Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

Otavio Frias Filho

20/04/2004 na edição 273

‘Presidentes não gostam de conceder entrevistas coletivas. A política contemporânea se reduziu, em boa parte, à administração de símbolos e imagens perante a opinião pública. Todo um aparato lastreado em pesquisas de opinião, recursos de propaganda e comitês de marketing dá ampla margem de manipulação ao governante. Nas entrevistas coletivas, porém, há brecha para o imprevisto.

O presidente Lula, por exemplo, não concedeu nenhuma coletiva desde a posse. Tem preferido encontros fechados, na casa de jornalistas amistosos, com a presença de colegas convidados a dedo. Protege-se, assim, contra as próprias dificuldades para se expressar em público, que o têm levado a cometer seguidas gafes e que se tornariam ainda mais patentes numa situação em que fosse confrontado.

Ao contrário das aparências, Lula tem pouco treino para a discussão de pontos de vista -e não apenas como resultado da inexperiência administrativa. Sempre foi cercado por uma corte de bajuladores. Sempre foi poupado pela imprensa e pelos adversários. Sempre se beneficiou de um preconceito invertido, o de que, sendo um líder ‘autêntico’ e ‘puro’, não poderia ser questionado ou interpelado. O Brasil paga a conta, agora, de tamanha complacência.

Seu colega norte-americano não difere dele, seja no que se refere ao discernimento verbal, seja na aversão a jornalistas independentes e entrevistas coletivas. George Bush concedeu anteontem sua terceira entrevista formal no cargo. Procura retomar a iniciativa, acuado pelos fracassos da ocupação militar do Iraque e por um candidato democrata competitivo. Além disso, a democracia americana não concebe um presidente que se furte por completo a inquirições públicas.

Não que as coletivas sejam imunes à manipulação. Em geral, o presidente decide quem vai dirigir-lhe perguntas e o jornalista tem pouca oportunidade de replicar. Mesmo assim, esses encontros permitem aos cidadãos um contato um pouco mais direto com o chefe do governo. Permitem, sobretudo, que se possa examinar sua atitude diante das dúvidas e críticas que circulam pelos meios de comunicação.

Bush não respondeu às perguntas problemáticas. Repete generalidades nas quais um número cadente de pessoas parece ainda acreditar: que o Iraque era uma ameaça ao mundo e aos Estados Unidos, que a invasão visa levar a democracia àquele país, que a América está refazendo o mundo para que se torne um lugar seguro e livre, que ele chora com os familiares dos soldados mortos.

Por que ‘levar’ a democracia ao Iraque e não a dezenas de outros países sob ditaduras? Por que insistir na ameaça iraquiana quando está claro que ela não existia, ao menos não a ponto de justificar mais uma guerra? Como respeitar a autodeterminação do povo iraquiano, que pode escolher o regime que quiser sob a condição de que o governo americano considere esse regime como ‘democrático’?

A coletiva de Bush, previsível e sem novidades, deu ao observador crítico a dimensão do gigantesco engodo que tem sido sua política externa desde a legítima invasão do Afeganistão taleban. Quanto a Lula, continua a se esquivar de semelhante prestação de contas. Em vez de coletivas, ele e seus assessores dão à imprensa ‘lições’ sobre como deveria ser o jornalismo hoje: o contrário do que era quando eles estavam na oposição… Otavio Frias Filho escreve às quintas-feiras nesta coluna.’



PRÓ-MÍDIA À VISTA
Laura Mattos

‘Band apóia RR Soares e critica briga das TVs’, copyright Folha de S. Paulo, 18/04/04

‘Presidente do grupo Bandeirantes, João Carlos Saad põe o dedo na ferida: afirma que as TVs estão completamente desunidas e que o conflito se acirrou em razão da disputa por empréstimo público.

À Folha, Saad criticou a Record, que faz campanha contra a intenção do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social) de custear a dívida das TVs. ‘Quem financia a Record? Com que dinheiro? De caridade?’

O presidente da Band -cuja dívida é de US$ 100 milhões- defendeu o missionário RR Soares, que arrenda o horário nobre da TV. ‘A vida dele é franciscana.’

Leia trechos da entrevista em que ele elogia Marlene Mattos, fala de Luma de Oliveira e dos investimentos da empresa num canal de música e no cinema.

Folha – Qual é a sua avaliação sobre a guerra declarada pela Record contra o empréstimo do BNDES para pagamento de dívida das TVs?

João Carlos Saad – A Band sempre se posicionou a favor do empréstimo. Acho triste que esteja se fazendo essa grande confusão em torno de algo absolutamente legítimo. A colocação da Record é muito falsa. Ela tem o Refis [programa de parcelamento de débitos tributários]. O que é isso senão o financiamento dos tributos do povo que ela deixou de pagar? A Record diz que a Igreja Universal não é sócia, apenas loca um horário. Quem financia a Record então? Quanto ela gera por mês e quanto é posto pela igreja? Com qual dinheiro? Da caridade?

Folha – Como ficará a Band se não houver empréstimo do BNDES?

Saad – Seguirá seu caminho tranqüilamente. Mas por que não haveria, se há para outros setores? Não consigo ver uma razão lógica.

Folha – A Record fala em independência em relação ao governo.

Saad – É uma discussão tola. A independência está na saúde financeira, na ética, na tradição, em saber quem é o dono. Você sabe quem são os donos da Band, da Globo, do SBT. Se houver algo errado, você sabe de quem cobrar.

Folha – Essa questão só acirrou o conflito entre as TVs. A Band havia saído da Abert (associação brasileiras de TVs) e fundado a UneTV com Record e SBT. Depois, a Record voltou à Abert. Agora saiu de novo.

Saad – Está uma baita confusão. Há um problema sério aí, e a TV perde muito. Não estamos discutindo TV digital, nada. Temos um setor fragilizado pela desunião. E o mundo não vai ficar esperando, a tecnologia vem avançando. É hora de criar juízo, buscar pontos comuns. No que houver discordância, cada um briga por si.

Folha – RR Soares tem contrato com a Bandeirantes até 2007…

Saad – Não sei se até 2007 ou 2008. Estou feliz com ele, gosto dele, acho um homem sério, correto. O que prega faz. É humilde. Não o vejo com jatos, casas em tudo quanto é lugar. Não há venda de graça no programa dele. Assista. Minha mulher é evangélica.

Folha – Ele vende livro, vende…

Saad – Vende produtos para gerir aquela máquina toda. Quando fala da graça, não está vendendo.

Folha – No site dele, há regras para o dízimo. Ele diz que, quando o fiel ganha um presente, deve calcular o valor e pagar o dízimo à igreja.

Saad – Vi outro dia um comerciante dizendo que ganhou x numa venda e quis dar o dízimo. O missionário falou: ‘Você tem que pensar no dízimo quando tiver um resultado, não sobre a venda’. Fico impressionado com isso.

Folha – O sr. está fazendo uma defesa do fato de a Band arrendar o horário nobre para um evangélico?

Saad – Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Só estou dando uma opinião pessoal. Nunca ouvi falar de nada errado. A vida dele é absolutamente franciscana.

Folha – Mas, se a Band não precisasse, não iria arrendar nem para Madre Teresa de Calcutá.

Saad – Possivelmente não. Mas não tenho vergonha, pelo contrário. Acho uma boa mensagem. Ele está pregando roubo? Não. É ruim para a família? Não. Então para que tanto preconceito?

Folha – Qual é a importância de RR Soares na reestruturação financeira da Bandeirantes?

Saad – Ele nos ajudou, acelerou a retomada da programação.

Folha – A Marlene Mattos não estaria na Band se não fosse por ele?

Saad – Pode ser que fosse mais lento, que não fosse agora. Tudo foi acelerado. E a Marlene é uma grata surpresa. Ela tem humildade. Se erra, volta atrás.

Folha – E a Luma de Oliveira? Será apresentadora da Bandeirantes?

Saad – (risos) Não sei. Preciso perguntar para a Marlene. Eles estão fazendo pesquisa, vivendo num ambiente criativo. Não quer dizer que iremos acertar sempre.

Folha – E o ‘Fogo Cruzado’, em que o apresentador Jorge Kajuru chamou a colega Astrid de ‘baranga’ no ar? É um erro ou um acerto?

Saad – Não vi. Estava na estrada. Já ouvi elogios e críticas.

Folha – Essas coisas incomodam?

Saad – Se os pré-requisitos foram feitos, pesquisa, piloto (teste), faz parte. Não é ciência exata. São químicas que ora funcionam ora não. A Band saiu dos esportes. Foi difícil porque se envolveu muito com o gênero, e os preços de direitos de transmissão subiram em progressão geométrica. Hoje, a Globo é o canal do esporte (risos), e a Band, da mulher.

Folha – Quando sairá o Band News em espanhol para países latinos?

Saad – O projeto está pronto e o considero vital e estratégico. Mas estamos encontrando sérias dificuldades para distribuir o canal. Não conseguimos penetrar em Sky, DirecTV, Telefónica, em cabo e satélite. O Brasil deveria ter tido uma visão mais estratégica nisso. Abriu seu mercado, mas não negociou para fora.

Folha – TVs pagas de países latinos não têm interesse em um canal brasileiro falado em espanhol?

Saad – Há outros interesses. O governo americano faz artilharia contra a Al Jazira. Por quê? Porque eles conseguiram constituir um veículo que dá a versão deles, não a do invasor, mas a do invadido. Nós também temos de pensar nisso, temos de ter coisas fora.

Folha – E o canal de música?

Saad – Deve ser lançado no segundo semestre. Está definida a parte estratégica, a programação. A Net não sei se vai transportar [o canal fica 45% do dia em TV aberta e 55% em fechada]. Essa é uma discussão jurídica, porque a redação [da lei que criou esse tipo misto de canal] é dúbia e não se sabe se ele é um ‘must-carry’ [que as operadoras têm obrigação de carregar]. Ou se chegará a um acordo ou possivelmente terminará na Justiça. Já definimos que o canal será operado da avenida Paulista.

Folha – A Band terá sucursal lá?

Saad – Sim, queremos ter uma base mais forte para o jornalismo não ficar preso no trânsito, que está um pavor [a sede da Band é no Morumbi]. E para a parte comercial também. Estamos montando ainda uma base no centro.

Folha – A criação da Band Filmes tem como objetivo um ganho de imagem para a Bandeirantes?

Saad – Não, a idéia número 1 é negócio mesmo. Pelas contas, é um bom negócio. Imagem é um dos pontos, mas estamos entrando como negócio e estratégia, para ir acumulando conteúdo.’

***

‘Record mantém posição e não comenta crítica’, copyright Folha de S. Paulo, 18/04/04

‘A TV Record não quis comentar as críticas feitas por João Carlos Saad, presidente do grupo Bandeirantes.

Procurado pela Folha, Dennis Munhoz, presidente da Record, afirmou, por meio da assessoria de imprensa da emissora, que não tinha ‘nada a declarar’ sobre a entrevista de Saad.

Segundo Munhoz, a empresa mantém sua posição em relação ao BNDES -contrária ao empréstimo para pagamento de dívida.’



FUSÃO DIRECT / SKY
O Globo

‘Governo põe freio na fusão de Sky com DirecTV’, copyright O Globo, 15/04/04

‘O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) assinou com as empresas News Corp. (acionista da Sky Brasil) e Hughes (acionista da DirecTV) um acordo pelo qual as duas terão que esperar o julgamento do governo antes de se unirem no Brasil.

A operação envolve a compra da Hughes pela News, que já foi julgada e aprovada pelas autoridades de defesa da concorrência nos EUA. A decisão do Cade foi tomada depois de um pedido da associação Neo TV, que reúne 50 empresas de TV por assinatura. A alegação era de que a operação representaria riscos à concorrência porque poderia levar a uma concentração de 94,84% no mercado brasileiro.

A Neo TV também lembrou que a News tem como sócia na Sky a Globopar, que controla, por sua vez, a Net. Com isso, a fusão poderia abranger as três empresas: Sky, Net e DirecTV.’

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PRIMEIRAS EDIçõES >

Otavio Frias Filho

Por lgarcia em 20/08/2000 na edição 96

"Gladiador", copyright Folha de S. Paulo, 17/8/00

"‘No Limite’ já seria uma ocorrência –catastrófica ou transfiguradora– na televisão brasileira, às vésperas de seus 50 anos, pelo debate que suscitou. O programa faz parte de uma rede de similares que se espalhou pela TV no mundo todo. Como lembrou Ricardo Valladares, na revista Veja, faz parte também de toda uma mentalidade que vai dominando o entretenimento.

Que mentalidade é essa? Ela ressoa o diagnóstico de Guy Debord, que previu em 1968, num livro célebre, a conversão da vida em formas de espetáculo. A fronteira entre ficção e realidade caiu. Telejornais usam simulações e dramatizações; programas como ‘No Limite’ ou as ‘pegadinhas’, uma praga internacional, usam recortes da vida real como se fossem ficção.

Para sacudir o sonambulismo da indústria cultural, que se repete ao infinito, é preciso doses crescentes de ‘realidade’ e choque. Essa ânsia chega ao paroxismo numa época narciso–voyeurística como a nossa, em que o desejo de olhar pela fechadura de uma revista Caras qualquer se junta ao desprezo pelo anonimato, à volúpia dos famosos 15 minutos de outro profeta dos anos 60.

Tal situação virou alegoria no filme ‘The Truman Show’ (1998), em que um homem nasce, cresce e vive numa vila pré–fabricada onde cada minuto de seu dia é televisionado para o mundo todo, sendo ele o único que não sabe disso. Foi usada em ‘A Bruxa de Blair’ (‘The Blair Witch Project’, 1999), um documentário ficcional apresentado como verídico. E há Trumans ‘reais’ que se exibem 24 horas por dia na Internet.

Uma sociedade assim força os indivíduos a se diferenciar, a afirmar sua autenticidade (essa é a ideologia da mídia publicitária), mas apenas nas aparências. Pois as medidas da performance bem–sucedida se estreitam num figurino cada vez mais padronizado, que é o mesmo para países, empresas e pessoas. Diversificação padronizada é um palavrão que nos definiria bem.

Mas seria um erro, talvez, ver tanta novidade na novidade. Os idealizadores de ‘Survivor’ (Sobrevivente), matriz de ‘No Limite’, nada acrescentaram a uma antiga invenção romana, o circo dos gladiadores. Retiraram, até, os aspectos mais cruentos, capazes de ferir nossa sensibilidade moderna. Mas ambas as diversões se nutrem do mesmo sentimento, o sadismo latente em todas as audiências.

O aspecto moral que incomoda em ‘No Limite’ não é só esse. É o quanto existe de real na desesperada luta pelo prêmio que caberá ao sobrevivente –o mais apto, o mais esperto, o menos leal, o ‘político’ mais matreiro. E o quanto sua luta de todos contra todos funciona, sem querer, como metáfora da receita de vida que governantes e sábios prescrevem hoje para toda a humanidade.

Claro que a ‘vida real’ sempre teve esse conteúdo de guerra de todos contra todos, mas poucas vezes o modelo foi apresentado de forma tão asséptica, como algo dado e natural, divertido, até. Dá o que pensar sobre que tipo de adultos serão as atuais crianças: mais egoístas ou menos hipócritas? Bem antes disso ficará claro se esses programas vieram para ficar.

Embora a tendência que eles encarnam pareça irreversível, até a ‘realidade’, por mais fervilhante, cansa. Mesmo produzida, falta–lhe trama, fantasia, acabamento. É possível que os gladiadores da TV não passem de modismo e que o respeitável público venha a concordar, sem saber, com Oscar Wilde, para quem a vida não imita a arte, ela procura imitar Shakespeare da melhor forma que puder."

"O negro (no limite) e o branco (sem limite)", copyright Folha de S. Paulo, 13/8/00

"Fez–se justiça, afinal. Marcus, o vilão de ‘No Limite’, rapazola bem–nascido que cultiva sotaque carioca dos mais caricatos, está fora da disputa. Falastrão, chamou de crioulo um parceiro de equipe, o negro Amendoim, ele também carioca e falastrão, mas de origem humilde, síntese de um Brasil que, sem dinheiro ou colégio, vai se descolando como pode.

Pois Marcus pagou a língua atrevida. Virou alvo de comentários zombeteiros, amealhou 10 mil e tantos votos no site Ovo Neles, sofreu ameaças de processo por racismo e acabou eliminado da competição há uma semana. Cortaram–lhe a cabeça sob as asas da lei –ou melhor, do regulamento que norteia o embate.

Dois grupos de seis pessoas se enfrentam em uma praia do Ceará. Suam, passam fome, improvisam abrigos com folhas de palmeira, atolam nas dunas de areia. A equipe que perde determinadas provas se reúne e dispensa um dos seus integrantes. Amendoim, o singelo, já levara a pior no dia 30. Agora, sobrou para Marcus, o impiedoso.

O Maracanã, lotado (são 43 pontos de audiência), aplaudiu. Gozou a catarse –tanto maior porque:

1) o programa cria situações que lembram tramas novelescas;

2) a edição das imagens tratou de realçar o lado sombrio de Marcus, suas gafes, seus caprichos, suas contradições;

3) o olhar muitas vezes jornalístico das câmeras dá a impressão de que, no vídeo, desfila a pura verdade, o real.

De alma lavadinha, decido, então, autopsiar os cadáveres. E noto, seduzido pelo trocadilho, que Amendoim, 42 anos, casado, quatro filhos, morador da Rocinha, vive de fato no limite. Oscila entre a exclusão social e o universo diminuto dos incluídos. Marcus, 27 anos, garotão de praia, boa–pinta, solteiro, engrossa a nata do Rio. Não sabe o que é exclusão. Tem de tudo, só não tem limites.

Criado pela avó, Amendoim não conheceu o pai e mal pôde contar com a mãe, alcoólatra. Cresceu engraxando sapatos e vendendo, claro, amendoins. Ainda criança, se aproximou de um veterinário que vacinava cães da Rocinha. Um dia, o médico o levou para o Flamengo. O garoto tentou, de início, o futebol. Saiu–se melhor no atletismo.

A carreira esportiva permitiu–lhe estudar e viajar. Chegou a morar na Alemanha, formou–se em letras e hoje ensina inglês. Globalizou–se, mas não deixou a Rocinha. Pôs um pé no mundo e manteve o outro no morro, onde é líder comunitário. Equilibra–se lá e cá.

A Rocinha, curiosamente, também se equilibra. Encontra–se no limite entre a favela e os bairros de classe média. Habitações precárias, tráfico de drogas, um punhado de vielas e 26 valas com esgoto a céu aberto provam que a Rocinha é, sim, uma favela. No entanto, há por ali telefones celulares, computadores, TVs pagas, agências bancárias, videolocadoras e academias de ginástica, como em Ipanema.

Até o vocativo que Marcus empregou contra Amendoim se situa no limite. Crioulo pode soar ofensivo. Mas, igualmente, pode exprimir cordialidade –’ô, meu rei; ô, gente fina; ô, crioulinho’.

Logo no primeiro programa, Amendoim passava protetor solar quando alguém de sua equipe comentou: ‘Olha, ele está ficando branco!’. Estava mesmo. Na Globo, fazendo as vezes de artista, Amendoim tinha a chance de abocanhar R$ 300 mil e se sentir enfim incluído em uma seara que não é a dos crioulos. Só que não agradou. Foi excluído pelos parceiros sob a alegação de que lhe falta iniciativa, de que não consegue escutar os outros.

Por ironia, argumentos semelhantes serviram para suprimir Marcus. Acusaram–no de alheio, de não demonstrar companheirismo. Advogado, o jovem abandonou a profissão há um ano. Tornou–se representante de uma empresa que comercializa equipamentos de fitness. Já morou nos EUA e deseja, agora, cursar a faculdade de educação física. Desde o começo do programa, portou–se como um sem–limite. Dormia enquanto os colegas de equipe davam duro. Criticou a baiana Hilca por estar acima do peso. Insinuou–se para a gaúcha Pipa (‘essa mulher eu pegaria’). E descartou, pouco antes da votação que iria afastá–lo, a possibilidade de o eliminarem: ‘O grupo me adora’.

Expulso do jogo, Amendoim expressou mágoa e complexo. O veto na praia cearense trouxe–lhe de volta a lembrança de outras tantas exclusões. ‘Aprendi que a vida aqui não é diferente da vida na civilização’, explicou no site da Globo. ‘As pessoas reagem da mesma forma. Rejeitaram–me porque sou negro.’

Marcus –que se julgava intocável– arranjou motivo gaiato para o fracasso. ‘O voto que me derrubou foi o da Pipa. Ela, casada, estava com um problema: ‘Ah, a gente aqui; você, um cara bonito…’‘ Narciso achou feio o que não é espelho. Viu na exclusão mais um pretexto para continuar se engrandecendo. ‘Saio de cabeça em pé.’

Mesmo na derrota, o de cima sobe, e o de baixo desce, como bem diz a canção. Fez–se justiça, afinal?"

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