Terça-feira, 20 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Por onde andará o sujeito?

Por Xenya Bucchioni em 12/05/2009 na edição 537

É impressionante como as máquinas exercem um poder de sedução sobre a humanidade. Passam-se os anos e sempre ouvimos que tal ou qual inovação tecnológica permitirá um avanço da humanidade em torno disso ou daquilo. São inegáveis, evidentemente, as potencialidades que as tecnologias reservam ao cotidiano das sociedades. Não quero, nessa breve reflexão, deter-me sobre o lado bom ou ruim dos artefatos tecnológicos – essa discussão já foi brilhantemente posta por Umberto Eco, no famoso Apocalípticos e Integrados. Enquanto jornalista, o que me traz inquietação sobre tais debates são os discursos referentes às tais novas tecnologias de informação e comunicação.

Recentemente, durante um congresso de comunicação com a temática da dita ‘Sociedade da Informação’, por segundos diferentes senti-me participante de um congresso de física, engenharia, informática. Falava-se de tudo, de como funcionavam blogs, videoblogs, dos tipos de relações que as comunidades X e Y proporcionam aos indivíduos, de quantos e quais blogs podemos encontrar na imensidão da blogosfera, do pós-humano, do ciborgue, do capital social que o mundo conectado possibilita aos indivíduos, mas, de repente, em meio a todos os tipos de argumento, o sujeito (eu, você e todos nós) ficou relegado ao segundo plano, como se não fossemos nós os grandes criadores das técnicas e os responsáveis pelo avanço tecnológico, como se não fossemos nós que atribuíssemos significado à tecnologia e a introduzíssemos em nosso cotidiano. O deslumbramento com as possibilidades das tecnologias de informação e comunicação retirou-nos do papel central da História.

Uma perspectiva mais humanista

É como se houvesse um personagem pior do que a figura do Grande Irmão, de George Orwell, transformando a tudo e a todos sem que nós, reles mortais, pudéssemos perceber ou reagir. Evidente que nessas discussões sempre se acusam as inúmeras possibilidades de interação que os indivíduos têm por meio das tecnologias de informação e comunicação. Contudo, isso não apresenta consistência suficiente para cunhar termos como sociedade do conhecimento, da informação, ou em rede, ou ainda dizer que estamos diante de um mundo integrado.

A legitimação da sociedade da informação enquanto novo paradigma dominante encobre relações de poder e jogos econômicos. Travestida como modelo de progresso para a humanidade – que ao estar conectada estaria livre para o conhecimento –, a ideia da sociedade da informação apresenta a tecnologia de maneira determinista, enquanto saída possível para uma transformação social.

Milton Santos, em Por uma outra globalização, dá pistas pertinentes sobre a relação sujeito/máquina ao dizer que nenhuma técnica surge de maneira isolada. Pelo contrário, cada sistema técnico é representativo de sua época, as tecnologias são criadas pelo homem de acordo com o contexto histórico no qual estes se inserem. Assumir tal perspectiva significa (re)contextualizar o papel do sujeito no processo de desenvolvimento tecnológico e, mais do que isso, compreender os limites, conflitos e as diferenças que lhe são intrínsecos.

Ou seja, as análises que procuram dar conta do desenvolvimento das tecnologias de comunicação e informação em relação com a sociedade, devem atentar-se a 1) o contexto histórico, 2) a relação dialética entre homem/tecnologia e 3) e a dimensão social e cultural da comunicação. Cercados desses cuidados, talvez possamos compreender as inovações tecnológicas dentro de uma perspectiva mais humanista.

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Graduada em Comunicação pela Unesp de Bauru; desenvolveu, como bolsista da Fapesp, a pesquisa ‘Intolerância política e imprensa alternativa: Versus e a cultura como forma de resistência’

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