Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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IMPRENSA EM QUESTãO > CARNAVAL 2005

Para a AP, uma festa ‘ilegal’

Por Marinilda Carvalho em 08/02/2005 na edição 315

Cleber Machado e Maria Beltrão fingiram que não viram o cartaz dizendo algo como ‘Homenagem ao Sr. Miro e Maninho’, na passagem do Salgueiro. Foi mostrado claramente pela câmera da TV Globo no desfile de domingo das escolas do Rio. Ambos são jornalistas, e não faria mal esclarecer que se tratava de uma dupla de bicheiros ‘patronos’ do Salgueiro, ambos mortos no ano passado. Um de doença; o outro, executado em outubro com seis tiros de fuzil numa rua de Jacarepaguá, Zona Oeste.


O Globo de segunda-feira (7/2) deu destaque ao caso, na chamada da capa e na matéria interna. Vejam um trecho da chamada, primorosa:


‘Terceira escola a desfilar na primeira noite do Grupo Especial, o Salgueiro levou fogo à Sapucaí, no enredo e na apresentação. A escola da Tijuca, Zona Norte do Rio, fez um desfile quase perfeito exceto por dois carros alegóricos que ficaram entalados na Avenida Presidente Vargas, no Centro. A escola homenageou os bicheiros Maninho e Miro, patronos mortos em 2004. Uma ala inteira desfilou com a foto dos dois contraventores na camisa. O presidente da Mocidade, Paulo Viana, fez um discurso em homenagem a César Andrade, sobrinho do bicheiro Castor de Andrade, já morto. César é acusado de comandar o jogo do bicho em Angra e já foi condenado a nove anos de prisão pela Justiça por corrupção de policiais e autoridades. Após 10 anos fora da passarela, Beth Andrade – viúva do bicheiro Paulinho, filho de Castor – voltou a desfilar. A madrinha da bateria da Mocidade, Viviane Araújo, sambou com um piercing com o nome do marido, o cantor Belo, condenado por associação ao tráfico. (…)’


Mas coube à imprensa internacional aprofundar o assunto que antigamente rendia muita pauta nos jornais do Rio, e anda esquecido. Desta vez não foi Larry Rohter, do New York Times, mas um repórter da Associated Press, cuja longa matéria a CNN reproduziu em seu site (www.cnn.com/2005/WORLD/americas/02/05/brazil.carnival.ap/index.html) e o JB Online comentou (www.jb.com.br/jb/papel/internacional/2005/02/07/jorint20050207001.html).


Bicho e tráfico


Sob o título ‘Expondo as raízes ilegais do carnaval’, a AP/CNN diz que muito do esplendor do carnaval ‘brasileiro’ – e não carioca… – se deve a apostas ilegais, do jogo do bicho. Um ponto alto da matéria do JB foi a declaração do secretário municipal de Turismo do Rio, Rubem Medina, que atribuiu à CNN, e não à AP, o pecado da inveja: ‘Esse é um problema que não cabe à CNN, eles devem estar com raiva porque não têm competência para fazer uma coisa parecida’.


A AP ouviu o prefeito Cesar Maia, que desmentiu tudo candidamente: ‘O financiamento das escolas de samba, hoje em dia, é completamente independente do jogo do bicho. A presença dos chamados patronos numa escola ou outra não tem mais nada a ver com o financiamento do desfile’. Os eleitores de Cesar Maia, cujo nariz cresce a cada declaração, andam satisfeitíssimos com seu prefeito. Daí que, para não se sujeitar a uma ‘ovação’, neste Carnaval nem apareceu na avenida.


Nos saudosos tempos em que o desfile era transmitido pela TV Manchete, as homenagens do Salgueiro aos bicheiros não teriam passado em branco. E não faria mal que a imprensa escrita voltasse a tratar do jogo do bicho, contravenção hoje estreitamente ligada ao tráfico de drogas.

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