Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > Jornais em crise

A polêmica associação entre jornalismo e negócios na internet

Por Carlos Castilho em 25/05/2017 na edição 943

Um novo modelo de negócios começa a ganhar corpo no conturbado ambiente midiático na internet ao explorar uma relação, até agora considerada um antiética, nas redações e faculdades de jornalismo no mundo inteiro: A relação entre notícia e negócio.

Um dos dogmas do jornalismo convencional diz que a produção de notícias deve ser completamente independente e autônoma em relação aos negócios das empresas de comunicação.  Os manuais de redação são enfáticos ao afirmar que o jornalismo não pode ser influenciado pelos interesses comerciais dos anunciantes, o que acabou criando dentro da maioria das empresas uma relação tensa entre editores e publicitários.

O princípio da autonomia editorial e as desconfianças mútuas entre os que produzem as notícias e os que as comercializam já começaram a ser revistos tanto no dia a dia das redações como entre os pesquisadores do jornalismo, principalmente os que estudam o até agora insolúvel dilema da sustentabilidade financeira em projetos jornalísticos na internet.

A falência do modelo tradicional de troca da atenção do público por visibilidade de empresas, produtos e serviços, gerou um vácuo econômico que matou, e continua matando, um grande número de empresas jornalísticas convencionais e novas iniciativas independentes na comunicação virtual.  Também a publicidade paga um alto preço pela ruptura de modelos tradicionais, provocada pela digitalização e pela internet.  Ambas as atividades  encontram-se atualmente diante de dilemas complexos e, até agora, sem solução na busca de novos sistemas de sustentabilidade tanto editorial como financeira e administrativa.

Jornalismo multidisciplinar

A migração para o ambiente digital na esmagadora maioria da imprensa convencional agregou mais um elemento a já complexa relação entre jornalistas e publicitários: os programadores e técnicos em informática. Criou-se assim uma dependência mútua entre estes três segmentos profissionais.  Para publicar na web, o jornalista passou a necessitar do apoio de programadores e designers.  Por sua vez,  o emprego de ambos depende de receitas  criadas pelos publicitários.

Em resumo, o caráter multidisciplinar do jornalismo tornou-se uma necessidade de sobrevivência em vez de um item no discurso acadêmico.  A tendência ao caráter multidisciplinar do jornalismo já havia sido destacada anteriormente com a consolidação da abordagem multimídia na produção de notícias usando integradamente plataformas em texto, áudio, vídeo e interatividade com os internautas.

A nova vinculação entre informação e produto baseia-se num pressuposto simples, mas de difícil enquadramento na cultura tradicional tanto de jornalistas como de publicitários: O da colaboração como recurso para a sobrevivência de ambas profissões.  Tudo começou quando alguns jornais, percebendo a queda de receitas publicitarias, decidiram digitalizar o acervo noticioso para comercializá-lo como informação processada. O The New York Times gastou milhões de dólares para digitalizar seu arquivo desde o final do século XIX e conseguiu recuperar o investimento em uma década.

Os três pressupostos

Foi através do  jornalismo de dados, uma área nova na história da profissão,  que muitas empresas identificaram uma fonte de receitas resultante da comercialização de informações, dando origem à uma nova associação entre notícia e produto comercializável. Posteriormente também os profissionais autônomos passaram a inferir o desenvolvimento de produtos ou serviços a partir de material jornalístico produzido originalmente sem qualquer preocupação comercial.

Hoje muitos pesquisadores, como Cindy Royal, professora da Escola de Jornalismo e Comunicação em Massa, na Universidade Estadual do Texas, afirmam que é cada vez maior o número de jornalistas que desenvolvem aplicativos comercializáveis que ajudam os usuários a selecionar, interpretar ou socializar notícias.  Jeff Sonderman, pesquisador do Instituto Poynter e professor da universidade Georgetown, ambos nos Estados Unidos, públicou em 2016 um relatório listando as melhores praticas na gestão de produtos em ambiente jornalístico.

Todos os artigos, pesquisas e seminários realizados até agora sobre o chamado jornalismo de produto insistem em três pontos cruciais, que exigem mudanças consideráveis tanto nas rotinas e princípios como nos valores praticados por jornalistas,  publicitários e programadores.  Primeiro deles é o princípio da independência entre as três funções.  O segundo é a integração no dia a dia da atividade. E o terceiro, o foco conjunto nas preocupações, necessidades e desejos do público.

Levando em conta a realidade existente na esmagadora maioria dos veículos jornalísticos online, não será fácil e nem rápida a incorporação destas três exigências no desenvolvimento de uma notícia que possa gerar um produto. Mas quem conseguir, poderá chegar muito perto da sobrevivência nos chamados “desertos informativos” criados pelo fechamento de centenas de jornais locais e  regionais.

***

Carlos Castilho é jornalista e desenvolve pesquisa sobre a busca de sustentabilidade editorial e financeira em projetos de jornalismo local e comunitário.

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