‘discurso adversário’ em relação à democracia expresso pelos meios de comunicação. Parece-nos, contudo, possível dizer (…) que os meios de comunicação tem tido uma participação extremamente acentuada na extensão do processo de system blame (…). Deve-se assinalar o papel exercido pelos meios de comunicação na formação da imagem pública do regime, sobretudo no que se refere à acentuação de um aspecto sempre presente na cultura política do país – a desconfiança arraigada em relação à política e aos políticos – que pode reforçar a descrença sobre a própria estrutura de representação partidária-parlamentar (pp. 586-7). (…)

O teor exclusivamente denunciatório de grande parte das informações acaba por estabelecer junto à sociedade (…) uma ligação direta e extremamente nefasta entre a desmoralização da atual conjuntura e a substância mesma dos regimes democráticos. (…) A despeito da evidente responsabilidade que cabe à imensa maioria da classe política pelo desenrolar sombrio do processo político brasileiro, os meios de comunicação a apresentam de modo homogeneizado e, em comparação com os dardos de sua crítica, poupam outros setores (…). Tem-se muitas vezes a impressão de que corrupção, cinismo e desmandos são monopólio dos políticos, dos partidos ou do Congresso (…). (pp.588-9, passim).

O que está em jogo

Não deveriam essas observações da professora Maria do Carmo Campello de Souza ser objeto da reflexão dos colunistas da grande mídia? Será que a ausência de sintonia entre o que pensam os colunistas e a maioria da população brasileira não vai além da ‘ignorância’ dessa e da ‘sabedoria’ daqueles? Será que depois de 12 meses de doses diárias maciças de denúncias e críticas ácidas, sobretudo aos poderes Executivo e Legislativo, a ‘substância mesma do regime democrático’ não estaria sendo atingida? Já não teria a grande mídia, por exemplo, parte da responsabilidade no surgimento de movimentos a favor do voto nulo nas próximas eleições?

Com a transformação do jornalismo em profissão, no final do século 19, foi se constituindo também o ethos profissional que estabelece a ‘responsabilidade moral do jornalista de erradicar o mal e mostrar as enfermidades sociais’. A auto-imagem dominante entre os jornalistas – no Brasil e nos demais países de democracia liberal – é a de profissionais que se consideram mandatários dessa nobre missão.

Quais seriam, no entanto, os limites – e responsabilidades – do jornalismo em relação ao bem maior da democracia que garante, em primeiro lugar, o funcionamento da própria mídia como empresa privada e livre?

O inconformismo publicamente manifesto dos colunistas com as opiniões e a vontade popular – base dos regimes democráticos – parece indicar que estaria na hora deles próprios – e da grande mídia como instituição privada e livre – refletirem sobre questões como as apontadas acima. O que está em jogo é a consolidação da nossa própria democracia.

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Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília e autor, entre outros, de Mídia: Teoria e Política (Editora Fundação Perseu Abramo, 2ª ed., 2004)

Todos os comentários

  1. Comentou em 08/05/2006 Flavia Mesq

    Apenas conjecturei sobre essa possibilidade. Em nenhum momento disse que TODOS são jornalistas. De qualqer maneira, nunca notei entre a classe jornalística nenhum tendenciosismo que prejudicasse suas simpatias partidárias, muito pelo contrário. Já notei tendenciosismo em sentido rigorosamente inverso, o que me levou a fazer tais conjecturas. A tese sobre ‘golpe das elites’ é golpista. É preciso combatê-la com esclarecimento e informação. A crítica à imprensa deve se pautar na racionalidade, o que, infelizmente, não está sendo o caso.

  2. Comentou em 08/05/2006 Paulo Fessel

    Continuo sem entender as invectivas da sra. Kátia Mesquita.

    Primeiro, ela diz que muitas pessoas que comentam os textos do OI ‘são jornalistas, apesar de não se identificarem como tais’ e que não se identificam porque ‘têm interesse em propagar a tese de que há perseguição contra o governo por parte da mídia’. Entendo que essa é uma acusação aos leitores que é digna de Diogo Mainardi, pois assume que todos nós, freqüentadores do OI, somos mentirosos ou ignorantes (ou os dois) até prova em contrário.

    Ora, que interesse teria eu em mentir sobre minhas profissões? Não só não o fiz e até ofereci meios para comprovar que o que falo sobre mim mesmo é verdade. Além disso, que interesse tenho eu na manutenção deste governo – funcionário que sou de uma empresa privada nacional e que não participa de nenhuma concorrência no governo federal? A resposta é simples: sou um daqueles que pensa que, a despeito dos problemas (que não são poucos) e da falta de criatividade e ousadia (que são imensas), ainda assim há muito a comemorar nos feitos deste governo. Digo isso tanto de um ponto de vista ideológico – pois sempre votei com o PT – quanto do ponto de vista de realizações. Não vou ecoar números, procure as estatísticas apropriadas.

    Finalmente, assim como você, tudo o que consegui em minha vida foi fruto de minha própria competência. Felizmente, não devo favores a ninguém. E como a sua, a minha voz também é a das ruas – ainda que numa nota discordante da sua.

    Cordialmente,
    Paulo Fessel – Analista de sistemas, fotógrafo e cantor

    P.S.: Se vocês considerarem que esta mensagem resvala no nível pessoal, não precisam publicá-la no OI. Mas gostaria que fosse encaminhada à sra. Kátia Mesquita.

  3. Comentou em 04/05/2006 Gustav Oiler

    Não concordo com a político do site que defende a liberdade de imprensa e ao mesmo tempo executa a censura prévia sobre o que deve ou não deve ser publicado na seção comentários. Cada pessoa que comentasse uma matéria deveria ser identificada com segurança e responder por seus atos posteriormente. Jamais poderia ser previamente censurada. Por isso, fica a crítica ao site por fazer a censura prévia dos comentários: ‘não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem intolerância ou crime.’

  4. Comentou em 03/05/2006 Maria Izabel Ladeira Silva Silva

    Irretocável! Apontou o problema com precisão milimétrica. É duro consolidar a democracia no Brasil, especialmente quando todos conspiram contra. Ruim com ela? Pior sem ela. Acredito que há muita ignorancia e memória curta entre os chamados ‘formadores de opinião’. Uma boa dose de História e Ciência Política talvez sensibilize essa gente.

  5. Comentou em 02/05/2006 Katia Almeida

    Este texto de Venício A. de Lima não prima pela boa lógica e está me parecendo uma ode à ao fascismo das massas. Só falta mandar a população queimar os livros em praça pública. Não são critérios meramente elitistas que levam a imprensa (ou melhor, parte dela, a nata intelectual dela) a classificar certos discursos como ultrapassados. É o velho bom senso, o princípio da racionalidade, aliados a uma formação intelectual mínima pelo menos.

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