Quinta-feira, 05 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Propaganda militar no Iraque ignorada pela população

09/06/2009 na edição 541

Nas páginas da publicação em árabe Baghdad Now (Bagdá Agora, tradução livre), soldados e policiais iraquianos têm orgulho do que fazem, combatendo criminosos e retirando armas das ruas; todos os civis iraquianos trabalham em união; o governo iraquiano delibera normalmente; o editorial elogia a democracia; as páginas de moda mostram as últimas tendências em Beirute e no Kuait. No jornal, pouco se fala dos 130 mil soldados americanos que ainda estão no Iraque. Nele, não há expediente, tampouco matérias assinadas. Isto porque a publicação faz parte da campanha psicológica dos EUA para influenciar as atitudes e comportamentos dos iraquianos. O jornal é distribuído gratuitamente por soldados e deixado em lugares estratégicos para que transeuntes o peguem.


Tal investimento, no entanto, parece não ter efeito, segundo opina Ziyad al-Aajeely, diretor da organização iraquiana sem fins lucrativos Observatório da Liberdade Jornalística. ‘Os milhões gastos são dinheiro perdido. Ninguém lê isto’, revela. O exército e empresas terceirizadas dos EUA gastaram, ao longo dos últimos seis anos, milhões de dólares em outdoors, panfletos, tempo em rádio e TV iraquianas, na tentativa de melhorar a imagem do exército americano, promover a democracia e combater extremistas.


Sem personalidade


Algumas campanhas foram destinadas a encorajar iraquianos a não apoiar grupos insurgentes e a cooperar com as forças de segurança do Iraque e dos EUA. Outras tiveram outros temas, como valores democráticos e orgulho nacional. Um anúncio lançado este ano mostrou iraquianos de diferentes regiões listando o que os unia, sob as palavras ‘Apesar das diferenças, o Iraque nos une’. Após pesquisa, a grande maioria dos iraquianos entrevistados considerou o anúncio ineficiente. De acordo com As´ad AbuKhalil, professor de ciência política na Universidade da Califórnia, as campanhas são ridicularizadas no mundo árabe. ‘Elas têm um tom sem personalidade. O árabe usado é estranho, parece muitas vezes uma tradução automática do inglês. Os anúncios mostram ainda os iraquianos como ocidentais’, opina.


Em um país no qual nada funciona perfeitamente, as forças de segurança têm reputação duvidosa e as tensões sectárias ainda permanecem, muitos iraquianos são descrentes na enxurrada de propaganda que eles sabem ou presumem ser do governo americano. Oficiais do exército não querem dar entrevistas sobre a evolução ou eficiência de iniciativas como esta no Iraque. Recentemente, Richard C. Holbrooke, enviado especial do presidente Barack Obama para o Afeganistão e Paquistão, contou a legisladores que a administração está desenvolvendo um plano estratégico de comunicação para a região. ‘O plano – que incluirá mídia eletrônica, TV e rádio – irá focar em como melhor combater a propaganda usada na campanha de terror da insurgência’, afirmou Holbrooke para o Comitê de Relações Exteriores do Senado. Grupos insurgentes xiitas e sunitas postam regularmente vídeos críticos à presença de tropas americanas no Iraque.


Iniciativa polêmica


Em 2004, recuperando-se do escândalo de abusos de prisioneiros em Abu Ghraib e lutando contra a insurgência, o exército americano contratou empresas de relações públicas para melhorar sua imagem. Uma delas, Lincoln Group, foi criticada em 2005 (ver aqui) por ter pago a jornais iraquianos para publicar matérias escritas por oficiais militares, como se fossem produzidas por iraquianos. Informações de Ernesto Londoño [Washington Post, 7/6/09].

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