Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > RADIOBRÁS

Os problemas do jornalismo multimídia

Por Juliana Cézar Nunes em 24/07/2007 na edição 443

Implantado na Radiobrás a partir de 2003, o jornalismo multimídia tem se destacado como uma experiência pioneira, mas com uma série de distorções em sua condução. Em Brasília, a empresa pública de comunicação é a única a adotar o sistema de uma forma centrada nos repórteres, que produzem, simultaneamente, conteúdo em tempo real e reportagens para rádio (quatro emissoras e uma radioagência), agência de notícias na internet e, eventualmente, TV.


Outros veículos de comunicação nacionais chegam a disponibilizar conteúdos em mais de um formato. No entanto, eles são produzidos por profissionais diferentes, acompanhados por produtores e editores que unificam o material apurado para mídias específicas. Esta também é a tendência seguida por meios de comunicação internacionais, convencidos de que a produção multimídia diária de notícias é inviável.


O cotidiano na Radiobrás, especialmente para os jornalistas da Agência Brasil, evidencia as dificuldades de aplicação do conceito repórter-faz-tudo. Mostra que o importante é ter uma empresa e uma redação efetivamente organizadas para oferecer ao cidadão um material diversificado e substancial, em áudio, texto, vídeo, imagens e infográficos.


Oficinas e discussões


Quando apenas o repórter é multimídia, perde-se em qualidade, profundidade de conteúdo, velocidade na informação e saúde do profissional, obrigado a trabalhar excessivamente para cumprir todas as tarefas.


Esse quadro levou os jornalistas da empresa, por meio da Comissão de Empregados do Jornalismo e do Sindicato dos Jornalistas, a exigir uma nova formatação do trabalho e a marcar uma paralisação do serviço multimídia caso o sistema não seja alterado. A empresa necessita reconhecer a existência de um processo equivocado de mudanças, até para evitar que erros cometidos sejam reproduzidos na nova rede pública de comunicação.


Em 2002, existiam equipes distintas em cada veículo da Radiobrás. Eram organizadas reuniões entre chefes de reportagem para definir prioridades baseadas nas agendas de ministros, em uma cobertura muito voltada para as ações do Executivo, que não levava em conta a agenda da sociedade civil e diferentes atores políticos.


Com a chegada de uma nova diretoria de jornalismo, em 2003, além de uma linha editorial mais aberta a outras ‘vozes’ da sociedade, começou a ser desenvolvida a idéia de uma central de pauta para unificar o trabalho, principalmente, da rádio e da agência. Ocorreram algumas oficinas e discussões para tentar adaptar a linguagem entre os meios. Chegou a ser produzido um manual com dicas para os profissionais.


Ao vivo de hora em hora


Em órgãos como o Ministério da Justiça e o Palácio do Planalto, em vez de dois ou três repórteres produzindo conteúdo para rádio e internet, separadamente, a Radiobrás passou a ter jornalistas apurando e fechando, individualmente, material para os dois veículos. Esse sistema não foi aceito por muitos profissionais, que acabaram demitidos ou pediram demissão.


Outros solicitaram e continuam pedindo transferência de área para atuar em programas locais da rádio ou da TV, onde as chefias não exigem a produção multimídia. A Agência Brasil passou a ser um núcleo único desse trabalho na empresa, o que sobrecarrega seus profissionais (repórteres e estagiários) e diminui a qualidade do material veiculado na rádio e na internet.


O quadro de repórteres da agência foi renovado em cerca de 80%, com jornalistas concursados, que já chegaram à redação após a implantação do sistema e não encontraram muito espaço para o debate sobre as práticas multimídias, nem mesmo para um processo de treinamento e avaliação continuado.


Atualmente, um repórter da Agência Brasil que chega às 8h à empresa sabe que, além de notas em tempo real e matérias consolidadas para o site, necessita fazer diversas entradas ao vivo de hora em hora (Revista Brasil, Nacional Informa e Tarde Nacional), gravar para três programas de rádio (Notícias da Manhã, Repórter Nacional e Voz do Brasil), além de abastecer a Radioagência Nacional. Em viagens internacionais e coberturas especiais, é exigida ainda produção para a TV.


‘Perdemos o fio da meada’


Os noticiários de rádio nem sempre costumam aproveitar as mesmas matérias e chegam a pedir enfoques diferenciados. A Voz do Brasil, cuja linha editorial é voltada para a cobertura oficial do Executivo, solicita alterações freqüentes nos textos. Essa sobrecarga de demandas e orientações para os repórteres da agência tem, com freqüência, gerado desentendimentos na redação que tornam o trabalho multimídia ainda mais desgastante.


A utilização de sonoras de qualidade e sons de fundo nas reportagens tornou-se praticamente impossível. Com isso, as matérias de rádio, além de problemas de locução e informação, pecam ao não conter elementos que tornem a reportagem mais atrativa para o ouvinte.


Nota-se que a cobertura multimídia rádio-agência apresenta problemas nas características intrínsecas dos principais veículos a que atende. O rádio possui como características a linguagem oral, a mobilidade, o baixo custo, o imediatismo e a instantaneidade, a sensorialidade, a autonomia e a penetração. Já a internet, também exige a instantaneidade, não-linearidade, simultaneidade e multiplicidade. A problemática sobreposição de características fica bem clara no relato de um dos repórteres da agência:




‘O principal gargalo da atividade multimídia é ter que me desdobrar para tentar atender aos interesses da agência e da rádio ao mesmo tempo. O problema se torna mais crítico no caso das pautas marcadas para depois de 11 horas. A rádio quer matéria, na maioria dos casos ao vivo, para o Repórter Nacional, que começa ao meio-dia. Muitas vezes temos que sair de uma coletiva ou um evento para entrar no jornal ao vivo por telefone. Quando voltamos, perdemos o fio da meada e temos que recorrer a colegas ou a assessores para recuperar o que ficou para trás. Sempre deixo o gravador ligado para não perder a fala do entrevistado; mesmo assim é complicado porque não dá para ouvir ali, na hora. Só vou escutar o que perdi quando volto para a redação. Muitas vezes, o lead está justamente ali no trecho que perdi e o pior é que eu não estava presente para tirar uma dúvida ou insistir em determinado assunto com o entrevistado.’


Estresse e aborrecimentos


Os jornalistas reclamam ainda que, no momento do concurso e da contratação, a condição multimídia no trabalho não é mencionada. Uma vez na redação, eles se sentem coagidos a atuar para mais de um veículo, sem remuneração adicional, como demonstra o depoimento a seguir:




‘Quando fui contratada na Radiobrás, fui contratada para trabalhar na Agência Brasil. No meu primeiro dia de trabalho é que soube que, além de matérias para a agência, teria que fazer matérias para a rádio. Uma pessoa que acaba de entrar numa empresa é contratada para trabalhar para um veículo e, depois que já está dentro da empresa, depois de assinar contrato, fica sabendo que vai trabalhar para dois veículos. Agora eu pergunto: como uma pessoa que acaba de ser contratada vai se negar a fazer os dois veículos? A pessoa faz o concurso, passa, espera ser chamada e, quando finalmente aparece uma vaga, o repórter recém-contratado fica sabendo que, na verdade, foi contratado para fazer dois veículos. A pessoa acaba aceitando fazer multimídia porque não tem escolha.’


Pressionados a exercer uma atividade múltipla, os jornalistas se vêem praticamente obrigados a escolher para qual veículo vão produzir um material mais qualificado, como relata um dos profissionais insatisfeito com o atual sistema:




‘Nas entrevistas, no meu caso, foco sempre o texto para a agência. O trabalho para o rádio fica em segundo plano: gravo as entrevistas e depois vejo o que serve para uma sonora. Se fosse um repórter de rádio, ele iria direcionar a pergunta que melhor preenche uma sonora. Já aconteceu de fazer a entrevista e não ter informação alguma para usar como sonora, justamente por não ser um repórter acostumado com a linguagem de rádio. Preparar o texto para o rádio é um sufoco – gasto um bom tempo, enquanto o texto para a agência sai com maior fluidez. E pior: por exemplo, já no final do expediente, após produzir três matérias para a agência – média diária – ainda temos que preparar para o rádio. Há cansaço mental, estresse e tentativa de acabar logo – o que resulta num trabalho muitas vezes de péssima qualidade. Os editores de rádio – com razão – sempre buscam um melhor resultado, só que nem sempre dá para atender por diversos motivos, e isso acaba gerando estresse, aborrecimentos e discussões.’


A vítima é o cidadão


Os equívocos e as assimetrias na aplicação do jornalismo multimídia na Radiobrás ficam evidentes na cobertura das pautas relacionadas ao presidente da República. Os setoristas do Palácio do Planalto produzem material para a rádio e agência a respeito das atividades do presidente e até sobre as diversas cerimônias ocorridas no local.


Em muitas viagens presidenciais, como normalmente a empresa envia apenas um repórter da TV, o setorista do Palácio do Planalto é obrigado a fazer matérias sobre o discurso do presidente e o evento a partir de transmissões televisivas. Nesse caso, além de multimídia, o repórter da Agência Brasil torna-se onipresente. Fala ‘ao vivo de Brasília’ sobre um fato em Manaus ou Nova York, por exemplo.


Outra distorção é o jornalismo multimídia na Radiobrás envolver também, de maneira desorganizada, os estagiários. Despreparados para a função, eles chegam a cobrir lançamentos de programas do governo federal para rádio e agência. Não existe um programa estruturado de acompanhamentos dos estagiários. No esforço de fazer um bom trabalho, muitos estudantes acabam por reduzir sua dedicação às atividades universitárias, conforme o relato a seguir:




‘Acho que como estagiária meu principal objetivo na Radiobrás é aprender na prática o que me foi ensinado na faculdade. Concordo que fazer um jornalismo multimídia tem sido uma grande oportunidade para adquirir novas técnicas e novos conhecimentos. O problema está na forma como as funções são cobradas dos estagiários. Muitas vezes não temos tempo hábil para fechar matérias para rádio e agência durante nosso expediente. A conseqüência disso é que, na maioria das vezes, pelo menos no meu caso, a qualidade do trabalho fica comprometida. Perco um tempo grande para fazer matérias de rádio, que muitas vezes não são utilizadas nos programas, e o texto escrito para a agência perde em qualidade de detalhes e correções. Para os estagiários, o acúmulo de funções ainda acarreta em ficar depois do horário, fato que prejudica, e muito, nosso desempenho escolar. No meu caso, por exemplo, esse semestre eu quase reprovei por falta em duas matérias. Concordo com o jornalismo multimídia, mas para cobrar dos profissionais também é preciso dar suporte para que as funções sejam desempenhadas com o mínimo de qualidade possível.’


Todos esses relatos e considerações mostram que a proposta de jornalismo multimídia na Radiobrás precisa ser revista de forma urgente. O teste dos limites dos repórteres, especialmente da Agência Brasil, chegou a um patamar insustentável. Não há, da parte desses profissionais, resistências conceituais a novas práticas de comunicação. No entanto, o sistema precisa ser organizado, avaliado e construído de uma maneira mais democrática. Às vésperas da criação da rede pública, mudanças internas não deixam de ser relevantes e urgentes. Sob pena de ampliarmos um modelo de gestão no qual a principal vítima é o cidadão, que deixa de ser informado de maneira precisa, rápida, ampla e criativa.

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Jornalista, Brasília, DF

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