Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Os ‘nossos’ corruptos e os ‘deles’

Por Luciano Martins Costa em 17/07/2007 na edição 442

Somente a Folha de S. Paulo, em reportagem de Cátia Seabra e por iniciativa pessoal do colunista Elio Gaspari, saltou o muro do viés que classifica os corruptos brasileiros em duas categorias distintas – os ‘nossos’ e os ‘deles’ – e manteve em pauta, com espaços compatíveis, o caso nacional Renan Calheiros e o caso paulista no qual o deputado estadual Mauro Bragato, do PSDB, é acusado de improbidade administrativa na Secretaria de Habitação, durante o governo Geraldo Alckmin (PSDB), envolvendo a CDHU – Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano.

De modo geral, no episódio que envolve o presidente do Senado, a imprensa tem mantido o relho em movimento, o que dificulta o arreglo muitas vezes ensaiado em Brasília. No caso paulista, o deputado Mauro Bragato, do PSDB, acusado pela polícia e pelo Ministério Público de envolvimento no superfaturamento de obras de casas populares, tem sido beneficiado com alguns lapsos na cobertura.

Na edição de domingo, dia 18 de julho, Gaspari publicou o comentário no qual registra o ‘momento Renan’ dos tucanos, observando que o deputado do PSDB conseguiu que o Conselho de Ética da Assembléia Legislativa, controlado pelo seu partido, rejeitasse a denúncia que o incomodava, empurrando o assunto para longe da pauta. A manobra deve colocar o tema numa fila de propostas de CPI, pela qual somente poderá ser ressuscitado no segundo semestre de 2008. Os tucanos paulistas ‘justificam’ a atitude afirmando ter utilizado o mesmo item do regimento interno que permitiu ao PT arquivar, em 2003, um dos muitos pedidos de investigação levados pela oposição ao Congresso.

‘Se a Assembléia de São Paulo não deve tratar do caso de Bragato, por que o Senado deve discutir o de Renan?’, questiona Elio Gaspari, levantando o essencial nas disputas que envolvem corrupção em ambos os lados das forças políticas predominantes no País. Sempre haverá os amigos do príncipe a argumentar que uma coisa é o presidente do Senado e outra coisa é um deputado estadual em São Paulo. Também há os que poderiam argumentar que um escândalo envolve a fonte de receita para o ajuste de contas por supostos serviços sexuais e outra coisa bem mais grave é o desvio de verbas destinadas a amenizar o problema social da carência de habitações.

Perpetuando os piores vícios

Na verdade, ambos episódios são, ao que indicam os fatos já noticiados, parte do sistema que transforma os negócios públicos em fonte de receita para bandidos, que o utilizam para enriquecimento pessoal e para a construção dos esquemas de poder que perpetuam os piores vícios da República.

Quanto ao funcionamento da imprensa, a diferença mais notável entre um e outro caso, porém, é que a cobertura do episódio Renan não sofreu arrefecimento, mesmo em dias de agitadas atividades da Polícia Federal, enquanto a acusação contra o deputado tucano vem desaparecendo da pauta ou sendo recolhida aos desvãos do noticiário. A honrosa exceção, repita-se, é a Folha de S.Paulo, que tem demonstrado mais disposição para seguir questionando não apenas as razões dos tucanos paulistas para impedir a investigação do escândalo na CDHU, mas também mantém acesa a chama sob Renan Calheiros e faz o suficiente para nos lembrar que a renúncia do senador Joaquim Roriz não o exime de prestar contas das falcatruas de que é acusado.

Bem apurados, esses casos poderiam conduzir a alguma luz sobre as raízes de algumas de nossas grandes carências, como o déficit habitacional, as deficiências de infra-estrutura que atrapalham o crescimento do País, o atraso na educação, que reduz as chances de milhões de jovens brasileiros e a falta de segurança. A cada denúncia que se esvazia em acomodação e esquecimento, reforça-se no imaginário popular a idéia de que a democracia não é capaz de assegurar um mínimo de justiça e esperança de dias melhores. A desproporção entre o escândalo com que os casos de corrupção ganham as primeiras manchetes e o silêncio que se sucede ao acerto de interesses vai progressivamente reduzindo também a credibilidade da própria imprensa.

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Jornalista

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