Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Perigo da caça às bruxas está de volta

Por Luiz Antonio Magalhães em 15/01/2006 na edição 363

Em novembro de 2004, o jornalista, assessor da presidência da República e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo Bernardo Kucinski escandalizou o meio jornalístico ao conceder uma entrevista ao Jornal do Campus, também da USP, com duras críticas à imprensa, ao governo federal e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dias após a entrevista circular, a imprensa publicava trechos de uma das ‘Cartas Críticas’ que o assessor elabora diariamente, desde o início do governo Lula. A carta vazada à imprensa continha críticas ao então todo-poderoso ministro José Dirceu e imediatamente quase toda a imprensa foi cobrar no Planalto a demissão do assessor.


Mas o presidente Lula o manteve no cargo – um dos mais originais do governo, uma vez que Kucinski é pago para ler os jornais e revistas, assistir aos telejornais, ouvir programas noticiosos de rádio e fazer, diariamente, uma resenha crítica qualificada da conjuntura política e econômica, apontando ali os erros e acertos do governo. Colaborador antigo do presidente, o jornalista fazia este trabalho muito antes de Lula chegar ao poder e até já publicou um livro reunindo as suas ‘Cartas Ácidas’, como chamou as mensagens que enviava, também diariamente, ao então candidato a presidente durante a campanha de 1998.


Até vazamento de 2004, Kucinski acordava às 5h, lia todos os jornais, elaborava a ‘Carta Crítica’ do dia e enviava o boletim impresso, por estafeta, às 8h30 da manhã, para 12 ministros de Estado ou secretários com status de ministro. A combinação era de que, logo após a leitura, todos colocariam a ‘Carta Crítica’ do dia no triturador de papel. A rotina do professor continua a mesma, mas agora a ‘Carta’ chega apenas a Lula e mais 7 ou 8 ministros do núcleo duro do governo.


Na semana passada, Kucinski voltou a escandalizar o meio jornalístico em uma nova entrevista, desta vez concedida à Agência Repórter Social (e reproduzida neste Observatório; ver remissão abaixo), na qual repete o diagnóstico de péssimo comportamento da imprensa na cobertura do governo Lula e faz críticas bastante duras à política econômica do ministro Antonio Palocci e do Banco Central. Da mesma maneira que em 2004, os jornalistas leram as palavras de Kucinski e correram para o Palácio do Planalto a fim de saber se ele permaneceria no cargo depois de reincidir na heresia de criticar o chefe. O presidente Lula, porém, não deu muita bola. Afinal, não contratou Kucinski para falar bem da sua gestão, pelo contrário.


Na entrevista a seguir, o professor conta ao Observatório que o presidente reagiu com bom humor à repercussão de suas críticas e aposta que a mídia vai ‘enquadrar’ José Serra no figurino neoliberal, caso ele seja escolhido para disputar a eleição presidencial pelo PSDB.


***


Como o senhor analisa a repercussão da sua entrevista à Agência Repórter Social na grande imprensa? Mais uma vez foram cobrar no Planalto a sua demissão, como na ocasião em que o senhor concedeu a entrevista ao Jornal do Campus, em 2004, também com críticas ao governo. E qual foi a reação do presidente em relação à entrevista?


Bernardo Kucinski Ainda não me encontrei com o presidente ou com o seu secretário Gilberto Carvalho depois da publicação da entrevista porque ainda não voltei de minhas férias. A reportagem do João Domingos no Estadão diz que a reação foi bem-humorada e que o presidente endossa o meu papel de crítico, mesmo quando a crítica é dirigida ao governo.


O senhor afirma que a relação do governo Lula com a imprensa é problemática. Como observador do comportamento da mídia, que análise faz da relação da imprensa com o prefeito José Serra, o governador Alckmin e o secretário Anthony Garotinho, todos possíveis adversários do presidente Lula na eleição deste ano e também titulares de cargos públicos? O senhor detecta o apoio mais ostensivo da imprensa como um todo a algum deles?


B.K. — Os interesses econômicos em jogo nas eleições brasileiras são gigantescos devido às suas implicações continentais, ao papel do Brasil hoje como provedor de matérias-primas para todo o mundo e como o grande cassino do mercado financeiro mundial. A mídia aderiu integralmente ao paradigma neoliberal, descartando como inválidas (ultrapassadas, ‘populistas’, mal-informadas etc.) todas as demais propostas políticas e hoje é muito influenciada pelos interesses do capital financeiro. Nesse contexto, a mídia é antipática a Garotinho e vai trabalhar contra ele proporcionalmente ao seu crescimento na campanha. Entre Serra-Alckmin, a mídia vem sendo levemente favorável a Alckmin, que não por acaso é o favorito do capital financeiro por ser mais fácil de ser mandado. Uma vez escolhido um dos dois, no entanto, o jogo vai mudar. Se o escolhido for Serra, tenho a impressão que vai se iniciar o jogo do ‘enquadramento’ mais efetivo do Serra no paradigma neoliberal.


O senhor afirmou que o presidente Lula sempre foi muito desrespeitado pela imprensa. Concorda que na campanha de 2002 teria havido uma trégua nesta postura? Alguns jornalistas, como Augusto Nunes e alguns colunistas do Estado de S.Paulo, têm escrito textos cobrando de seus colegas justamente uma posição mais crítica em relação ao presidente. Segundo eles, os jornalistas brasileiros são por demais complacentes com a ‘ignorância’ do presidente. Que postura o senhor acha que a imprensa terá nas eleições deste ano — algo próximo ao que ocorreu em 2002 ou mais de acordo com as cobranças de Nunes?


B.K. — A ‘ignorância’ que você colocou entre aspas é atribuída, é postulada pelos jornalistas. Ignorar o quê? O que o presidente deveria saber e não sabe? Governo não é academia e o presidente do Brasil não é escolhido pela sua titulação acadêmica. Toda essa discussão é um subproduto do preconceito e este, sim, é filho da ignorância. Um presidente é escolhido pelo povo a partir de propostas políticas, entre outros fatores secundários. E são essas proposta e o seu cumprimento ou não que deveriam ser discutidas. Mas como a mídia no fundo está muito contente – e se confessa agradavelmente surpreendida – com a política macroeconômica do governo, só pode desqualificar Lula (que, repito, não é aceito pela mídia como líder político) através de ataques subjetivos à sua pessoa, através da desvalorização de seus atributos pessoais e até da sua reputação.


Na entrevista à Agência Repórter Social, o senhor menciona também a postura dos colunistas e diz que poucos deles fogem do figurino de apoiar a política econômica do ministério da Fazenda e do Banco Central. Recentemente, parece ter surgido no Brasil, em jornais e sites da internet, uma leva de novos críticos de mídia com pouca ou nenhuma experiência em redações e que fazem a crítica com viés nitidamente conservador. Qual a sua avaliação sobre este movimento?


B.K. — Devido à minha sobrecarga de trabalho, confesso que não tenho acompanhado essa novidade. Em tese o que eu posso dizer é a crítica da mídia é um campo importantíssimo dos estudos de comunicação e naturalmente exercido pelos que têm uma visão crítica dos sistemas dominantes de poder, ou seja, as esquerdas e os liberais-democratas. [Noam] Chomsky é um maiores representantes desta atividade. Quando a direita faz crítica da mídia, devemos nos preocupar, porque não é usual, especialmente se faz isso em linguagem virulenta, porque pode denotar uma propensão da sociedade à caça as bruxas, expurgos, queima de livros, como já aconteceu tantas vezes.


Entre os erros que apontou do governo Lula, o senhor citou a questão da falta de projeto de comunicação. Uma das bandeiras históricas do PT, que de certa forma foi deixada de lado no programa de governo de 2002, era a da democratização da mídia brasileira. O senhor acha que houve avanços neste setor? Quais foram?


B.K. — Isso nunca foi bandeira importante do PT, infelizmente. Foi bandeira dos petistas envolvidos com mídia. Quanto a avanços, houve alguns em decorrência da revolução tecnológica que fragmentou o sistema, barateou custos e devolveu algum grau de autonomia aos produtores da informação. Também há o modelo CBN no rádiojornalismo e o modelo Valor no jornalismo impresso, que trouxeram algum avanço, mas sem conseguir mudar o padrão geral.


O Projor, instituição mantenedora do Observatório, entregou em outubro uma representação ao vice-procurador geral da República contestando o atual sistema de concessões de canais de rádio e TV. A representação se baseou em pesquisa realizada no primeiro semestre de 2005, pelo Projor, segundo a qual pelo menos 51 dos 513 membros da Câmara dos Deputados são concessionários diretos de emissoras de rádio ou TV, em desacordo com o artigo 54 da Constituição, segundo o qual eles não podem ter contrato ou emprego remunerado em empresas concessionárias de serviço público. Como o senhor avalia esta questão? Avalia que há conflito de interesses? Em algum momento houve no governo debate sobre a hipótese de mudar o sistema de concessão?


B.K. — Trata-se da perversão que é o domínio de mercado da audiência política por uma única rede (a Globo). Nem para vender chocolates se permite o domínio de mercado por uma única empresa. Imagine para vender informação e opinião.


 


Lula e a falácia da imprensa má


Mario Sergio Conti


[Copyright O Estado de S.Paulo, 15/1/2006]


Quando o governo vai mal, e cai a sua popularidade, há sempre alguém à esquerda do príncipe que surge com a tese de que a culpa é da imprensa. Argumenta-se que a imprensa, na sua má vontade, reflete os interesses contrariados pelo governo. A conclusão lógica é o governo criar ou reforçar mecanismos próprios de divulgação dos seus feitos, deixando os jornalistas em segundo plano. O governo deve fazer mais propaganda. Como as peças publicitárias governamentais são veiculadas em jornais, no rádio, na televisão e em revistas, o conselheiro do príncipe que começou atacando a imprensa na prática termina por beneficiá-la da maneira mais direta possível: carreando verbas públicas para empresas privadas de comunicação.


À direita do príncipe, surge então um argumento oposto. O governo vai mal porque se comunica mal. É necessário mudar a ‘estratégia’ de comunicação. A patranha consiste em aproximar o príncipe de determinados jornalistas e órgãos de imprensa (os de maior prestígio e audiência), em descarregar verbas publicitárias em veículos selecionados (os mais vulneráveis economicamente, e portanto dóceis ao governo) e em incrementar a presença institucional do governante – por meio de entrevistas coletivas. Também nessa alternativa a imprensa sai ganhando. Uns órgãos terão mais verbas. Outros, mais príncipe.


Desde que a crise política estourou, o governo Lula fez atabalhoadamente todos os movimentos possíveis em matéria de manipulação de verbas publicitárias e de aproximação do príncipe da imprensa. Nada deu certo. Sua popularidade segue em baixa.


Nem por isso o governo Lula deixa de inovar. A Secretaria de Comunicação Social tem um funcionário que se dedica a esmiuçar diariamente o que sai na imprensa. O funcionário é o jornalista Bernardo Kucinski, professor licenciado da Universidade de São Paulo. Todas as manhãs ele entrega um relatório sobre o assunto ao presidente, que o repassa a uma meia dúzia de ministros e assessores próximos.


Pois Kucinski concedeu uma entrevista à Agência Repórter Social (www.reportersocial.com.br) na qual reconhece o seguinte: ‘Fundamentalmente, o nosso governo não foi capaz de mudar o País como prometeu’. E complementa: ‘Mudar para sentir que estamos caminhando para alguma coisa, você não muda de um dia para outro, mas você cria o sentimento da mudança, e esse sentimento não foi criado’. Eis, enfim, alguém no Planalto que flagra o problema central do governo Lula: ele não cumpriu a promessa de mudar o País.


Kucinski não analisa o problema que ele mesmo enuncia lisamente. Em vez disso, assume o papel de conselheiro de comunicações do príncipe. Como de praxe, ataca repórteres, colunistas, diretores de órgãos de imprensa (que insistem em não reconhecer que ‘o governo Lula tem muita coisa boa’). Também nos conformes é a defesa da ‘comunicação institucional’ (como se a enxurrada de entrevistas coletivas de Lula nos últimos tempos tivesse surtido efeito). Bernardo Kucinski faz afirmações que, pelo tom peremptório (‘os jornalistas não aceitam um líder político que não tenha diploma’, ‘os jornalistas não têm respeito com a pessoa do Lula’), podem passar por verdades absolutas. Na verdade, são apenas impressões.


Minhas impressões são outras. Nas redações que freqüentei ao longo das últimas três décadas, o que vi foi simpatia por Lula. Por três motivos. Primeiro, ele simbolizava aquilo que Kucinski chama de ‘sentimento de mudança’. Em segundo lugar, ao contrário do político-padrão, no qual o cálculo e a defesa do interesse próprio são disfarçados com marquetices ou lengalenga patriótica, Lula era franco e objetivo, dizia o que pensava. Por fim, o homem é brasileiramente afável: faz piada, trata o jornalista com cordialidade.


O que Lula nunca teve foi a matreirice das velhas raposas, aqueles políticos que passam pistas de matérias e, em determinado dia, telefonam para contar uma notícia exclusiva. Em compensação, quando confiava num jornalista, Lula lhe dava acesso quase irrestrito.


Um exemplo. Passei dois anos, no final da década de 90, tentando entrevistar Lula para um livro que preparava sobre as relações de Fernando Collor com a imprensa. Queria que ele contasse a campanha presidencial de 1989. Achei que seria fácil, já que, durante os sete anos que dirigi Veja, nunca tivemos um atrito. Ele se recusou, alegando que não queria rememorar fatos que lhe eram dolorosos: a questão da sua ex-mulher, que Chico Santa Rita, o marqueteiro de Collor, levou ao ar na propaganda eleitoral para acusá-lo de forçá-la a fazer um aborto. Três amigos tentaram convencê-lo a mudar de idéia e não conseguiram: o jornalista Ricardo Kotscho, o escritor Frei Betto e José Américo Dias, então seu assessor de imprensa.


Dois meses depois da publicação do livro, Notícias do Planalto, Lula me convidou para um jantar, em companhia de José Américo Dias, hoje vereador pelo PT em São Paulo. Disse que, nas partes em que tratava dele, o livro era correto. (Entre parênteses: pelos comentários que fez, Lula demonstrou que tinha lido o livro, o que põe por terra a lenda, impregnada de preconceito e má-fé, de que ele não sabe ler.) No fim do jantar, perguntou no que poderia ajudar-me. Pedi-lhe que me desse acesso e notícias.


Acesso ele sempre deu. Permitiu que, para fazer uma reportagem, eu o acompanhasse durante uma semana de viagem na campanha municipal de 2001. Nos aviões, Lula passava a maior parte do tempo lendo jornais – as páginas de política e esporte, de cabo a rabo, e nas outras uma olhada por cima. ‘Se tivesse tempo, gastaria umas três horas por dia lendo um monte de jornais’, afirmou. Do que não gostava era da fofocaiada e de manipulação. Deu como exemplo a coluna “Painel”, da Folha de S.Paulo. ‘Para muitos petistas, o ‘Painel’ é o instrumento para eles mentirem e falarem mal uns dos outros; isso eu não faço.’


Depois de eleito, Lula continuou a dar acesso a jornalistas que conhecia, confiava e/ou representavam órgãos de imprensa importantes. Na sua primeira viagem a Paris como presidente, ele e seu então assessor, Ricardo Kotscho, permitiram que Reali Jr., do Estadão, Merval Pereira, de O Globo, Clovis Rossi, da Folha, e eu, da Rede Bandeirantes, participássemos do coquetel que ofereceu para dirigentes do Partido Socialista – enquanto dezenas de colegas foram impedidos de entrar.


A situação só mudou com a explosão da crise. Em julho, Lula foi novamente a Paris. Recusou-se a falar com todos os jornalistas, inclusive os franceses. Em compensação, aceitou que se armasse uma entrevista com uma desconhecida, que não é jornalista nem no Brasil nem na França, para afirmar que o PT faz como todos os partidos brasileiros quando recorre ao caixa dois.


Essas historinhas demonstram que Lula entende perfeitamente o papel dos jornalistas. Um entendimento maior do que é a imprensa que o de Bernardo Kucinski. O que ele não tem é a avaliação política de Kucinski, a de que seu governo não foi capaz de cumprir o prometido: começar a mudar o Brasil.

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