Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Os brasileiros desaparecidos

Por Luiz Egypto em 11/01/2005 na edição 311

Foi burocrática, insensível e desleixada a cobertura da imprensa brasileira sobre os cidadãos do país desaparecidos no desastre provocado pelos tsunamis no Oceano Índico. A cifra de 150 mil mortos, impressionante por si só e reverberada aos quatro ventos, mais os milhares de feridos, desabrigados e desaparecidos esconderam, porém, as histórias de um punhado de compatriotas anônimos – 41 contados até às 11h48 de terça-feira (11/1), de acordo com o Ministério das Relações Exteriores – que não mereceram atenção maior da mídia brasileira.


A única história a ter algum destaque foi a mais óbvia, pois a primeira oficialmente confirmada: a morte da diplomata brasileira Lys Amayo de Benedek D’Avola e de seu filho, Gianluca. Tão logo o Itamaraty admitiu a perda de sua funcionária, e pelo fato de esta ser filha de uma atriz conhecida, jornais e telejornais produziram matérias focadas na dor daquela família. As demais vítimas nacionais mantiveram-se no noticiário apenas como números, não mais do que números.


A contagem variou de 154 desaparecidos no domingo (2/1) até os 41 de terça (11/1). Conforme informou na quarta-feira (5/1) uma funcionária da Divisão de Assistência Consular do Itamaraty, a sistemática adotada pelo ministério para a contagem dos brasileiros desaparecidos baseou-se em informações ‘obtidas por meio de notícias enviadas pelas famílias, por nossas missões diplomáticas, por amigos das vítimas que tiveram algum contato com as mesmas e até por outros cidadãos brasileiros residentes nos países atingidos e que têm conhecimento da comunidade brasileira local’.


Segundo a mesma fonte, ‘temos apenas listas de pessoas procuradas e encontradas’ e sua divulgação só poderia ser feita ‘mediante autorização das famílias das possíveis vítimas’. A funcionária insistiu em que ‘a lista de procurados não é definitiva’ e que ‘as atualizações são efetuadas a todo momento, pois as famílias e os amigos enviam mensagens eletrônicas durante 24 horas’. Por esse motivo, segundo ela, ‘é prematuro fazer qualquer afirmação definitiva sobre o desaparecimento de cidadãos brasileiros’.


Travo de vergonha


Passadas mais de duas semanas da tragédia, compreende-se o cuidado do Itamaraty, desvelado e diplomático pela própria natureza de suas funções de Estado. Mas, ainda assim, é lícito estranhar o comportamento da imprensa, que não deu a mínima para os brasileiros sumidos e perdeu a oportunidade de contar, pelo menos, 41 histórias que poderiam ajudar a entender mais de perto o drama humano causado pelas ondas gigantes.


Em lugar disso, o ramerrão de sempre e o gosto pelo espetáculo. Abriu-se espaço, por exemplo, para baboseiras como as proferidas por Jeb Bush, irmão do presidente americano e governador do estado da Flórida, que, durante viagem de relações-públicas à região atingida, afirmou, de acordo com a Folha de S.Paulo (5/1), que a destruição causada pelos freqüentes furacões que atingem o estado que governa ‘é insignificante quando comparada com a catástrofe produzida pelo tsunami no oceano Índico’. Bidu!


No capítulo espetáculo, menção honrosa para a TV Globo, que enviou à Suécia um dos seus melhores repórteres para ouvir as histórias de duas famílias suecas que escaparam da morte, exibidas em matéria do Fantástico (domingo, 9/1). Correu mundo a foto do grupo fugindo da praia, tendo ao fundo a muralha de água que se aproximava. Havia a imagem – havia, portanto, o espetáculo. Do Brasil, em contrapartida, não houve uma única história a não ser a obviedade mencionada acima — também dolorida, sim, mas óbvia.


O Observatório perguntou ao ministro Manoel Gomes Pereira, chefe do Departamento das Comunidades Brasileiras no Exterior (ao qual está subordinada a Divisão de Assistência Consular), se o Itamaraty recebeu solicitações de veículos jornalísticos brasileiros interessados em obter a lista de desaparecidos. Como aparentemente essa apuração não existiu, o diplomata saiu-se assim:


– A AIG [Assessoria de Imprensa do Gabinete], desde o final de semana passado [1-2/1], tem sido intensamente procurada pela imprensa brasileira. O maremoto no sul da Ásia e suas conseqüências têm sido o principal tema do trabalho desta Assessoria, durante toda a semana e no sábado e domingo, em regime de plantão.


É provável, e aqui é pura especulação do signatário, que Gomes Pereira e os funcionários da AIG devam ter sentido um travo de vergonha ao constatar que a lista dos desaparecidos não foi uma pauta julgada importante pela imprensa de seu país.


Perguntado sobre como avaliava a cobertura da mídia brasileira sobre o acidente, o diplomata respondeu:


– A cobertura da imprensa brasileira tem sido abrangente e correta. Tanto a busca por brasileiros que eventualmente estariam nos países atingidos pelo maremoto quanto o esforço internacional para a ajuda humanitária aos países afetados foram tratados com profundidade. Do ponto de vista do Itamaraty é importante que os veículos de imprensa reforcem a noção de que pessoas que solicitaram auxílio da Divisão Consular para a busca de familiares e/ou amigos e que tenham conseguido fazer contato com os mesmos, voltem a ligar para o atendimento consular a fim de que esses nomes possam sair da lista de cidadãos brasileiros ainda procurados. Desta forma o trabalho de busca pode ser concentrado nos nomes sobre os quais efetivamente ainda não se tem maiores dados sobre o paradeiro.


Cobertura correta, ma non troppo.

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