Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > LEITURAS DE VEJA

Parcialidade travestida em reportagem

Por Silvio Fernando em 13/07/2010 na edição 598

A última edição de Veja, datada de 14 de julho de 2010, expôs mais uma vez sua conhecida e longa simpatia para com o PSDB e seus aliados. É perfeitamente lícito que uma publicação apóie a candidatura deste ou daquele candidato, alinhe-se com a ideologia de um ou outro partido, deixando claro para seus leitores os motivos de sua escolha. Nos países de Primeiro Mundo, onde a imprensa é não só livre, mas diversificada e amparada por um mercado forte, coexistem publicações de diferentes matizes e graus ideológicos. Cabe ao leitor comparar a publicação de sua escolha com as demais, contribuindo assim para um debate equilibrado e plural.


Veja, praticamente desde sua criação por Roberto Civita e Mino Carta, permanece como um fenômeno em vendas, líder absoluta em seu segmento. Celebrizou-se como uma revista crítica, corajosa, que em seu período áureo fazia questão de reportar os fatos e enfrentar a ditadura. Com o passar do tempo, a argúcia crítica da revista foi passando à mera opinião, as reportagens à mini-editoriais, a desenvoltura à arrogância e meras suposições à condição de fatos.


Premissa ética


Foi o que se viu na última edição da revista a partir da capa (um monstro mitológico sobrepondo-se ao símbolo do Partido dos Trabalhadores) e na reportagem destinada a iniciar a série de coberturas sobre as eleições. Na realidade, estava longe de ser uma cobertura; parecia mais uma luta de boxe.


Das 14 páginas reservadas ao assunto, em nenhuma (exceção feita a um único e solitário parágrafo, na página 78) observa-se o que é esperado em coberturas deste tipo: discussões sobre o conteúdo programático dos candidatos ou a plataforma das campanhas. Aparece, o que é bem diferente, o tempo que José Serra e Dilma Rousseff ocuparão durante o horário político. Na mesma seção, num box destinado à candidata Marina Silva, especula-se que a acusação de desmatamento sofrida por seu vice, Guilherme Leal, teria sido, segundo ‘pessoas próximas ao empresário’, obra de petistas interessado$ (assim mesmo, com cifrão) em desgastar sua credibilidade. Nada mais é informado ao leitor, seja sobre a fonte ou o suposto caluniador. Tudo o que se tem é uma afirmação nebulosa, a suposição se transformando em fato.


A cobertura compõe-se de três matérias, além da referente ao horário eleitoral. Nestas, já no índice da revista pode-se perceber a parcialidade dos temas abordados, por meio de suas apresentações: ‘Eleições – O entulho autoritário no programa de Dilma’ ou ‘Diplomacia – Lula na África, paparicando ditadores’ – onde aliás, é citada a frase de Celso Amorim – ‘Negócios são negócios’ – com direito a repeteco na seção ‘Veja Essa’ (pág. 60).


E é justamente aí que a revista subverte a premissa ética básica do jornalismo sério: a diferença de comportamento e atitude entre aquele que critica e o alvo a ser criticado.


Saludos amigos


Conforme já divulgado neste Observatório e por documentos da própria Naspers, em 31 de dezembro de 2005 a Editora Abril tinha dívidas líquidas de 500 milhões de dólares. Em maio de 2006, a Naspers – organização sul-africana que apoiou e enriqueceu com o apartheid – assumiu a dívida do grupo, ficando com 30% do capital da editora.


Segundo o jornalista Altamiro Borges, as ‘amizades’ do Grupo Abril não são de hoje, nem se restringem ao pessoal da longínqua África do Sul. Existem vínculos bem mais próximos. Por exemplo, a Cisneros Group, holding chefiada por Gustavo Cisneros, que coordena 75 empresas em diversas áreas da comunicação. Inimigo declarado de Hugo Chávez, Cisneros mantém relação com a Editora Abril desde 1995.


Dentro de casa, no entanto, os contatos se estreitam. Veja mantém relações com o PSDB e PFL, chegando até a doar valores significativos para a campanha de dois de seus candidatos, em 2002. Aloysio Nunes Ferreira, ex-ministro de FHC, recebeu 5,8 mil reais; Alberto Goldman, 34,9 mil reais. Depois de eleito, este foi relator da Lei Geral de Telecomunicações, permitindo investimentos externos na mídia.


Seja como for, Veja ainda é um marco na história do jornalismo brasileiro. Com uma circulação estimada em 1.099.653 exemplares, ela está presente em quase todos os lugares, preenchendo os recantos da vida do leitor: escolas, salas de espera, aeroportos e claro, bancas de jornais. Não é fácil manter uma empresa como essa nos trilhos já há 41 anos. Sacrifícios têm que ser feitos. Afinal, negócio é negócio.

******

Jornalista e psicólogo, São Paulo, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/07/2010 Carlos N Mendes

    Se VEJA fizesse oposição declarada – com explicitação de suas preferências políticas no expediente da revista – ainda assim estaria pecando. A completa falta de educação como o ‘inimigo ‘ é tratado atinge níveis infantis de bullying. E você, leitor/assinante da dita cuja, se não percebeu que está sendo tratado como criança, considere-se avisado. Sinto muita falta da inteligência que era usada, até uns 15 anos atrás, para se construir as matérias de VEJA, mesmo as tendenciosas. Hoje não se lê nada lá que pareça ter sido sido escrito com prazer. Parece apenas uma sucessão de pontapés na cara.

  2. Comentou em 13/07/2010 Remindo Sauim

    O posicionamento político da Veja não tem nada de mais, ninguém vai achar que ela isenta mesmo. O pior é o conteúdo, matérias ruins, textos simplórios, de jornal estudantil do segundo grau.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem