Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Os planos do El País

Por Talita Moreira em 18/05/2011 na edição 642

As diferenças entre as edições nacional e global no site do El País são apenas a parte mais visível dos esforços que o principal jornal da Espanha tem feito para crescer além de seu mercado doméstico.


A Prisa, companhia que edita o diário espanhol, estabeleceu uma equipe em Miami e colocou a América Latina no foco dos projetos do grupo para as mídias digitais. A região é vital para a companhia cumprir o objetivo de dobrar, em um prazo de três a cinco anos, a audiência que tem em seus serviços on-line.


Atualmente, a empresa contabiliza 70 milhões de visitantes únicos em um conjunto de sites como os do El País, do jornal esportivo AS e da rádio Cadena Ser. Eram 46 milhões no fim do primeiro trimestre do ano passado.


Dez anos


As razões para a aposta no mercado latino-americano são naturais. ‘Há cerca de 700 milhões de pessoas que falam espanhol ou português ao redor do mundo. Queremos alcançar um número muito maior de leitores que possam ter interesse em notícias e conteúdo educativo em espanhol’, afirma Kamal Bherwani, diretor-geral da área digital da Prisa. ‘Não há dúvidas de que vamos aumentar os investimentos na América Latina.’


Indiano radicado nos Estados Unidos, Bherwani mudou-se de Nova York para Madri, no início do ano passado, com uma missão difícil: conduzir a transição da companhia que edita o El País para as mídias digitais, tarefa que coincidiu com uma dura crise econômica na Espanha. ‘Queremos ser mais globais e mais digitais’, afirma o executivo.


A travessia tem custado à Prisa – como a qualquer empresa de mídia ao redor do mundo – alguns ajustes desafiadores. O maior deles é interno: convencer os jornalistas veteranos a mudar o método de trabalho que usaram a vida inteira, o de apurar uma história, ir para a redação e escrever um texto que só será publicado no dia seguinte.


‘Mudanças são sempre traumáticas, é inevitável’, afirma o executivo. Mas Bherwani está otimista. A questão do trabalho é transitória e as pessoas vão se adaptar ao ritmo da internet, assim como os arquitetos trocaram lápis e prancheta por um software de desenho, diz ele.


Dificuldades à parte, o Bherwani aposta nas mídias digitais para que a Prisa consiga dar um passo além do que alcançou com o jornal em papel: ser a publicação mais influente entre os leitores hispânicos. A internet permite à companhia produzir e divulgar notícias regionais sem ter de arcar com os pesados custos de impressão e distribuição.


Na América Latina, o jornal El País tem edições impressas no México e na Argentina. Na Espanha, o diário tem uma circulação de quase 400 mil exemplares – é a maior tiragem de um periódico não desportivo nesse país. O volume aumentou 3% em março, comparado a igual mês do ano passado.


Porém, Bherwani não vislumbra muita longevidade para os jornais impressos. ‘Se você me perguntar quando vai acabar o jornal em papel, eu não sei. Mas não acho que vá sobreviver por mais dez anos’, afirma.


Foco nas pessoas


Com o intuito de se preparar para um futuro totalmente digital, o El País unificou, em 2009, as redações do jornal impresso e do noticiário on-line. No ano passado, lançou o Eskup – uma comunidade para o intercâmbio de notícias, que podem ser enviadas e comentadas por jornalistas e leitores.


A área digital é a única na qual a Prisa tem aumentado seus investimentos, enquanto implementa uma profunda redução de custos no grupo para atravessar a crise espanhola. A companhia anunciou que vai cortar 2,5 mil postos de trabalho até o início de 2012.


Os investimentos programados para as novas mídias, neste ano, são de € 8,74 milhões. Pode parecer pouco diante dos € 76,9 milhões previstos para todas as áreas do grupo, que vão da TV por assinatura até uma editora de livros e somaram uma receita de € 2,8 bilhões no ano passado. No entanto, a rubrica ‘digital’ sequer aparecia nas demonstrações financeiras de 2010.


Segundo Bherwani, boa parte dos investimentos tem sido direcionada à experimentação. Recentemente, a Prisa criou um comitê executivo que funciona como uma espécie de incubadora: recebe as ideias que vêm dos funcionários do grupo, analisa as sugestões e testa algumas delas. ‘Essas ideias estão vindo dos jovens, de gente em começo de carreira. As pessoas muitas vezes não entendem essas ideias, mas depois de alguns anos elas se tornam relevantes’, avalia.


A partir desse processo de tentativa e erro, a Prisa escolhe os projetos nos quais vai investir. Alguns têm o propósito de aumentar a audiência, outros têm como alvo uma nova tecnologia e também existem aqueles nos quais a prioridade é obter receita. No entanto, muitos desses investimentos visam apenas ganhar conhecimento. ‘Estamos numa fase de fazer investimentos em mídia digital. Não chegou ainda a fase de ganhar dinheiro’, afirma o executivo.


Para Bherwani, ainda não está claro qual vai ser o modelo de negócios da Prisa nas plataformas digitais. Segundo o executivo, faz sentido o sistema de micropagamentos adotado pelo Financial Times e pelo The New York Times para cobrar por informação de alta qualidade, mas também há espaço para conteúdo grátis. ‘Nosso primeiro objetivo é aumentar a audiência, aumentar o conteúdo global e atrair mais atenção dos leitores, para só então decidir como vamos gerar receitas com isso’, diz.


O que já está definido é que o foco dos negócios, daqui para a frente, está no consumidor e não na plataforma de distribuição do conteúdo. ‘Agora não é mais o rádio ou o livro, mas as pessoas e o que elas querem’, afirma. ‘O poder está centrado no consumidor. Você ou seus parceiros têm de oferecer tudo o que ele deseja.’


***


Contexto


O jornal El País foi fundado em 1976 por José Ortega Spottorno. A primeira edição circulou no dia 4 de maio daquele ano. Na ocasião, fazia poucos meses que o general Francisco Franco havia morrido e a Espanha iniciava sua transição democrática, depois de quase quatro décadas de uma violenta ditadura.


O jornal teve um papel importante na retomada do processo democrático. Em 1981, quando um golpe militar encurralou o governo e os parlamentares no Congresso, o El País apoiou a resistência do rei Juan Carlos. A publicação saiu com uma edição especial a favor da Constituição, conclamando os leitores a defender a democracia.


Dali em diante, o El País teve uma relação muito próxima com o Felipe González, primeiro-ministro espanhol entre os anos de 1982 e 1996. Ainda hoje, é considerado um jornal que conversa com os socialistas, embora tenha uma postura crítica em relação ao atual primeiro-ministro da Espanha, José Luis Rodriguez Zapatero.

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