Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > IMÓVEIS, LÁ E CÁ

Primeiro o boom, depois o crash

Por Alberto Dines em 25/09/2007 na edição 452

Mugido, estouro, escarcéu, crescimento acelerado, expansão rápida: cada boom costuma ser seguido de um crash – colapso. Anglicismos onomatopaicos incorporados ao jargão financeiro, marcos da gangorra econômica contemporânea.


A crise financeira internacional – iniciada há pouco mais de um mês e cujas dimensões ainda não foram avaliadas com exatidão – foi provocada pelo boom imobiliário americano. Delírio creditício seguido pelas inevitáveis inadimplências, retrato do capitalismo pós-industrial baseado na ausência de regulação e na desenfreada busca de escala.


Nosso boom imobiliário também está sendo alimentado artificialmente (no caso pelas sobras de recursos que os bancos passarão a dispor a partir de 2008). Não resulta da aceleração do crescimento econômico nem decorre de um ciclo de desenvolvimento sustentado.


Nos dois casos, meras bolhas. E bolhas tendem a estourar. Acima ou abaixo do Equador.


Pátio de milagres


Os vilões da crise americana foram as agências de classificação de risco que não dispararam os alarmes quando o mercado foi inundado por papéis e produtos financeiros sem garantias reais.


A vilã de uma eventual crise imobiliária brasileira será a mídia. Ela está faturando os tubos com as suntuosas campanhas de lançamentos imobiliários, esquecida de seu papel de servir o público com um aconselhamento responsável. Ou, pelo menos, sem acumpliciar-se com os trambiques.


As áreas úteis dos apartamentos são cada vez menores, em compensação as áreas de lazer são cada vez maiores. Não aparece nenhum consultor ou analista para avisar os leitores que a manutenção das fabulosas academias de ginástica, piscinas, brinquedotecas, salões de festas, bosques e zoológicos que enchem os olhos nos anúncios coloridos será paga pelas taxas de condomínio. Este custo não é mencionado na sedutora propaganda.


Os magníficos empreendimentos imobiliários necessitarão de legiões de empregados contratados e administrados por empresas que certamente não trabalharão gratuitamente. Isso também não é mencionado nos fascinantes anúncios.


A mídia impressa brasileira transformou-se numa espécie de pátio de milagres onde se vendem ilusões de felicidade e promessas de bem-estar jamais concretizadas. Há uma década os anúncios exibiam plantas, hoje quem vende imóveis são louraças.


Surto de exuberância


Tudo bem: o problema é do consumidor(a) idiotizado(a) que não examina o produto que compra. Mas a indústria de imóveis não vende produtos prontos, fáceis de examinar – vende projetos e projeções, plantas de papel e maquetes de gesso, símiles. Só na entrega das chaves será possível verificar se a publicidade não foi enganosa. Tarde demais.


As construtoras e as incorporadoras não têm obrigação de explicar como ficará o trânsito e o acesso nas ruas além das piscinas refrescantes e guetos florestais. Mas os jornais e as revistas (que agora descobriram o filão imobiliário) têm a obrigação cívica de oferecer um suporte informativo complementar sobre os novos paraísos urbanos, mix de concreto e árvores ornamentais.


A própria imprensa ilude-se com o boom imobiliário. Ainda não fez as contas: está comprando papel com dólar barato e vendendo espaços às grandes incorporadoras a preço de banana. Pretende lucrar na escala.


Atrás de cada surto de exuberância esconde-se a miragem dos grandes volumes. Nesta equação geralmente falaciosa o boom transforma-se em crash.

Todos os comentários

  1. Comentou em 26/09/2007 Ivan Moraes

    ‘Dines fica falando em boom imobiliário e em escandalo no Corinthians, deixando passar ao largo a bandalheira entre a Abril e a Telefônica’: porque elas sao patrocinadas por bancos internacionais e o brasileiro tem zero defesas contra eles. Se houver muita enchecao de saco eles levam o Brasil aa falencia mais cedo e por mais tempo. Essa eh a corda no pescoco dos mineiros que eles nao sabem nadinha a respeito.

  2. Comentou em 26/09/2007 adhemar gandra

    FALA!!DINES!!FALA!! TODOS QUEREM HOUVIR VC FALAR DO AZEREDO,AZEREDO DINES,AZEREDO OUVIU,LIGA PRO FHC,SERRA PEDE AUTORIZAÇÃO,OS TUCANOS NÃO TIRAR SEU ESPAÇO NA TV TUCANA,TV TUCANA NÃO,TV CULTURA,Á É TUDO A MESMA COISA

  3. Comentou em 25/09/2007 Ivan Moraes

    Jose Orair, Gustavo Morais: gracas a voces dois eu entendi a extensao do que esta acontecendo: dinheiro publico foi desviado para a grande media quando do MENSALAO TUCANO. Sei que eh verdade porque existem sinais pra todo lado… e ja esta acontecendo em MG ha anos. Sabotagem de estoques especificos nesse exato minuto seria muito interessante, especialmente os energeticos –foi, igualmente, pra onde dinheiro mineiro foi desviado, embora ninguem saiba essa historia direito ainda porque MG nao tem media. Mas SP e Rio teem, como tambem teem investidores **na bolsa**. A historia do desvio da Light foi excruciantemente documentada e detalhada no novojornal.com. O dinheiro da propria media esta envolvido nesse ‘desinteresse’ todo no MENSALAO TUCANO.

  4. Comentou em 25/09/2007 Ivan Moraes

    Celio: kkkkkkkkkkkkkkkk! Voce so pode estar mentindo! Dines: o crash eh tao certo como dois e dois, e ainda estou esperando alguem com mais competencia comercial comparar os contratos de falencia garantida brasileiros com os contratos de falencia garantida dos EUA. Uma coisa eh certa: nada mudou. O unico ‘investimento’ seguro para um brasileiro sempre foi de fato em imoveis porque o resto o governo destroi tudo sem excessao. Agora, nessa brincadeira importada, vai se embora a unica seguranca do brasileiro que o governo nao desgracou ainda. Por exemplo, alguem notou que o futuro do ethanol eh a exportacao e que os brasileiros la na rua vao subsidiar essa ‘exportacao’ com seu proprio suor, dinheiro, e terras?

  5. Comentou em 25/09/2007 Cério Santos

    “(…) Em se tratando de jornal a gente só acredita piamente na data…”. Mesmo assim, caro Sr. Orair, é sempre aconselhável conferir o calendário.

  6. Comentou em 25/09/2007 Ivo Aldo Auerbach

    Dineeeeeees, e o A Z E R E D O Dineeeeeeees !!!!!!!

  7. Comentou em 23/01/2007 ARLENE BORJA

    Estou colocando à venda uma coleção encadernada (2 volumes) do jornal
    REPORTER da imprensa alternativa dos anos 80 e gostaria de saber se você ou pessoas de seu relacionamento, estariam interessados em
    adquirí-la.
    Estas publicações são um documento histórico e um registro verdadeiro do que aconteceu durante a ditadura militar
    – com
    perfis e nomes de políticos, muitos que ainda estão na ativa.
    Peço que este e-mail circule entre os seus conhecidos, e
    se
    houver interesse, entrem em contato comigo pelo e-mail:
    arleneborja@clubesafobrasil.com

    Grata pela atenção,
    Arlene Borja

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