Domingo, 09 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Os vexames da
imprensa educadora

Por Alberto Dines em 22/10/2007 na edição 455

‘Os livros didáticos refletem ou distorcem a realidade?’ Esta é a pergunta da capa da última edição da revista Época.


A matéria é de certa forma uma continuação do debate suscitado por um oportuno artigo do jornalista Ali Kamel publicado há um mês em O Globo. Depois de examinar a matéria da revista fica-se com vontade de mudar a pergunta: ‘Nossa imprensa reflete ou distorce a realidade?’


Para começar: o título da capa – ‘O que estão ensinando a nossas crianças’ – é impróprio. O mais correto seria ‘O que estão ensinando às nossas crianças’, como, aliás, está na abertura da reportagem.


Se a revista sabe o que é certo, por que escolheu para a capa justamente o titulo menos correto?


Mas a bomba está escondida no fascículo do ‘Guia Época de Vestibular’ que acompanha a revista e foi preparado por uma empresa privada.


O fascículo trata do Oriente Médio e nele constam erros grosseiros, impropriedades e, sobretudo, graves preconceitos dos seus autores. Principais erros do fascículo 9, ‘O Oriente Médio em Pé de Guerra’:






** O destino da região não foi selado em 1918 ‘por uma intervenção franco-britânica’. Foi o fim do império otomano que produziu um redesenho do mapa regional não apenas na Palestina, mas também no Líbano, Síria, Iraque, margem oriental do rio Jordão e península arábica.


** O sionismo não foi fundado pelo jornalista Theodore Herzel (o nome correto é Theodor Herzl), ele criou o sionismo político. O movimento de massas dos ‘amantes de Sion’ é anterior ao projeto do jornalista.


** Dizer que o ‘organizado sionismo contava com forte retaguarda financeira de banqueiros judeus de Londres’ é uma mistificação. Equivale a dizer que a luta dos palestinos por seu estado só conta com a forte retaguarda dos sheiks do petróleo.


** A Declaração Balfour para a criação de um Lar Nacional Judeu na Palestina não criou o problema, tratou-se de promessa da potência mandatária. O desrespeito à decisão da ONU votada em Novembro de 1947 de partilhar a Palestina em dois estados foi a responsável pelos problemas que se arrastam até hoje.


** É um perigoso eufemismo afirmar que em 1948 ‘os árabes não aceitaram aquilo que denunciavam como um corpo estranho no mundo árabe‘. Os cinco países que invadiram simultaneamente o estado de Israel recém-proclamado estavam contrariando uma decisão da Assembléia Geral das Nações Unidas.


** Os palestinos não foram expropriados das suas terras em 1948. Os palestinos foram vítimas de uma agressão perpetrada pelo Egito, Iraque, Transjordania, Síria e Líbano. Além da tentativa de aniquilamento do Estado de Israel, Jerusalém (que, segundo a ONU, deveria ser internacionalizada) foi parcialmente ocupada pela Transjordania.


** Qual a razão do adjetivo ‘legendário’ para designar Yasser Arafat? Foi o incentivador do moderno terrorismo que até hoje ensangüenta a região e ao que consta acumulou indevidamente uma grande fortuna. E por que razão David Ben Gurion também não ganhou um adjetivo simpático?


** No mapa da página 3 do fascículo sobre a Partilha da Palestina a margem oriental do rio Jordão é mencionada como Jordânia. Na ocasião era Transjordania. Ao invadir território palestino o reino passou a chamar-se Jordânia.


Os fascículos do Guia Época de Vestibular foram desenvolvidos para a Editora Globo pelo UNO Sistema de Ensino, da Editora Moderna.


Se o governo não pode distribuir livros didáticos errados, a imprensa que critica o governo deveria estar mais atenta ao assumir o papel de educadora.

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