Sábado, 17 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Poesia (e jornais) para crianças

Por Luciano Martins Costa em 28/05/2009 na edição 539

A edição de quinta-feira (28/5) da Folha de S.Paulo publica, com chamada na primeira página, mais um caso de livro inapropriado distribuído às crianças da rede oficial de ensino paulista. O texto questionado é um poema do designer gráfico e escritor Joca Reiner Terron, que também produz um blog com relatos de viagem e outros comentários. Segundo o autor, citado pela Folha, o poema é realmente inapropriado para crianças. Mas o poema ‘Manual de Auto-Ajuda para Supervilões’, parte do livro intitulado Hotel Hell, pode também não ser próprio para adolescentes, como afirma o jornal. E talvez nem possa ser considerado um poema.


A empresa Abril Educação, do Grupo Abril e ao qual pertence a Editora Ática, produtora do livro didático, afirma, em nota reproduzida pela Folha de S.Paulo, que o livro é recomentado para adolescentes de 13 anos. A Folha não discute essa afirmação, mas o leitor pode julgar por si.


O texto distribuído para crianças de 9 anos e que, segundo aceita o jornal, seria apropriado para adolescentes de 13, diz mais ou menos o seguinte, retirados trechos também impróprios para leitura em público:




‘Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica’.


Mais que o registro


Só nessa primeira frase a obra mereceria algum reparo antes de ser selecionada, pois o autor confunde umbigo com o cordão umbilical. Mas sigamos. Diz o suposto poema:




‘Não vá se entusiasmar e matar sua mãe/ até supervilões precisam ter mães/ (…) tome drogas pra car…/ É sempre aconselhável ver o panorama pelo alto/ Nunca ame ninguém. Estupre/ Execre o amável, zele pelo abominável, seja um pouco afeminado (…)’ – e por aí vai.


A qualidade, o valor e a própria natureza de um poema sempre carregam uma dose elevada de subjetividade, mas já que resolveu alimentar a polêmica, o jornal deveria ir mais fundo e questionar o processo de escolha dos conteúdos que são produzidos por editoras privadas contratadas pelo Estado para a produção de material educacional.


Afinal, a sequência de erros nos livros didáticos distribuídos à rede escolar de São Paulo já merece mais do que um mero registro da imprensa. Já se trata de um caso endêmico de equívocos graves.


Jornais para crianças


O tema da publicação de material impróprio para crianças em livros didáticos poderia inspirar alguma reflexão sobre outras questões associadas, como a dos cadernos dos jornais destinados ao público infantil e adolescente.


Sem resvalar para o trauma da censura, que a sociedade brasileira tem ojeriza de enfrentar desde o processo de redemocratização, talvez fosse conveniente também avaliar as histórias em quadrinhos e outros conteúdos que são oferecidos nesses suplementos inseridos nos diários.


Quem sabe algum educador ou especialista em psicologia infantil se disponha a discutir o efeito, sobre a formação das crianças, de personagens de quadrinhos que fazem a apologia do uso de drogas, por exemplo. Afinal, jornal de papel não tem um sistema que permita bloquear conteúdos indesejados, como na TV a cabo ou na internet.


E o leitor atento há de notar que a linguagem utilizada nos cadernos dirigidos a adolescentes é até mais liberal do que aquela aplicada às partes do jornal supostamente destinadas aos adultos.


Mais atenção


Evidentemente, uma discussão desse tipo haveria de provocar reações iradas de muitos editores e com certeza se levantaria a bandeira da liberdade de imprensa contra tal ousadia extremada. Mas, assim como os jornais podem e devem examinar e julgar os conteúdos distribuídos pelo Estado nas escolas públicas, talvez o público devesse poder discutir abertamente o conteúdo que os jornais dirigem especificamente a crianças e adolescentes.


Vivemos em uma sociedade que repudia os controles e valoriza especialmente as liberdades. Ninguém, em sã consciência cívica, defenderia o retorno ao controle do Estado sobre a comunicação social, mas não se pode omitir o fato de que alguns conteúdos de jornais merecem ser melhor analisados.

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