Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

IMPRENSA EM QUESTãO > PRÊMIO ESSO

Os trombones não devem silenciar

Por Alberto Dines em 21/12/2004 na edição 308

Perguntar não ofende: por que razão os diretores de redação do Estado de S.Paulo e da Folha só agora resolveram implicar com os critérios do Prêmio Esso? Alguma novidade foi introduzida secretamente, alguma alteração enfiada na calada da noite na organização de um prêmio que existe há 49 anos? [Veja abaixo remissão para a carta dos diretores à organização do Prêmio Esso.]

O que teria provocado a inédita parceria dos dois gigantes do jornalismo diário?

Como todos os prêmios de jornalismo concedidos no Brasil, o Esso tem falhas significativas tanto na concepção como no regulamento. Os veículos que concorrem ao tradicional galardão jamais repararam nelas. Conviviam com os defeitos por hábito. Ou porque deles poderiam tirar vantagens. Não fossem os reparos deste Observatório ao longo dos anos, o Esso poderia ser apontado como impecável. Está longe disso.

O que mudou? O fato novo, deflagrador, parece ter sido o Grande Prêmio de Jornalismo, novamente concedido ao Globo. Os reclamantes sentiram-se prejudicados com a escolha, pressentiram nova conspiração armada pelo grupo da Vênus Platinada em conluio com a antiga Standard Oil e botaram a boca no trombone.

Pauta objetiva

Justifica-se a vigilância das empresas concorrentes em cima das Organizações Roberto Marinho. O maior grupo brasileiro de mídia precisa ser atentamente observado, seus movimentos pedem um rigoroso escrutínio pelos efeitos que podem produzir na vida nacional. Sua cruzada contra a Ancinav, por exemplo, transcende os defeitos do novo órgão e atende apenas aos seus interesses como empresa hegemônica.

Mas em matéria de jornalismo investigativo, o jornal Globo dá um banho. Enquanto os concorrentes aceitam os trambiques do Casal Governador, o antigo vespertino os denuncia. Não fosse o escarcéu armado pelo jornal, o famoso e vergonhoso ‘propinoduto’ continuaria a drenar recursos do erário para os bolsos da máfia política local. [O jornal também entrou em assuntos espinhosos como a máfia dos combustíveis e suas vinculações com o órgao estadual de fiscalização ambiental; uso da máquina administrativa em troca de votos nas eleições municipais deste ano; esquema de fraudes no Detran do Rio; corrupção no Tribunal de Contas da União, entre outros.]

A premiada série de matérias sobre a devassidão reinante na Assembléia Legislativa fluminense é exemplar. Jornalismo investigativo da melhor cepa, reportagem de campo clássica. Se adotada como modelo para coibir os desmandos dos parlamentos estaduais poderá alterar decisivamente nossos costumes políticos e composturas pessoais.

A queixa EstadãoFolha na véspera do anúncio do prêmio parece motivada por razões subjetivas, talvez fruto da renhida disputa ocorrida nos bastidores do júri. Terminada a peleja, os reclamantes têm uma pauta objetiva para nela colocar o mesmo empenho: corrigir as falhas estruturais do Prêmio Esso e, ao mesmo tempo, moralizar a onda premiadora alimentada pelos marqueteiros que distorce e corrompe a busca da excelência jornalística.




A carta dos diretores


São Paulo, 10 de dezembro de 2004


À Esso Brasileira de Petróleo


À RP Consultoria em Comunicação


No Brasil e no mundo, o jornalismo vive momentos de efervescência. São discutidos rumos, modelos, procedimentos. Confrontado pela competição entre várias plataformas noticiosas, o consumidor de informações mudou e está mais exigente. Como nunca, discute jornalismo e questiona os meios de comunicação.


Com desalento, constatamos que o Prêmio Esso, considerado uma referência no jornalismo impresso brasileiro, tem passado ao largo desse rico e oportuno debate. Sua estrutura atual conspira contra a análise do mérito jornalístico dos trabalhos. A composição do corpo de jurados não é representativa do mercado editorial do país e tende a favorecer determinados grupos de mídia.


Com a preocupação primeira de buscar a qualidade jornalística, a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo manifestam sua inconformidade com os atuais processos de funcionamento do prêmio e sugerem a discussão de mudanças substantivas para que a premiação recupere o grau de excelência que imaginamos seja também o objetivo da companhia.


Otavio Frias Filho, Diretor de Redação (Folha de S.Paulo)


Sandro Vaia, Diretor de Redação (O Estado de S.Paulo)


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