Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Pouca atenção a uma história mal-contada

Por Marcelo Oliveira em 07/09/2006 na edição 397

Na sexta-feira (1/9), São Paulo e o Brasil tiveram um encontro com sua história recente. Naquela manhã, num ato inter-religioso na catedral da Sé, mais ou menos 400 testemunhas puderam, enfim, se despedir de Luiz José da Cunha, o ‘Comandante Crioulo’, militante da Ação Libertadora Nacional, morto a tiros pela ditadura militar em circunstâncias até hoje não esclarecidas, em julho de 1973.


Numa cerimônia bonita, seus ossos foram entregues à viúva, Amparo Araújo. Na nave da catedral, militantes dos direitos humanos e familiares de mortos e desaparecidos políticos portavam retratos de seus parentes. Até hoje, cerca de 100 pessoas permanecem como ‘desaparecidos’, sem um enterro digno – a maior das desonras, conforme a literatura clássica grega.


Ao som do samba ‘Silêncio no Bexiga’, de Geraldo Filme, interpretado pelo Teatro Popular União e Olho Vivo, os presentes, em fila indiana, depositaram os retratos ao pé do altar, ao lado de velas, uma bela imagem que apenas os 800 olhos que lá estavam viram.


Passar a limpo


Operação Toupeira e eleições à parte, poderiam ter sido muito mais de 400 testemunhas, se a ‘grande’ imprensa tivesse se dignado a cobrir a história. Salvo algumas matérias de junho deste ano, feitas logo após a ossada de Luiz Cunha ter sido identificada por meio de um exame de DNA (que só foi feito após anos de esforços de procuradores da República em São Paulo), poucas linhas sobre a história foram vistas na imprensa de São Paulo e do Rio, na véspera, no dia ou após a cerimônia.


A exceção honrosa foi O Globo de sábado (2/9) [ver abaixo], que entregou aos seis leitores oito parágrafos. O Estado de S.Paulo publicou uma notinha. Folha de S.Paulo e Jornal do Brasil, nada. TVs abertas, nem um segundo sequer. Rádios, nem em sonho.


Mas não fala aqui o assessor de imprensa despeitado, que teve a pauta rejeitada. Fala um cidadão chateado, que afirma de boca cheia que não é só o povo brasileiro que é sem memória, mas as redações também. E posso afirmar, com tristeza, que boa parte da falta de memória de nosso povo é causada por nossa imprensa desvairada, louca pelo furo, beirando o irresponsável, pouco preparada para ver os fatos sob uma perspectiva histórica e que parece ter esquecido sua responsabilidade de ajudar a passar a limpo a ainda mal-contada história da ditadura.


‘Cor branca’


Desde 1999 existe um procedimento do Ministério Público Federal que apura a demora na identificação dos restos mortais encontrados na vala comum do Cemitério de Perus, em 1991. No meio dessa investigação, o MPF descobriu que o acondicionamento desses ossos – na Unicamp – não estava apropriado e conseguiu a transferência dos restos mortais para o Instituto Médico Legal, em São Paulo, que iniciou novos exames para tentar identificar as ossadas, sem sucesso. No ano passado, o MPF conseguiu que a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República financiasse novos exames de DNA, resultando nas identificações de Flávio Molina, em 2005, e de Luiz Cunha, em junho deste ano.


Nos últimos anos, Cunha foi apenas o terceiro desaparecido político identificado. Detalhe, ele era pobre, negro, nordestino e comunista. Há 30 anos, não se noticiava o enterro de um preso político negro. Sua cabeça foi arrancada pelos seus assassinos para que lhe fosse dificultada a identificação. Em sua certidão de óbito, constou a cor branca. Antes de seus ossos terem sido entregues à família, o MPF pediu e a certidão foi corrigida. Se tudo isso não é notícia, o que é?


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‘Viúva sepultará líder da ALN depois de 33 anos’ # Tatiana Farah, copyright O Globo, 2/9/2006


Maria do Amparo Araújo encerrou ontem um capítulo trágico de sua vida: os 33 anos de espera para reconhecer e sepultar o corpo de seu marido.


Luiz José Cunha, o Comandante Crioulo, foi morto pela ditadura do regime militar em 1973. Era um dos líderes da ALN Ação Libertadora Nacional), que participou da luta armada contra os militares, e foi assassinado a tiros em uma armadilha do DOI-Codi, em São Paulo, depois de ser torturado.


Em 1991, quando foi descoberto o cemitério clandestino de Perus, na periferia da capital paulista, Amparo teve esperança de reconhecer o marido entre as centenas de ossadas. Não pôde.


Além de ter sido registrado como branco, embora fosse negro, o militante de esquerda teve a cabeça separada do corpo para dificultar a identificação.


Mais 15 anos de espera e os exames de DNA confirmaram as suspeitas de Amparo. Ontem, a viúva recebeu os restos mortais do marido, que será enterrado no túmulo da família, em Recife.


– Na nossa religião, na nossa cultura, temos de viver o ritual da morte. Enquanto a gente não vive esse ritual, fica sempre esperando pela pessoa. Agora não me sinto mais obrigada a ver os noticiários. Porque eu estava sempre esperando – disse Amparo, que afirma querer esclarecer mais crimes contra os antigos companheiros de militância: – Vamos buscar os outros companheiros, que são mais de cem, e que estão desaparecidos, inclusive o meu irmão.


Cerimônia teve José Dirceu entre os ex-companheiros Amparo recebeu o pequeno caixão com os restos mortais do Comandante na Catedral da Sé em São Paulo, em cerimônia ecumênica que reuniu políticos, militantes de direitos humanos, familiares e ex-companheiros de militância. O ex-ministro petista José Dirceu foi uma das estrelas políticas na igreja.


– Esta é uma página não virada na história do Brasil. Não podemos continuar nessa situação. O correto seria que todas as informações fossem disponibilizadas. Quem tem essas informações são aqueles que participaram da ações militares do passado – disse o ex-ministro, que foi ativista do Molipo (Movimento de Libertação Popular), uma dissidência da ALN.

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Jornalista, assessor de comunicação do Ministério Público Federal em São Paulo

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