Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Os dois lados da moeda

Por Camilla Savana de Oliveira Neves em 29/04/2008 na edição 483

Diante de um turbilhão de informações causadas pelo dia-a-dia e pelo que nos é mostrado pela mídia de forma insistente, não consigo deixar de ficar atônita diante de tanta falta de sensibilidade do ser humano. Obviamente, não de uma forma generalizada. É impossível não ter uma idéia do que é o caso Isabella. Todos já sabemos o dia que aconteceu a tragédia, o que aconteceu, como aconteceu e quem supostamente poderia estar ‘envolvido’ com tudo isso.

O fato é que o caso é cruel, foi cruel! Quem no Brasil não ficou ao menos chocado com o acontecido e espera ansioso para saber como, por que e quem cometeu tal barbaridade?

Levando um pouco para o lado da informação e do jornalismo, estudamos todos os dias (estudantes de Comunicação), de forma até repetitiva, que a função do jornalismo é a prestação de serviços. Fazer do caso Isabella um espetáculo e um tormento diário para a sociedade é, no mínimo, decadente para a profissão.

Quantas Isabellas já não foram torturadas no Brasil, quantas crianças são vendidas, exploradas, espancadas diariamente? Como o recente caso divulgado, de uma mulher que criava uma criança em casa e a mantinha presa, sob tortura; choques elétricos, mordaças, fome. Tudo foi divulgado pela mídia, mas ao que se sabe, ou não se sabe, é que a agressora está presa e só. Porque isso não tomou uma proporção maior? Já que, em nível de violência, isso também foi algo brutal.

Ser humano está sujeito a tudo

Estabelecer uma linha entre o que é certo e errado dentro da população e da atuação do jornalismo é algo muito tênue, sutil, já que estamos lidando diretamente com pessoas e suas opiniões.

Num caso como este, onde diariamente e a toda hora ouve-se se falar sobre a morte de uma menininha linda, aparentemente feliz e com uma vida pela frente, o que mesmo está em questão? Interesse da mídia de ‘prestar serviço’ à população a toda hora e a todo momento sem que se perca um detalhe (ou seria audiência)? Levar ‘informação’ sobre o andamento do caso? Mobilizar a sociedade? Alertar sobre a violência? Bom, o caso Isabella é triste e dolorido de se ver, porém transformaram essa ‘pauta’ em um show. Sinto-me muitas vezes dentro do seriado americano CSI, no qual vejo capítulos novos todos os dias e sem poder escolher, já que a disputa por novas informações tomou conta de todos os veículos de informação do país.

Ver a cena do casal Nardoni saindo da delegacia e a população enfurecida chamando-os de assassinos foi algo de causar perplexidade. Pois até então não existiam provas de que os dois haviam cometido crime algum (no momento, encontram-se mais evidências). É contraditório ver, num país em que existem 90% de católicos, pessoas gritarem em praça pública, assim como fizeram com Maria Madalena (Novo Testamento) com pedras em punho, acusando-a de adultério, acusando também duas pessoas que nem sabem se cometeram tal crime. Isto aqui é uma defesa ao casal Nardoni? De forma alguma, até porque eles podem ser os culpados. Mas todo ser humano está sujeito a tudo. A matar, a morrer, a ser acusado, a ser inocente, o dia de amanhã é algo que realmente não nos pertence, julgar o outro também não.

Amanhã, podemos ser a notícia

Foi esquecido também, em meio a esse absurdo de dados que nos é empurrado 24 horas por dia, que existe uma mãe, Carolina Oliveira, que perdeu Isabella e que, sem dúvida alguma, perdeu também parte de sua vida. Não só pela morte da filha, mas por ter sua vida invadida. Por ver diariamente fotos de sua vida estampada em jornais, sua casa vigiada pelos repórteres, que neste caso chamo sem dó de sanguessugas. É nítido e terrível ver que neste caso o jornalismo não está preocupado com o ser humano, e sim, com a concorrência.

Certa vez ouvi que uma pessoa atuante numa redação de TV, ao chegarem notícias de desastres, fazia a primeira pergunta: alguém morreu? Se a resposta fosse positiva, ela chegava a comemorar, pois a matéria iria render de forma ‘melhor’. Ouvindo isso, me fiz a pergunta: se algum dia houvesse um desastre e chegasse até seus ouvidos que a notícia do dia seria a morte de um ente querido seu, como ela reagiria?

E é esta a reflexão que ponho em questão. Devemos esquecer de tudo, passar por cima de sofrimento, dor, direito de se preservar de um ser humano para dar uma notícia? Fazemos parte de dois lados de uma moeda. Com isso, é importante lembrar que antes de profissionais da informação ou de qualquer outra coisa, somos seres humanos, cidadãos, que choram, sofrem, passam por dificuldades e para isso é importante parar e pensar – hoje, damos a notícia, mas amanhã poderemos ser ela.

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Estudante de Jornalismo da Universidade Potiguar, Natal, RN

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