Terça-feira, 17 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Quando o ‘erramos’ pretende encobrir a fraude

Por Sylvia Moretzsohn em 28/04/2009 na edição 535

A controvérsia iniciada pela Folha de S.Paulo em 5 de abril, com a extensa matéria que vinculava a atual ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, ao planejamento do sequestro do então ministro Delfim Netto, em 1969, atingiu um novo patamar com o texto publicado sábado (25/4). O título, oblíquo, dissimula: ‘Autenticidade de ficha de Dilma não é provada’. Ali o jornal – em matéria enviada pela sucursal do Rio, e não produzida na sede – reconhece dois ‘erros’: o crédito, como ‘Arquivo [do] Dops’, dado à reprodução de um documento que, na verdade, fora enviado por e-mail à repórter, e o fato de haver tratado como autêntica uma ficha cuja origem não podia comprovar.

 

Este Observatório reagiu com agilidade à matéria, acusando no dia seguinte o ‘erramos envergonhado’ e afirmando: ‘Folha publicou ficha falsa de Dilma’. No entanto, errou, também, duplamente: primeiro, ao dizer que o jornal havia reconhecido ser ‘falsa’ a tal ficha; segundo, e mais importante, ao tratar como ‘erro’ algo que é evidentemente uma fraude. Delimitar com clareza a distinção entre uma coisa e outra é fundamental para uma crítica justa, dadas as implicações – jurídicas, inclusive – que cada uma dessas práticas importa.

 

As diferenças entre erro e fraude

 

Erro, como se sabe, é algo casual, involuntário, que ‘acontece’. Pode ser banal e irrelevante, pode ser grave, gravíssimo e produzir consequências catastróficas, pode resultar de incompetência ou de informações insuficientes, mas será sempre um acidente. É, como se costuma dizer, uma característica da espécie humana. No caso do jornalismo, o ritmo sempre acelerado de produção, aliado ao irracionalismo que domina a competitividade na era do ‘tempo real’, costumam ser a principal justificativa – quando não a desculpa – para os erros que se multiplicam no noticiário cotidiano. Foi um erro, por exemplo, o anúncio da queda do avião da Pantanal em São Paulo, em maio do ano passado; foi um erro assumir como verdadeira a denúncia da brasileira que teria sido torturada por skinheads na Suíça.

 

Não é o caso dessa história sobre a ficha da ministra: desde sempre, a Folha sabia da origem do documento e também sabia que não havia confirmado sua autenticidade. No entanto, vendeu-o como fidedigno e falseou a fonte. Não apenas no minúsculo ‘Arquivo Dops’ que aparece como crédito, mas no escancarado FICHA DE DILMA ROUSSEFF NO DOPS, menor apenas que o título da chamada de capa da edição de 5 de abril.

 

Obrigada a recuar, diante das investigações realizadas por iniciativa da própria Casa Civil, que demonstraram a inexistência daquele modelo de ficha no Arquivo Público de São Paulo, e da carta que a ministra escreveu ao ombudsman, a Folha optou pelo contorcionismo verbal – para não dizer ético – e acusou um singelo ‘erro técnico’ na classificação dos documentos utilizados para a reportagem, que teria originado a identificação equivocada da fonte.

 

É verossímil que uma reportagem que custou quatro meses de pesquisa – segundo artigo neste mesmo Observatório [‘Uma releitura da Folha e da fonte‘, em 8/4] – possa descurar de algo tão elementar como a catalogação correta daquela ficha?

 

Pérola de cinismo

 

Já muito se especulou sobre as intenções dessa reportagem. É muito óbvio que, se o jornal estivesse comprometido com o nobre propósito de zelar pela ‘memória da ditadura’, não teria qualquer motivo para explorar a figura da ministra: afinal, todas as informações sobre o planejamento do sequestro-que-não-houve foram dadas por Antonio Espinosa, o comandante militar da organização guerrilheira. Como argumentou o ombudsman em sua primeira crítica sobre a matéria, o correto seria utilizar como ilustração a ficha de Espinosa.

 

Mas quem conhece Espinosa?

 

Por outro lado, quem desconhece Dilma?

 

Então é muito óbvio: a título de ‘memória da ditadura’, o jornal alardeia, jogando com o tamanho das letras: ‘Grupo de DILMA planejou sequestro de DELFIM NETTO’. E ‘ilustra’ a chamada com a reprodução da tal ficha policial.

 

É óbvio demais: a publicação de fotos ou cópias de documentos só se justifica como comprovação de fatos. Por isso, precisam ser fidedignos. Porém a Folha decidiu publicar um documento cuja origem desconhece e que ‘está circulando há mais de um ano pela internet’. Entretanto, só nos diz isso agora, desculpando-se pelo ‘erro’, que nem foi tão grave assim: afinal, a autenticidade ‘não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada’.

 

Esta pérola de cinismo – esse cinismo que campeia nas redações e que exige de todos os que vivem ou passaram por essa experiência um estômago de avestruz para discutir a sério tais argumentos –, esta pérola de cinismo tem, no entanto, efeito oposto ao pretendido: só ajuda a escancarar a fraude, que induz o público a erro e o leva a duvidar do jornal que lê.

 

Testando hipóteses

 

Todo mundo sabe que o principal capital de um jornal é a sua credibilidade. Todo mundo sabe que vender gato por lebre é fraude. Nem se fale do ponto de vista ético, mas dos interesses mais comezinhos de sobrevivência, que orientam qualquer comerciante em seus cálculos. Por isso, o espanto: sabendo que seria inevitável a descoberta da fraude, como foi possível tamanha irresponsabilidade?

 

Talvez a resposta esteja na já famosa teoria do teste de hipóteses, como observaram aqui mesmo, em comentário, o professor Samuel Lima e, em seu blog, o jornalista Luiz Carlos Azenha: a Folha estaria apenas testando a hipótese da autenticidade do documento – bem de acordo, aliás, com outra hipótese, tão cara ao ‘jornalismo colaborativo’, de publicar primeiro e confirmar depois. De minha parte, sugiro outras duas. A primeira (da matéria original): a principal fonte implicada, uma ministra de Estado, não iria correr atrás da informação; a segunda (do atual ‘erramos’): o público é idiota.

 

Tão idiota que nem deve ter notado a ausência de um mísero registro desse ‘erramos’ na capa, como seria compatível com um mínimo critério de proporcionalidade. Tão idiota que pode, por isso mesmo, ser convencido de que a autorregulação é mesmo o melhor caminho para a garantia de uma imprensa livre, democrática e responsável. Tão idiota que não deve achar necessário o esclarecimento cabal desse escândalo.

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Jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)

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