Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > USA TODAY, A BOLA DA VEZ

Pior do que a fraude é escondê-la

Por Alberto Dines em 27/04/2004 na edição 274

A temporada de imposturas não acabou. Sai Jayson Blair e entra Jack Kelley, deixa a cena o aristocrático The New York Times e acendem-se os holofotes em cima do popular USA Today. A nova falcatrua é ainda mais grave do que a anterior. Pelas seguintes razões:


** Kelley, repórter internacional, é um profissional mais graduado e atuava numa área muito mais sensível. Em muitas coberturas esteve sozinho e o leitor do seu jornal não tinha outra opção, a não ser acreditar no que escrevia. Blair, mais moço, cobria a área regional, menos explosiva e onde operam outros profissionais.


** O USA Today é um produto novo, concebido e testado nos sofisticados laboratórios do marketing jornalístico para tornar-se o primeiro jornal efetivamente nacional e o de maior tiragem dos EUA. Resultou de um exaustivo estudo do mercado para produzir a fórmula infalível de sucesso – muita foto colorida, textos curtos, preferencialmente sobre ‘abobrinhas’, infográficos para facilitar a compreensão de assuntos espinhosos, ênfase no esporte – uma TV impressa, em formato de jornal e a mesma superficialidade.


** A fórmula foi recebida com entusiasmo em certos círculos ávidos por novidades, inclusive no Brasil. No início dos anos 1980, serviu de base para o ‘Projeto Folha’ – que preferiu o espalhafatoso estilo recém-inventado nos EUA ao conceito mais denso e mais sóbrio do jornalismo inglês que o jornalão paulista adotara a partir de 1975.


** Quando estourou o Caso Blair, tanto o USA Today como o Wall Street Journal foram os que mais tripudiaram sobre o concorrente (ambos editados por conglomerados assumidamente conservadores).


** Entre o Caso Blair e o Caso Kelley transcorreram 11 meses. No intervalo, em pelo menos 10 grandes jornais americanos foram descobertas outras graves imposturas. Se fosse mais preocupado com o seu leitor, o USA Today poderia acionar os alarmes internos e abortar o sistema de fraudes com um ano de antecedência.


** As mentiras e plágios de Kelley alongaram-se por uma década, a metade da vida do USA Today. Blair fraudou os leitores do New York Times em apenas 30 matérias.


Compromissos elementares


Os casos Blair e Kelley diferenciam-se do que aconteceu na BBC, no Le Monde, La Croix e mesmo no El País, que deixou-se engabelar por um chefe de Estado enfiado numa campanha eleitoral. O jornal espanhol penitenciou-se por ter endossado a patranha de José Maria Aznar a respeito da autoria dos atentados de 11 de Março. A BBC foi obrigada a fazê-lo por força de um inquérito dirigido por um lorde-juiz, aliás nada isento. Se tivesse tomado a iniciativa de reconhecer seu erro teria evitado o suicídio da fonte das informações ‘esquentadas’ num de seus programas de rádio. O Monde e a Croix, bem à francesa, simplesmente demitiram os importunos que lembraram as suas fraquezas.


Embora tão diferentes em matéria de histórico e estilos, a reação foi igual nos dois jornais americanos: convocaram comissões de inquérito, assumiram suas responsabilidades, nada ocultaram do público, aceitaram as demissões das chefias, curvaram-se ao vexame.


Diante destes exemplos, somos inevitavelmente empurrados para a mesma questão: nossos jornalões ou revistões teriam a coragem de expor suas mazelas, falhas e vísceras com a mesma audácia?


O leitor deste Observatório já tem condições de responder. Basta examinar o que aqui tem sido registrado nos últimos oito anos, especialmente sobre a moda dos dossiês secretos, o fascínio pela divulgação de fitas e grampos produzidos por interesses escusos que jamais são revelados e, mais recentemente, sobre o ‘Waldogate’ que paralisou o país ao longo de dois meses [veja as remissões abaixo].


Não se trata de propor uma competição moral, maratona ética ou olimpíada de penitências entre culturas, povos e instituições. Nossa imprensa em outras ocasiões já demonstrou que tem estatura e fibra para grandes gestos. No entanto, não consegue demarcar-se de um gênero de reportagem investigativa que de reportagem tem muito pouco e de investigação, menos ainda.


É fácil denunciar autoridades que não dizem a verdade. Cômodo criticar Rupert Murdoch. Mas a empresa Gannet (que edita o USA Today) joga o mesmo jogo do barão (ou tubarão) australiano. E, no entanto, quando se viu flagrada não fingiu inocência nem proclamou-se vítima da censura. Bateu no peito, baixou a cabeça, assumiu a culpa e foi em frente, certa de que erros corrigem-se com acertos.


No Brasil, jornais e jornalistas costumam alimentar-se com a mesma arrogância: assumem-se como figuras acima de qualquer suspeita e, com álibis politicamente corretos, sentem-se liminarmente liberados para manipular, forçar sentidos, omitir e deturpar.


Os escândalos que neste último ano envolveram grandes veículos internacionais, ao contrário do que se possa pensar, só engrandecem aqueles que recusam a onipotência e submetem-se ao escrutínio da opinião pública. A Imprensa não está mais doente do que o mundo nem mais degradada do que a condição humana. Se apenas aferrar-se aos compromissos elementares com o seu público manter-se-á como janela de esperança. A Era da Informação não se converterá na Era da Mentira enquanto houver profissionais capazes de dizer ‘errei’ – mesmo que isso lhes custe o emprego.

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