Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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IMPRENSA EM QUESTãO > COBERTURA ECONÔMICA

Os mistérios do poderoso Sr. Focus

Por Rolf Kuntz em 22/02/2005 na edição 317

O Sr. Focus está virando uma das figuras mais importantes da República. Suas opiniões são noticiadas com destaque pela imprensa. Suas projeções, tratadas com reverência, são repetidas em jornais e em programas de TV. De vez em quando um redator distraído atribui ao Banco Central as previsões do Sr. Focus. O engano aparece geralmente em títulos – tituleiros fazem coisas notáveis –, mas o erro não é um completo absurdo. Afinal, as opiniões dessa influente figura são citadas também, de forma respeitosa, nas atas do Copom, o Comitê de Política Monetária. São levadas em conta por quem decide os juros básicos da economia brasileira.

Talvez a imprensa devesse tratar com mais cuidado, e não só com respeito, uma figura que se vem tornando tão poderosa. Suas opiniões talvez não sejam inocentes ou apenas técnicas. Talvez sejam inocentes, mas não tão competentes quanto as pessoas parecem supor. Ou talvez fossem mais inocentes no começo, quando não tinham notoriedade e eram dirigidas quase só ao BC. Não se trata de suspeitar, nem de acusar. Convém, simplesmente, praticar uma saudável curiosidade.

Luz sobre as caraminholas

Mas quem é, afinal, o Sr. Focus? Segundo a explicação oficial, não é uma pessoa. Dizem os entendidos que esse é apenas o nome de uma pesquisa regular do BC [relatório Focus, resumo econômico periódico publicado pelo Banco Central] realizada com cerca de uma centena de instituições financeiras e escritórios de consultoria. A cada semana são divulgados números dessa pesquisa. São projeções de vários indicadores de inflação, de crescimento econômico, de resultados das contas externas e assim por diante.

Nos jornais e na TV, essas previsões são atribuídas habitualmente ao ‘mercado’, uma entidade com talentos quase sobrenaturais. Em geral não se acrescenta ao nome o adjetivo ‘financeiro’. É como se os demais mercados – de soja, de arroz, de petróleo, de automóveis, de tornos mecânicos, de camisinhas e de alimentos para gatos, para citar só uns poucos – fossem exemplos secundários. O mercado por excelência, aquele ao qual se aplica o nome com perfeição, seria apenas aquele, o supremo, o financeiro. Se assim é, para que usar o adjetivo?

Outro detalhe interessante é que o BC divulga, habitualmente, apenas a mediana das projeções. Essa mediana é tratada, em cada caso, como a projeção do mercado, indicada por um inequívoco artigo definido. Esse linguajar, somado à reverência com que se trata esse tal mercado, justifica a suspeita de que se trate de uma pessoa misteriosa, que se pode muito bem denominar Sr. Focus.

Sendo essa figura uma entidade superior, não fica bem pedir explicações sobre seus prognósticos. Assim, pelo menos, parecem pensar muitos pauteiros e repórteres. Se o Sr. Focus declara que a inflação vai subir, cabe à imprensa noticiar que essa é a sua projeção. Para que indagar como chegou a essa conclusão? Ou para que perguntar por que as suas projeções de inflação não caem, apesar da contínua elevação dos juros básicos?

É verdade que o Sr. Focus não se apresentará diretamente para responder aos jornalistas, se quiserem pedir-lhe explicações. Não sendo possível uma entrevista com esse cavalheiro, pode-se pelo menos procurar pessoas capazes de fornecer respostas parciais ou dar uma noção, embora imperfeita, do que ocorre na cabeça do Sr. Focus. Expor à luz suas caraminholas talvez seja mais do que mera impertinência de fofoqueiro. Afinal, parece claro que os senhores do Copom se impressionam com a resistência das projeções de inflação coletadas em sua pesquisa. Esses detalhes, portanto, parecem ser de interesse público.

Gastar sola de sapato

Um técnico do setor financeiro mencionou há poucos dias, como fator preocupante, a elevada ocupação da capacidade produtiva da indústria. Foi uma rara ocasião em que se poderia ter esmiuçado um pouco mais o assunto, se o repórter tivesse curiosidade. Mas o entrevistado não disse mais que isso, nem mais lhe foi perguntado. Não se procurou saber, por exemplo, por que imaginava tão limitado o potencial de ampliação da oferta nos próximos meses. Segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada no fim de 2004, problemas de abastecimento são pouco prováveis neste ano. De acordo com esse levantamento, a maior parte dos segmentos da indústria ainda tem folga para atravessar 2005.Além disso, os segmentos com ociosidade perigosamente reduzida são os que mais estão investindo.

O IBGE, a Fundação Getúlio Vargas e a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos têm divulgado informações que reforçam, ou parecem reforçar, aquela avaliação dos técnicos da CNI. Essas avaliações são levadas em conta quando se fazem projeções da inflação? Isso não está claro, mas pauteiros e repórteres parecem não se emocionar muito com a questão.

Além do mais, não se pode avaliar o efeito do investimento apenas com base no valor investido. Em muitos casos, e isto foi mencionado numa reportagem recente, pequenos gastos podem contribuir de forma importante para desapertar a capacidade produtiva.

Outro ponto importante e raramente lembrado nas entrevistas sobre o assunto é a mudança tecnológica. Não basta saber quanto se está investindo, é preciso levar em conta a qualidade do investimento. Grande parte do prolongado crescimento econômico americano, na última década, é explicável pela mudança tecnológica e não pelo montante de capital aplicado. Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, chamou a atenção muitas vezes para o efeito dessa mudança nos ganhos de produtividade.

Detalhes desse tipo são normalmente negligenciados pelos jornalistas e pelos especialistas que falam em nome do poderoso Sr. Focus, também conhecido como ‘o mercado’. Mas, para conhecer e valorizar detalhes como esses, convém usar um pouco menos o telefone, sair mais da redação e ir ver como funciona, materialmente, o sistema produtivo.

Ficar tempo demais na redação talvez não faça mal à saúde, mas com certeza faz mal ao jornalismo.

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