Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

IMPRENSA EM QUESTãO > CANDIDATOS NA MÍDIA

Palhaçada não é jornalismo

Por Luciano Martins Costa em 13/08/2010 na edição 602

Uma pequena nota na editoria de política do Estado de S.Paulo e um texto no Globo (sexta, 13/8) recolocam em debate uma recomendação do Tribunal Superior Eleitoral que tem sido apontada pela imprensa como restrição à liberdade de informação.


Trata-se da proibição aos programas humorísticos do rádio e da televisão de ridicularizar ou degradar candidatos durante o período eleitoral.


Integrantes de programas humorísticos como Casseta e Planeta, CQC e Pânico na TV argumentam que a restrição afeta a liberdade de imprensa. Confundem mídia com imprensa.


A comunicação do TSE, divulgada em nota e reproduzida na sexta-feira por alguns jornais, lembra que a determinação está explicitada na legislação eleitoral desde 1997, quando as regras foram aprovadas pelo Congresso e sancionadas pelo então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso.


Considerando que as emissoras de rádio e TV são concessões públicas, o texto impõe restrições à programação, não apenas de noticiários, mas também de programas de entretenimento, como novelas e humorísticos.


Sem graça


O artigo 45 da Lei 9.504 veda o uso de trucagem, montagem e outros recursos de áudio ou vídeo que alterem, degradando ou ridicularizando, a imagem pública de candidatos, partidos ou coligações, prevendo multas para as emissoras em caso de desobediência.


A questão é bastante clara, como é claro também que as emissoras usam programas humorísticos para influenciar a opinião dos eleitores e favorecer determinados candidatos.


Esse tipo de manobra fica claro em seções de programas humorísticos travestidos de jornalismo, nas quais o comediante entrevista um político e depois, na edição, aplica-se um nariz de palhaço sobre o rosto do entrevistado. As pautas desse tipo de programa são claramente escolhidas para ridicularizar uns e poupar outros, conforme as preferências da emissora.


Humoristas prometem fazer uma passeata – evidentemente no Rio – no dia 22, para protestar contra a restrição. Pode até ser engraçado, e certamente a imprensa vai cobrir com toda atenção. Mas não muda a verdade segundo a qual um jornalista fazendo humor é humorista.


E quando o humor é usado para favorecimentos, não tem graça nenhuma.

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/08/2010 Pedro Araújo Lima

    Sabe-se muito bem a quais interesses estes senhores humoristas da grande mídia servem. Como sempre acontece, qualquer medida judicial contrária aos seus excessos é logo rotulada como ‘volta da ditadura’ (aquela que a FSP rotulou de ‘ditabranda’). O ‘CQC’ da Bandeirantes, capitaneado pelo sr. Marcelo Tas, gosta de posar de ‘contestador’ e ‘defensor do povo’. O ‘Casseta & Planeta’, que já não era grande coisa com Bussunda, baixou ainda mais de nível capitaneado pelo neocon Marcelo Madureira, figurinha carimbada do Instituto Millenium. E claro – existe a turma que escreve colunas na ‘Veja’ e n ‘O Globo’. Gostam de posar de sérios, mas às vezes conseguem ser mais hilários do que os próprios humoristas. Como Diogo Mainardi dizendo que ia embora para Veneza este mês – a mesma Veneza que, um ano antes, ele dizia estar infestada de ratos. E lá vai mais um…

  2. Comentou em 13/08/2010 Marcelo Ramos

    Acho que a principal piada é chamar essa lei de censura. Como disse o Luciano, jornalista fazendo humor, além de não ser humor, nem tem graça.

  3. Comentou em 13/08/2010 Ibsen Marques

    Concordo com o Roberto em gênero, número e grau. Creio que os humoristas deveriam reclamar a falta de liberdade de expressão e não imprensa ou informação. Por outro lado, o sucesso do humor está mais diretamente ligado à qualidade e comportamento dos próprios políticos. Como já se provou largament, nem a imprensa, nem a mídia, nem atores, humoristas etc etc são mais formadores de opinião a ponto de influir nas decisões do eleitor. Sugiro aos humoristas que simplesmente ponham no ar as falas dos políticos. Isso por si só já se trata de humor da melhor qualidade. Se é para seguir as normas constitucionais, esses senhores ministros deveriam ter se ocupado em defender a pluralidade da mídia e não favorecer de maneira definitiva sua concentração. Grande ingenuidade desses que acreditam ter a decisão do TSE impedido a manipulação do eleitor por parte da mídia.

  4. Comentou em 13/08/2010 Roberto Ribeiro

    Realmente, não é um atentado contra a liberdade de imprensa, é um atentado contra a liberdade de expressão.

    O primeiro registro de censura em Roma foi justamente contra as comédias aristofânicas, que denegriam candidatos. A justificativa romana era que acusações deveriam ser feitas em tribunais e não em teatros.

    Nós que vivemos a ditadura, sabemos que, nos fins dos anos 70 e no começo dos anos 80, os programas de humor eram a principal forma de expressão política na TV. Cada piada contra um político era festejada. Hoje tudo tem de ser absolutamente correto, mas, como já diziam os romanos: ‘muita justiça é muita injustiça’.

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