Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > Liberdade e democracia

Para que serve o jornalismo

Por Eugênio Bucci em 31/08/2017 na edição 956

Por que a imprensa livre é a única defesa da sociedade contra a expansão dos populistas com tendências autoritárias

Texto originalmente publicado na revista Época, em 27/08/2017

A Rússia não é uma democracia. No ranking publicado anualmente pela revista inglesa The Economist – uma das referências confiáveis para a classificação dos índices de liberdade no planeta –, a terra do neoczar Vladimir Putin aparece no 134º lugar, no bloco dos regimes autoritários. No mesmo pelotão figuram monstrengos do arbítrio como China (136º lugar) e Ruanda (138º). Para que você tenha uma ideia do grau de opressão, basta dizer que Cuba, na 128ª posição, é um pouquinho menos autoritária que a Rússia, que só não fica atrás de aberrações como a Coreia do Norte, que ostenta o 167º lugar, que também é o último. Na outra ponta, as nações mais democráticas do mundo são Noruega, Islândia, Suécia, Nova Zelândia, Dinamarca e Canadá.

As possibilidades de o cidadão russo fiscalizar o poder público são bem pequenas. As chances de que pessoas comuns sejam ouvidas pelos governantes são menores ainda, e nada garante que a sociedade receba informações confiáveis, independentes, acuradas, sobre o que se conversa nos palácios onde são decretados os destinos nacionais. Putin não é comunista, não é de esquerda, não é liberal e não gosta de repórter. Na Rússia, imprensa livre é uma improbabilidade técnica.

Existe jornalismo por lá? Apenas na contracorrente. Há alguns heróis que fazem reportagens corajosas e arriscam a vida. Em matéria de liberdade de expressão, a Rússia não se compara ao Canadá, à Alemanha (13º lugar), aos Estados Unidos (21º lugar) ou ao Brasil (51º lugar). Informação crítica e independente não sobrevive onde não há democracia.

Em vez de jornalismo, Estados autoritários preferem arsenais bélicos, repressão política e propaganda patriótica. Quando a ditadura de Muammar Khadafi caiu, na Líbia, em 2011, ele só tinha a seu lado uma facção das Forças Armadas, seus agentes repressores e a televisão estatal, que funcionava como uma metralhadora de mentiras. Esse tripé – as armas de fogo, a polícia política e os serviços de propaganda estatal – constitui a receita essencial dos tiranos contemporâneos. Na Turquia (97ª posição na lista da Economist), que até outro dia se proclamava uma “democracia islâmica”, ameaças, intimidações e encarceramento de jornalistas fazem parte da rotina. Nos regimes autoritários, verificação dos fatos é incompatível com a ordem pública.

No discurso oficial, o controle do Estado sobre o noticiário cumpre uma função desinteressada, altruísta e vital para o bem comum: neutralizar as intrigas difundidas contra o interesse nacional e enaltecer o amor pela pátria e a confiança na nação. Entre outras investidas grandiosas nesse campo, a Rússia lançou, em 2014, a agência de notícias Sputnik, orientada por diretrizes governamentais, com objetivos que vão além, muito além, das fronteiras nacionais. A agência tem redações em 30 línguas diferentes e mantém atuação inclusive no Brasil.

Quem olha a página da Sputnik na internet pode achar que lê um órgão de imprensa normal. Lá estão as notícias e os títulos redigidos em estilo jornalístico e lá estão as fotografias explicadas por legendas sintéticas. Os textos parecem reportagens comuns. Por baixo dessa roupagem, porém, a agência cumpre a estratégia da fazer propaganda oficial. Eis aí um traço que se intensifica nos regimes autoritários contemporâneos: neles, quem produz a notícia é o Estado, ou agentes aparentemente neutros controlados pelo Estado.

O autoritarismo depende desse jogo de aparências. Precisa investir cada vez mais em uma indústria de mídia que tem a aparência de um conjunto de redações independentes e livres. Para continuarem onde estão, precisam forjar a aparência de democracia e, para forjarem essa aparência, forjam a aparência de jornalismo. É também isso o que acontece hoje na China – que, não por acaso, controla com rédeas curtas os sites de busca e as redes sociais –, em Angola (130º lugar) e na Venezuela (107º). Líderes autoritários antissocialistas, como Putin, ou alegadamente socialistas, como Nicolás Maduro, apostam no mesmíssimo truque: estatizar a esfera pública. O que quer dizer isso? É instalar órgãos estatais para, aberta ou veladamente, ocupar os ambientes de comunicação entre as pessoas.

Não nos enganemos. A única (atenção para a palavra: única) proteção que nós, cidadãos, temos contra a expansão dos populistas é a instituição da imprensa livre. Não há outra. Não há nenhuma outra. Apenas as redações independentes, integradas por jornalistas profissionais, trabalhando dentro de marcos legais que assegurem liberdade de investigação jornalística e também a liberdade de expressão e de crítica, têm o dom de animar um ambiente de pluralidade em que a informação de interesse pública fique ao alcance do público.

As tais redes sociais abrem canais preciosos para a comunicação, para o livre debate das ideias e para a difusão cultural, mas elas, sozinhas, não dispõem do método de que só as redações profissionais estão investidas. As redes sociais, por sinal, assim como sites de busca, não hesitam em fazer acordos de colaboração com regimes de perfil totalitário, como o chinês, em detrimento do direito à informação e da privacidade das pessoas. Só a imprensa livre pode servir de antídoto contra os boatos, as campanhas de desinformação maliciosas e as calúnias armadas pelos poderosos contra dissidentes ou opositores.

A democracia não está aí desde sempre. Ao contrário, ela é uma invenção muito recente. Não tem mais de dois séculos. A democracia ainda está em construção, no Brasil e no mundo todo. Para que ela permaneça, cresça e se difunda, nós dependemos do vigor da imprensa, dos jornalistas profissionais e das redações independentes. Muitas vezes, nós sabemos bem, a mentira consegue tapear os mais experientes jornalistas. Muitas vezes, a imprensa falha em relatar a verdade dos fatos, assim como falha em equilibrar as diversas opiniões e falha em seu dever de ser apartidária. Mas quando você lê, como lê aqui, que a liberdade de imprensa é inegociável e que o jornalismo é essencial, não tenha dúvidas, você está lendo a verdade.

Eugênio Bucci é jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP)

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