Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > Parte 3: O valor de verdade da informação

Os elementos do jornalismo

Por Claudio Luiz de Carvalho em 23/10/2017 na edição 963

Os acontecimentos não possuem explicação racional e obtém espaço em decorrência da ótica e do recorte que lhes é dado. Um exemplo recente é a gravação da conversa entre o empresário Joesley Batista e o presidente Michel Temer, publicada em uma coluna de um grande jornal brasileiro.

O que mais se destacou nessa publicação foi a expressão do presidente em que dizia “Tem que manter isso aí, viu? ”, com o entendimento de que Michel Temer “avalizava” o pagamento de propina ao ex-deputado Eduardo Cunha, para que ele não denunciasse ao Ministério Público eventuais comprovações de que o presidente pratica ou praticou atos de corrupção.

Foto: Creative Commons/Diego DEAA

Essa questão causou amplo debate na mídia e na opinião pública, principalmente na oposição ao governo, com essa publicação. Quando o áudio veio ao conhecimento do público em geral é que se percebeu que a notícia se baseava em uma conclusão da Procuradoria Geral da República e que o jornalista responsável pela publicação não ouvira, até então, o áudio da conversa.

Como resultado e independente da veracidade do que se noticiou, mas em defesa da ética jornalística, fica-se com a impressão de que ele noticiou somente parte da história e não narrou isso. Deveria deixar claro que não tinha a história toda, que não tinha ouvido o áudio, cuidado imprescindível para sua atuação jornalística, dado que a informação leva o leitor a julgar o ocorrido com base em apenas parte da história correta.

Um caso mais antigo é o da Escola Base de São Paulo, quando houve a denúncia de que os proprietários praticavam assédio sexual nas crianças lá matriculadas. O caso ganhou enorme repercussão, contou com a contribuição de um delegado que se viu nos seus minutos de fama dado os holofotes que caíram sobre ele e, no fim, depois de provocar danos psicológicos e morais às crianças, seus pais e aos acusados, após vários anos constatou-se que era uma enorme mentira.

São dois exemplos em que o algoritmo da atuação jornalística pode conduzir a opinião do leitor para caminhos não corretos e de interpretação errônea, com consequências das mais variadas dimensões. O que exige à mídia a criação de mecanismos de como perceber, avaliar, investigar, acompanhar e narrar os fatos e os acontecimentos. O leitor precisa ter, no mínimo, o direito à dúvida de que a informação procede de algo efetivamente ocorrido e verdadeiro. Ele precisa ter o hábito de questionar e confiar na fonte que lhe transmite a informação.

O que tem ocorrido, entretanto, em uma clara guerra de concorrência, o que leva à ânsia de noticiar mais rápido do que os outros, em tempos de comunicação quase simultânea graças à rede de internet e às mídias sociais (celulares inclusos), é que os jornalistas não refletem minimamente, com calma, sobre a dimensão da informação que recebem ou descobrem, passando para o leitor de forma inacabada e sem medir as consequências disso, sem preocupações com a qualidade do que informam, princípio basilar de sua atividade.

Kovach e Rosenstiel, na apresentação do livro “Os elementos do Jornalismo: o que os jornalistas devem saber e o público exigir”, deixam claro como os conceitos fundamentais e comuns na boa imprensa (neutralidade, imparcialidade e equilíbrio) se tornam distorções modernas da prática jornalística. Neste livro, no prefácio à edição brasileira, o jornalista Fernando Rodrigues, ao tratar da questão da independência dos meios, registra as indagações: “Quantas empresas jornalísticas podem ostentar o título de independentes no Brasil? Quantos jornais, emissoras de rádio e de TV conseguem sobreviver exclusivamente de suas receitas publicitárias e não aceitam interferência de anunciantes, de governos ou de grandes grupos econômicos em suas decisões editoriais?”.

Ao fazer tais indagações, ele evidencia o que motivou os autores a escreverem o livro, qual seja o argumento de que nenhum jornal nem jornalista é neutro nem independente. Por isso, é importante que o leitor ou telespectador tenha formação que lhe permita questionar, duvidar, testar e comprovar a informação transmitida pelos meios, para que não deixe influenciar por meias ou incompletas informações.

Em outras palavras, que perceba e entenda que o algoritmo da informação jornalística não é necessariamente preciso e que as mídias sociais, dada sua celeridade de informação, a exemplo dos meios tradicionais, é uma máquina de comunicação e o jornalista ora é máquina, ora é operador da informação e que ele, público e cidadão tem como papel nesse processo a exigência de que a informação lhes chegue de forma ética e com transparência no modo de apuração, que obriguem o jornalista a deixar claro como planeja seu trabalho e lhes fornecer o conteúdo necessário, que contribua ou não para a habilidade dos cidadãos em “exercer um papel mais informado no aprimoramento da sociedade”.

Essa questão se torna emblemática ao percebermos que ocorre uma complexa e bem argumentada análise entre os elementos que estão presentes na comunicação diária, com destaque para a comparação entre o jornalismo tradicional e o das novas mídias. Tanto em um como em outro, a narrativa é a linha que transforma o fato, recortado pelo acontecimento, em notícia de interesse e que possam despertar a atenção e influenciar o comportamento e a reação das pessoas.

Há, obviamente, que se ter cuidado com os chamados gatekeepers, os filtros dos veículos de comunicação que decidem o que vai ser objeto de notícia ou informação e que integram o que se denomina de Agenda Setting, ou seja, a habilidade para se determinar o que é importante e que está na cabeça de algumas pessoas.

Nos dizeres de Muniz Sodré “reportagem é a invenção da realidade, reconstrução de um agrupamento de imagens daquilo que aconteceu, filtrado pelas escolhas do jornalista”.

Sob a ótica de Flusser, o jornalista é um funcionário que opera em função dos aparatos e do sistema construídos pelo homem. O que nos leva à necessidade de conhecermos as raízes do trabalho do jornalista para entender os caminhos que ele escolhe para narrar o que conhece, vive e interpreta. É a forma para que possamos compreender quais os resultados finais que ele entrega à sociedade e como os paradigmas estabelecidos por meio da reflexão e da criatividade podem ser superados.

Hoje, as empresas de comunicação preferem e prescindem de profissionais com qualificação nas múltiplas plataformas de comunicação, além da destreza no uso da língua e das linguagens que essas plataformas requerem e possibilitam para produzir conteúdo informacionais.

Os profissionais precisam ter habilidades no uso dos artefatos de navegação da internet e participação nas redes sociais, além da maturidade psicológica e intelectual para realizar seu trabalho de coleta, seleção e organização das informações.

Mais do que isso é algo como o software humano atuando sobre o software computacional buscasse produzir, com a utilização de algoritmos e programas, imagens de síntese que representem formas mentais e visuais, decorrentes de modelos lógico-matemáticos nas dimensões possíveis. O jornalista é uma testemunha que tem a função de contar para seu público algo que ocorreu, pois, esse público não está presente aos fatos e acontecimentos.

A questão é que o bom jornalista, o jornalista ético, deve ter entre seus valores a verdade acima de tudo, o contexto dessa verdade, além da capacidade de narrar e explicar as implicações do relato que faz. A rigor, ao jornalista cabe transmitir a informação pura e deixar por conta a interpretação dos fatos. A narrativa jornalística provoca entendimentos múltiplos dado o conhecimento, o interesse, o envolvimento e o aprofundamento que seus receptores derem à notícia.

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Claudio Luiz de Carvalho é jornalista e Mestre em comunicação com especialização em gestão estratégica de empresas.

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