Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Papel de bala

Por Luiz Garcia em 08/11/2008 na edição 510

O que transforma fatos em notícias? Jornalistas sabem que não há uma resposta única – e nem sempre fácil – para a pergunta.


Pode-se dizer que a notícia é o fato inusitado, na contramão do que seria lógico e previsível. Assim, existiria notícia se um homem mordesse um cachorro, por exemplo; ou quando um baixinho botasse um grandalhão para correr.


Mas fatos absolutamente previsíveis e esperados também merecem registro. Como a chegada do Natal e a aproximação do carnaval.


Ou o anúncio de que haverá sol no domingo. Naturalmente, a mídia acha que é seu dever registrar crimes e tragédias – mas também abre espaço para o motorista que devolveu a carteira recheada, para o policial que prendeu o bandido ou a mãe que reencontrou o filho perdido.


Há mais notícias sobre bancos assaltados do que sobre bancos que se casam? Com certeza, pela simples razão de que há mais assaltos do que fusões.


Queixa do presidente


Parece simples e óbvio, mas o presidente Lula não concorda com nada disso. Outro dia, reclamou indignado do destaque dado por jornais ao fato de que ele jogara no chão um papel de bombom durante a inauguração de uma usina.


Na sua irritação, Lula extrapolou: ‘Será que a nossa cabeça está condicionada a achar que o bom é obrigação fazer, e apenas o ruim tem que se mostrar?’ Na verdade, realmente é obrigação do homem público fazer o que é bom, e também nem só o ruim tem de ser mostrado. A mídia, se faz direito o seu trabalho – e costuma fazer, sob pena de perder circulação e audiência –, mostra o papel de bala no chão sem negar aos cidadãos todas as informações que lhes interessam sobre a obra inaugurada.


A coexistência com o registro negativo não reduz a importância e a repercussão do fato positivo.


A queixa de Lula – que não é o primeiro a fazê-la, o que não significa que esteja necessariamente em boa companhia – teria procedência se noticiários de TV e rádio e páginas de jornais e revistas fossem dominados por episódios irrelevantes. Mas não são.


Espaço aberto


Na verdade, aqui como em qualquer outro lugar onde haja liberdade de imprensa, a mídia procura apresentar ao público uma mistura do importante com o interessante. Natural e óbvio: é precisamente isso que os cidadãos gostam de saber e precisam conhecer.


Se os jornalistas são bons no seu ofício – o que não é nenhum bicho-de-sete-cabeças – não há competição entre os dois tipos de informação. Caso não sejam, o cidadão naturalmente procurará um outro veículo, que tenha profissionais competentes. É simples assim.


Era relevante, por exemplo, abrir espaço para as queixas do presidente. Até mesmo para que receba a solidariedade dos cidadãos que concordam com ele. Vai ver, tem muita gente por aí que adora jogar papel de bala no chão.

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