Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > IGNORÂNCIA POLÍTICA

Quando a mídia ajuda a desinformar

Por Muniz Sodré em 24/04/2006 na edição 378

‘Ignorância política’ foi o diagnóstico feito por Gilberto Dimenstein na Folha de S.Paulo (16/4/2006) a propósito do desconhecimento da vida pública por parte dos brasileiros, detectado em pesquisas recentes. Dois exemplos:

1. ‘Apenas 16% dos eleitores recordam-se do mensalão, um tema que não sai do noticiário desde o final de junho de 2005;

2. ‘Apenas 20% dos brasileiros, segundo pesquisa CNT/Sensus, conhecem a norma da verticalização (…) fundamental para entender as chances dos candidatos a presidente e governador’.

O jornalista tem razão, trata-se mesmo de ignorância política, principalmente quando se leva em conta a melhoria da taxa de escolaridade nos últimos 20 anos, assim como o fato de que direitos políticos e eleições livres fazem hoje parte da rotina social. Vale acrescentar a estas ponderações outras, constantemente dadas à luz por analistas europeus: as massas deixaram de prestar atenção à política, a não ser em suas formas delituosas – e mesmo assim, em índices reduzidos, como bem atestam os 16% que se lembram do mensalão.

A questão não pára aí, porém. O filósofo francês Alain Badiou – que, aliás, conhece razoavelmente bem a situação política brasileira – introduz a variável do ‘afeto público’ na análise do fenômeno político. Levando-se em conta o estado emocional das massas é, para Badiou, simplesmente falso que o voto seja a expressão da liberdade das opiniões. O voto, na realidade, seria sufocado pelo que ele chama de ‘princípio do homogêneo’, isto é, todo mundo pode ser candidato, mas só podem chegar aos lugares ‘precodificados’ do poder possível aqueles que se encaixam, homogenicamente, em uma norma determinada. Em termos mais claros, ocupam os postos do ‘poder possível’ (a margem de mando político permitida pelo poder econômico) aqueles que não vão fazer nada essencialmente diferente de seus antecessores.

Manifesto de paixão

O ‘princípio do homogêneo’ garantiria o conservadorismo do voto. Isto bem se traduz na frase do político francês Alain Peyrefitte dirigida aos socialistas e comunistas, em 1981: ‘Vocês foram eleitos para mudar o governo, e não para mudar a sociedade’.

O exemplo pode ser francês, mas o princípio é global. Até um certo limite, direita e esquerda podem ser homogêneas ao sistema jurídico-parlamentar, o que faz da alternância político-partidária no poder uma mera estratégia espontânea de conservação do sistema tal e qual se apresenta. Entre a alternância do entusiasmo e da rejeição, o afeto público balança como uma gangorra e, para se defender das violentas emoções, é capaz de bloquear a atenção e a memória coletivas.

Esta é, claro, apenas uma interpretação, entre outras também possíveis, para o fenômeno da desafeição da política. Contra isto, nada tem conseguido fazer a imprensa – à qual Hipólito da Costa, nosso primeiro jornalista, atribuía a função de instruir politicamente o povo.

A nossa imprensa arrisca-se a perder o horizonte cívico em meio ao excesso de detalhes negativistas do real. O jornal de cada dia está-se convertendo num manifesto de paixão à celebridade, seja a incensada, seja a desprezada. A fama é a ponte entre o bem e o mal, a cada dia atravessada industrialmente pela mídia. Numa conjuntura dessas, o que em política pode haver de positivo e de heterogêneo deixa de interessar e, certamente, de formar espírito público.

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Jornalista, escrito, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/05/2006 Jasér Santos

    Eu não diria que seja uma ignorância política e sim, uma sabedoria política. A imprensa brasileira simplesmente está subestimando isso. Acho que está até surpresa com a postura que a maioria tomou diante das notícias divulgadas fartamente pela mídia em geral. Coisas que o povo está careca de saber como por exemplo o tais esquemas de caixa 2. A diferença de outros governos está aí. Neste também existiu problemas de corrupção mas, quase todos, ou se não, os mais poderosos foram de alguma maneira punidos. E muitos deles estão sendo investigados pela polícia. Nada mais justo. Deveríamos estar comemorando a nossa democracia que é a essência para se chegar aos corruptos e corruptores de qualquer país ou governo… Enquanto que, em alguns outros governos, os mais recentes, de preferência, que insinuam ter tido menos corrupção (logicamente por ter menos possibilidade de investigação o que muitos gostam de definir isso como um governo forte, de base sólida), ninguém ao menos foi investigado. Essas questões desse tipo ninguém (ou quase ninguém) da imprensa ousou em analisar ou discutir. Acho que a hipocrisia é a arma do negócio hoje, por todos os lados…
    É como disse um outro francês: – esse não é um país sério. É a frase mais importante que já se falou sobre o Brasil. Tudo aqui tem que virar jargão, folclore, novela e etc… Por exemplo: O que é mensalão? Qual a novidade nisso aí a não ser o apelido?
    Ultimamente, uma parte da imprensa trata certos casos de corrupção como se estivesse descobrindo o Brasil ou discutindo um pênalti numa partida final de futebol (devem ser todos corintianos…), fantasiando fatos numa tentativa manipuladora, prejudicando até a própria investigação ou esclarecimento da verdade. Primeiro dão o veredicto, depois é só manter aquecida a condenação anunciada. Pois só com as fotos e manchetes de capa induz qualquer leitor a tomar posição sem a mínima possibilidade de reflexão e discernimento. Imaginem se não existiu alguém sonhando com um roteiro desses: Num processo de impedimento do presidente, o ACM dando o seu voto decisivo para a festa ser muito maior que a dança da deputada… Uma festa parecida com a da final da CPI dos Correios… Enfim, é uma avalanche de denúncias sem aprofundamentos que parecem mais o Mike Tayson, na sua melhor forma, querendo nocautear o adversário em segundos, sem chance de defesa ou reação. Só falta arrancarem pedaço de orelha com tanta pancadaria hipócrita que nos submetem a ouvir e ler diariamente.
    O povo brasileiro precisa é da verdade. E a verdade não está com a imprensa. Aliás, a função da imprensa não é ser a dona da verdade e sim, informar com equilíbrio e responsabilidade com o que cada fato exige, deixando a liberdade, que é de direito extremo, ao leitor ou telespectador de analisar e julgar com a sua consciência todo o ocorrido. O povo está dando um basta a opiniões partidaristas mesquinhas e emoções baratas só para vender mais revista ou jornal… Viva a democracia!

    PS.: Me perdoem, mas, além de democrata, sou palmeirense. Ou sou palmeirense por ser democrata…??

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