Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > OPÇÕES EDITORIAIS

Premissas que estão na raiz da crise

Por Luciano Martins Costa em 16/01/2006 na edição 364

Deu no Jornal da Tarde, também conhecido como Estadinho, dia 20 de dezembro de 2005: ‘O drama de Klebiolândio, preso por molestar galinha’. Repetiu o JT, no dia seguinte: ‘Rapaz preso por molestar galinha comove promotor’. Dois dias depois (23/12), o título era ‘Rapaz que molestou galinha pode ser solto’.

Passaram-se as festas de Natal e Ano Novo, que Klebiolândio passou numa cela, e no dia 6 de janeiro deste 2006, alvorada do século 21, o Jornal da Tarde nos informava, com título de ponta a ponta, em destaque no alto de página ímpar, que ‘Homem que molestou galinha será solto’. No dia seguinte, prosseguia a novela: ‘Acusado de molestar galinha mais um dia preso’. E mais haveria de vir, mas basta para nossas observações.

Façamos um corte. Há cerca de cinco anos, estudos levados aos grandes jornais brasileiros por uma consultoria que presta serviços a nove entre dez empresas de comunicação nacionais indicavam que surgia no Brasil uma nova classe média – que repetiria, no consumo de periódicos, o fenômeno registrado em 1998 com a ‘descoberta’ do iogurte pelas famílias de classes de renda C e D. Os consultores recomendavam que as empresas lançassem ou renovassem seus títulos ‘populares’ para captar anúncios classificados e propaganda de lojas de departamentos voltados para esses novos consumidores.

Foi nessa leva que surgiram ou se renovaram títulos como O Dia, Agora São Paulo, Diário de S.Paulo e outros, por todo o país, entre eles o Jornal da Tarde – que vinha sofrendo um longo processo de decadência desde os anos 1990, após ter abrigado uma das mais instigantes experiências do jornalismo brasileiro, período em que se tornara referência em jornalismo esportivo e cultural.

As recomendações dos consultores eram inspiradas em pesquisa divulgada em 2001 pela consultoria McKinsey, na qual se revelava que, de 1996 a 2000, o mercado brasileiro de jornais havia ganhado 5 milhões de leitores, a maioria carregada pelos chamados títulos populares, conforme relatado no 3º Congresso da Associação Nacional de Jornais (ANJ) [veja aqui].

Identidade preservada

Aqueles 5 milhões de leitores desapareceram desde então, embora a maioria dos diários dirigidos às classes de renda C e D continue a circular. O que houve, conforme se pode depreender da tendência apresentada pela pesquisa, é que parte desses leitores havia migrado dos jornais tradicionais, como O Globo, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Com as dificuldades econômicas de 2001 a 2003, os leitores que haviam trocado de preferência simplesmente deixaram de ler jornais, e a maioria dos ‘populares’ passou a viver de campanhas, sorteios, promoções. O fim dessa história já conhecemos: um dia se esgota o efeito do ‘anabolizante’ de circulação e ficam os periódicos sem mais atrativos.

E o que isso tem a ver com o inusitado interesse do Jornal da Tarde por um jovem de 20 anos, vivente do agreste pernambucano, que supostamente foi apanhado em flagrante tentando descarregar suas energia sexual num galináceo? Tem tudo o que os gestores das empresas de comunicação no Brasil não querem enxergar: a propósito de denunciar uma suposta mazela do Judiciário, que mantém preso em São Paulo, por mais de três meses, um jovem interiorano acusado de um delito menor, o jornal acaba por agravar sua pena com uma seqüência de exposições deletérias e vexatórias, atentando contra sua dignidade e colocando sua vida sob risco. A propósito de se comunicar com o leitor de renda mais baixa, o jornal pressupõe que suas páginas devam retratar em detalhes o chamado mondo cane. Afinal, o que mais merecem os leitores da periferia do sistema?

Em janeiro de 2003, um caso semelhante foi tratado pelo Diário Catarinense, do Grupo RBS, de maneira completamente distinta: ‘Um homem de aproximadamente 50 anos, identificado com J.J.S., foi preso em flagrante por abusar sexualmente de uma galinha na manhã desta quarta-feira, dia 29, no Centro de Palhoça, na Grande Florianópolis. Ele foi detido sob acusação de maus tratos a animais’, dizia o texto do jornal de Santa Catarina.

Ou seja, episódio semelhante, envolvendo um homem maduro, mereceu o cuidado de se preservar a identidade do acusado com a publicação das iniciais do seu nome. Já o menino Klebiolândio não mereceu o mesmo respeito por parte do JT: saiu com nome e sobrenome e o jornal até nos informa sua cidade de origem, para onde ele provavelmente nunca mais poderá retornar.

Capítulo nada edificante

Observe-se que, na seqüência de reportagens, o jornal diz aos leitores que o personagem foi ‘preso por molestar galinha’, e mais adiante assume que se trata de ‘homem que molestou galinha’. Desapareceu o benefício da dúvida, os jornalistas o julgaram, condenado está, e, com a identificação de sua origem, está também sua família execrada.

Nem vamos aqui imaginar que, se não fosse um nordestino pobre de nome esdrúxulo, o personagem talvez merecesse o favor de ser apontado pelas iniciais. Analisemos apenas a origem de decisões editoriais como essa: elas nascem de premissas fundamente estocadas na cultura da imprensa brasileira. Essas premissas, das quais tratamos neste Observatório com certa freqüência, são uma das raízes da crise que atinge as empresas de mídia, são antolhos que impedem os gestores dessas empresas de enxergar uma saída.

O caso citado é um exemplo claro de que os dirigentes dos jornais destinados ao público de classes C e D imaginam que podem ganhar os leitores investindo em bizarrices como essa. Se pudéssemos passar ao largo da vitimização que atinge o personagem das reportagens e sua família, ainda encontraríamos material de sobra para constatar que nossa imprensa sofre dos mesmos preconceitos que caracterizam as classes mais favorecidas deste país tão diversificado – preconceitos dirigidos principalmente aos mais pobres, simbolizados sempre pelos negros e nordestinos.

Quem é acusado de abusar de uma galinha no Sul é J.J.S. Se nordestino, damos-lhe nome completo e endereço. O suspeito sulino tem sua história resumida em uma nota. O personagem nordestino merece uma seqüência de reportagens, um fôlego que a imprensa não demonstra para explicar, por exemplo, como prosperam casas de prostituição e quadrilhas de policiais a vender ‘segurança’ nas imediações dos bingos de São Paulo.

De premissas irracionais e preconceitos é feita nossa imprensa. Esse é o viés que contamina as escolhas editoriais e corrói os fundamentos de credibilidade que deveriam ser preservados como o grande patrimônio do jornalismo.

Klebiolândio provavelmente nunca vai entender o que lhe aconteceu. Tem 20 anos de idade, vivia num povoado rural a 116 quilômetros do Recife. Foi passar mais de um quarto do ano numa cela do Centro de Detenção Provisória do Belém, na Zona Leste de São Paulo. Não é um capítulo edificante para a Justiça brasileira. É um exemplo esclarecedor de como nossa imprensa pode ser rasteira.

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Jornalista

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