Quinta-feira, 24 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO ECONÔMICO

Os mistérios do PIB que encolheu

Por Rolf Kuntz em 04/12/2005 na edição 357

Dezembro começou com as primeiras páginas divididas entre duas grandes notícias, a redução do Produto Interno Bruto (PIB) e a cassação de José Dirceu. Dois dias depois a economia continuava em destaque, mas o noticiário sobre o cassado, o ex-poderoso ministro-chefe da Casa Civil, estava reduzido às controvérsias internas do PT. Com o tropeço econômico no terceiro trimestre, as atenções se haviam concentrado nas pressões contra o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.


Jornais começaram a cuidar do assunto antes de o IBGE divulgar os números de julho-setembro. Na véspera, O Estado de S.Paulo já apontava indícios de reanimação econômica a partir de novembro. Não havia dúvida sobre o mau desempenho no período recente. A única surpresa foi a extensão do tombo – uma queda de 1,2% em relação ao segundo trimestre.


Na quinta-feira (1º/12), nenhum leitor razoável poderia cobrar material mais extenso. Todos os grandes jornais dedicaram várias páginas à queda do PIB. Quase não houve diferença, entre um e outro, na grande massa do noticiário. O material foi aberto, de modo geral, com a apresentação dos números do terceiro trimestre e a revisão das projeções para o ano, reduzidas para algo em torno de 2,5%.


Todos publicaram os mesmos diagnósticos. Economistas atribuíram o mau desempenho a uma combinação de vários fatores, com destaque para ajuste de estoques, juros muito altos e câmbio valorizado. A crise política foi mencionada, mas quase sempre sem ênfase. Não houve surpresa em matéria de repercussões.


Empresários deram declarações furiosas contra a política monetária, mas aproveitaram também para falar mal dos impostos e do baixo investimento público em infra-estrutura. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, denunciou a teimosia do governo e cobrou participação do setor privado no Conselho Monetário Nacional (CMN). Como o conselho não fixa os juros, mas apenas a meta de inflação, presumivelmente ele defenderia uma inflação mais alta, assim como o senador Aloizio Mercadante.


Explicação crítica


A cobertura variou nos detalhes. O Estadão, por exemplo, deu uma boa matéria sobre o crescimento econômico dos emergentes, mostrando o Brasil como lanterninha na corrida internacional. A Folha de S.Paulo destacou uma informação de bastidor, a cobrança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao ministro Palocci.


Todos chamaram a atenção para os possíveis desdobramentos da guerra interna do governo. O mau resultado de julho-setembro favoreceria, supostamente, a turma da chefe da Casa Civil, ministra Dilma Roussef, na disputa com o ministro da Fazenda. Os números do IBGE seriam mais um argumento a favor de uma rápida redução dos juros e de um aumento dos gastos federais. Seria um resultado compatível com a temporada eleitoral prematuramente aberta. O presidente Lula dedicou-se, nos dias seguintes, a negar a intenção de sujeitar a política econômica ao objetivo da reeleição, mas isso, naturalmente, só se verá mais tarde.


No meio da ampla cobertura, desde a divulgação dos números do IBGE, faltou maior atenção a um detalhe: a explicação e a crítica dos próprios números. Afinal, que fatos foram apontados pelas estatísticas? Essa explicação seria fundamental para o leitor avaliar, com mais clareza e menos emoção, o tropeço econômico noticiado pela imprensa.


O mistério da série


A Folha mencionou na edição de sexta-feira (2/12) críticas ao trabalho do IBGE. Os números não teriam sentido, segundo avaliação atribuída a diretores do Banco Central. Mais tarde, o presidente do BC procurou amenizar a informação, procurando ressaltar o sentido técnico do problema. Em Londres, onde estava participando, como convidado, de uma reunião do Grupo dos 7 (países mais industrializados), o ministro Palocci chamou a atenção para aspectos técnicos da mensuração do PIB, especialmente no caso da agricultura. O Estadão deu bom destaque à entrevista.


A Folha tratou um pouco mais extensamente a questão de método, mas deu mais ênfase à hipótese de erro do IBGE, atribuída ao diretor de Política Econômica do BC, Afonso Beviláqua.


Nenhuma das matérias foi mais fundo nessa questão. Mas valeria a pena ter esclarecido alguns pontos. Para começar, é difícil entender como se estimou a redução de 3,4% do PIB agrícola na comparação com o segundo trimestre. Os cálculos foram baseados principalmente nas colheitas de laranja, café e trigo. Mas esses produtos são colhidos apenas uma vez por ano. No caso de café e laranja, trata-se, além do mais, de cultivos permanentes, sem plantio anual afetado pela conjuntura.


É fácil entender como se comparam os dados trimestrais de produções continuadas, como as de automóveis, tecidos, sabonetes, brinquedos, televisores e geladeiras. Mesmo havendo variações sazonais importantes, as comparações fazem sentido para qualquer pessoa e até o leigo é capaz, intuitivamente, de descontar os efeitos do Natal, do Dia das Mães e do Dia das Crianças.


É fácil entender, também, o confronto da produção de soja, de café ou de trigo com a do ano anterior, mas é um mistério a inclusão desses dados numa série de trimestres consecutivos. Os técnicos do IBGE têm competência para contornar de alguma forma essas dificuldades. Mas o artifício produz, obviamente, um resultado intrigante, que deve ter ocorrido também noutros anos. Afinal, o que estamos comparando com quê?


Repercussão previsível


Nenhum economista respeitado, no Brasil, discute a seriedade e a competência do pessoal do IBGE. Não é esse o problema. O que valeria a pena procurar seria uma explicação mais completa, dentro dos limites da comunicação jornalística, para certos aspectos misteriosos dos números. A mesma preocupação seria justificável no caso do consumo do governo, outro componente um tanto intrigante das contas divulgadas.


Um pouco mais de atenção a itens como esses contribuiria para uma avaliação melhor tanto da retração no terceiro trimestre – um fato, à primeira vista, indiscutível – quanto de suas causas.


Juros menores teriam alterado as colheitas de café e laranja? É altamente improvável. Afetaram o consumo do governo? É igualmente improvável. Mas poderiam, quase certamente, haver favorecido a produção industrial e, talvez, o investimento. Mas parte da retração do investimento resultou a crise na agricultura, e não diretamente dos juros.


Se é difícil entender como se incluem as colheitas de laranja, café e trigo no cálculo do PIB trimestral, é fácil, no entanto, perceber como o apertos dos agricultores afeta a demanda de bens industriais. Parte da contração do investimento é atribuível a essa causa. Sem dinheiro e sem perspectiva de ganhos muito maiores no próximo ano, produtores agrícolas adiaram novas compras de tratores. Isso, sim, é facilmente inteligível e esse ponto foi razoavelmente explorado.


Os jornais não poderiam ter menosprezado a exploração política dos números do IBGE, nem a repercussão entre os empresários. Mas parte dessa repercussão era chapadamente previsível e valeria a pena ter deslocado uma fração do esforço para a decifração dos mistérios técnicos. Seria uma bela cereja no topo do grande bolo da cobertura. [Postado às 6h55 de 5/12/2005]

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