Sexta-feira, 26 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Para ler com lupa

Por Paulo França em 01/08/2005 na edição 340

A imprensa brasileira, que vive quase que exclusivamente do dinheiro público, sobretudo as TVs, está agora no mesmo mar de lama que os deputados federais. Ao aceitar ser pautada por Roberto Jefferson, que lhes acenou com uma ‘bomba’, os veículos de comunicação caíram de boca no prato servido por um sujeito cuja folha é antiga e de arrepiar.


E quem disse que a imprensa vive quase que exclusivamente do dinheiro público foi um representante de alto escalão da área comercial do grupo Abril (leia-se Veja, um dos veículos que odeiam o PT), em resposta a Alberto Dines em recente Observatório da Imprensa na TV (TVE). Só este ano são quase um bilhão de reais para a mídia. Mas a imprensa não reclama disso, não é?


O Jornal Nacional, que vinha razoavelmente mantendo as aparências, meteu-se na lama até as orelhas ao dar espaço de 11 minutos a Rodrigo Maia (PFL-RJ), filho do prefeito César Maia. Deixou Maia falar e acusar à vontade apenas a petistas, em horário nobre. No dia seguinte, o JN, com a cara suja, teve de fazer um pouco de jornalismo, dando voz a políticos sensatos da oposição, reclamando de Maia por sua irresponsabilidade em acusar sem provas e, principalmente, deputados petistas que a própria oposição sustenta serem decentes e honestos. E olha que a Globo conhece os Maias do Rio de longa data.


A imprensa vem acusando Marcos Valério de ter retirado empréstimos com aval do governo, via estatais, mas suas próprias matérias provam que os bancos lhe emprestaram dinheiro com base em contratos de publicidade com estatais, e não em supostas garantias unilaterais dos diretores. E para onde foram os milhões dessa publicidade? Vamos lá, leitor! Força! Em grande parte para as emissoras de televisão, jornalões e revistas, ora. É preciso aproveitar o momento e abrir também as contas da grande imprensa, sua caixa-preta.


Tapa do Financial Times


Quando uma pesquisa deu aprovação ainda maior a Lula, a imprensa golpista se descabelou. Um colunista do Globo berrou, por escrito, que isso era ‘impossível! Tem que refazer essa pesquisa, gente!’. Pois bem, o velho Ibope de guerra a refez. Deu queda de quatro pontos percentuais a Lula. Parece claro que daria isso, por pressão dos grandes veículos, não? Como queriam, os resultados estão estampados em todas as primeiras páginas, vão para as capas das revistas e ‘análises’ na TV.


Também na semana retrasada a imprensa aproveitou apenas um trecho do jornal Financial Times, que dizia que ‘revelações de Delúbio atingem Lula’, e deitou e rolou. Na semana seguinte, quando o mesmo FT diz que ‘ao não investigar apropriadamente as acusações, os repórteres acabam alimentando o desvario e simplesmente amplificando as alegações em vez de tentar investigar sua seriedade’, ninguém aqui disse nada. Silêncio total.


Segundo o artigo do Financial Times, ‘a mídia impressa brasileira tem poucos leitores e compete furiosamente por eles neste escândalo, já que boas histórias rendem prestígio e mais anúncios’. Anúncios?! De quem?! Do governo, claro. Os quase 1 bilhão de reais. O jornal britânico dá mais um tapa ao afirmar que ‘depois de ter escapado da censura há mais de 20 anos, a mídia brasileira ainda tem que descobrir como reportar acusações de corrupção sem assumir que todos os acusados são necessariamente culpados’.


Espinha atravessada


A imprensa brasileira, que usa e se deixa usar, como autêntica vigarista, mas come, bebe e dorme às custas das verbas de publicidade oficial, dinheiro público, deveria, no mínimo, ser honesta com seu patrão. Em vez de dar voz unilateral a boquirrotos como Jefferson, Maia e Karina Somaggio, ouvir também os acusados, na mesma proporção. Fazer jornalismo sério, responsável, digno, profissional, e parar de cuspir no prato em que come. Ou procurar outro prato.


Ler matérias políticas e econômicas sobre o governo na imprensa brasileira já é coisa para se fazer com lupa, dadas as entrelinhas maliciosas. Muitas vezes, nem de entrelinhas precisam. A Veja que o diga. Quanto mais no Estado de S.Paulo, porta-voz confesso em editorial da elite paulistana ancorada no PSDB.


Mas este jornal se esbaldou ao descrever as atitudes de Hebe Camargo, que chegou ao nível de levar uma cueca a seu programa, com a estrela do PT, para falar da lambança de um zé mané. Sim, porque o presidente da Record fez a mesma lambança, só que em caras malas com rodinhas e em jatinho particular.


Lá pelas tantas, a colunista Leila Reis, do caderno de TV do Estadão, volta a cutucar a espinha atravessada na garganta da elite, a Operação Narciso, da Polícia Federal. Diz ela:




‘Não vem ao caso especular o que está por trás de cada operação. Dessa tarefa, os shows de conversa fiada dão conta muito bem. Se o high society foi punido para desviar a atenção dos malfeitos da classe operária é algo a ser tirado a limpo mais adiante’.


Malfeitos da classe operária? Peraí! Até sexta-feira, a imprensa chamava esses políticos de ‘membros do governo Lula’, gente do ‘primeiro escalão’ etc. etc. Mas, com a revelação na Época de que o PSDB também encheu a burra com grana suja do Marcos Valério, financiando inclusive campanhas ao governo de Minas Gerais do queridinho dos tucanos, Aécio Neves, e à prefeitura de BH, da mesma plumagem, agora os acusados são da classe operária?! Não senhora! São todos políticos da mesma laia, tudo figurinha carimbada de décadas!


Hebe Camargo, que levou uma cueca ao programa e ficou se divertindo com isso para fazer média política, não tem moral para tanto, pois foi (agora, está caladinha) uma das maiores defensoras de Paulo Maluf.


Portanto, Hebe, brinque à vontade com a cueca dos outros, os pepinos etc., mas não se esqueça de levar também a lâmpada mágica do gênio da malandragem, que foi um excelente professor para muitos políticos atuais na arte de roubar e mentir com a cara mais limpa do mundo, a ‘estuprar, mas não matar’, a galinha dos ovos de ouro do dinheiro público.


Aliás, um dos maiores negócios da família Maluf era mesmo o abate de frangos.

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Jornalista, Rio de Janeiro

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