Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO ECONÔMICO

Quanto vale o cabeça da Vale

Por Rolf Kuntz em 29/03/2011 na edição 635

Quanto vale a cabeça de Roger Agnelli, presidente da Vale, a segunda maior mineradora do mundo, maior exploradora de minério de ferro e maior empresa privada do Brasil? Segundo o Globo, pode valer ao Bradesco a renovação do contrato do Banco Postal, previsto para expirar em dezembro. Em dez anos, de acordo com a reportagem, o uso das agências dos Correios facilitou a abertura de mais de dez milhões de contas.


Essa explicação saiu na edição de domingo (27/3). No dia anterior, a manchete do jornal havia sido forte: ‘Bradesco cede a governo e aceita tirar Agnelli da Vale’. A rendição, segundo o texto, havia ocorrido no dia anterior, à tarde, numa reunião em São Paulo. ‘O Bradesco cedeu à ‘pressão massacrante’ do Palácio do Planalto’, noticiou o jornal, usando uma expressão atribuída a um dirigente do banco.


A vitória do governo nesse braço de ferro havia sido antecipada, na quinta e na sexta-feiras (24 e 25/3), em reportagens do Valor. Na primeira dessa mátérias, o acerto já havia ocorrido numa reunião entre o ministros da Fazenda Guido Mantega e o presidente do conselho de administração do banco, Lázaro Brandão. Segundo o Globo, o acordo só foi acertado na sexta-feira. 


Faltava definir o nome do sucessor de Roger Agnelli, mas o novo presidente deveria ser escolhido nos quadros da empresa, Também isso havia sido informado nos dias anteriores em outros jornais. A matéria do Globo destacou-se não só pela confirmação do acordo sobre Agnelli, mas também pela referência à ‘pressão massacrante’. A reportagem não deu outros detalhes, mas avançou em relação às demais coberturas pela menção explícita à pressão.


Pouca diferença


Os jornais vinham mencionando negociações entre o ministro da Fazenda e o representante do Bradesco, sem qualificar o estilo da conversa. Na edição de domingo, o Globo adicionou à história uma avaliação atribuída a um ministro. Ao ceder, teria dito essa fonte, o banco jogou certo porque o deixou o governo como seu devedor e reforçou sua posição de ‘parceiro preferencial e confiável’.


No último fim de semana de março, as matérias mais atraentes sobre a sucessão na Vale foram publicadas pelo Globo. O tentou levantar detalhes sobre as negociações entre o governo e o Bradesco e sobre os interesses do banco em relação ao governo. Dirigentes do Bradesco haviam resistido às investidas anteriores contra Roger Agnelli.


Desde o fim de 2008, na pior fase da crise, quando a empresa demitiu cerca de 1.300 empregados, o Palácio do Planalto vinha pressionando a direção da Vale. As pressões eram explicadas, também, pelo desejo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ver a empresa aumentar seu investimento em siderurgia.


Em 2009 e 2010 o jogo se tornou mais pesado e o presidente da República passou a trabalhar sem muito disfarce pela substituição de Agnelli. Sem dispor da maioria necessária para forçar a mudança na direção da empresa, o governo teve de tentar um entendimento com o Bradesco, outro grande acionista, mas sem sucesso até o ano passado.


Não estava claro, até há pouco tempo, se a presidente Dilma Rousseff retomaria as tentativas de influir na direção da Vale e na definição de sua política de investimentos. Ela tem procurado mostrar-se distante do assunto e, pelo menos até o último fim de semana, evitou falar a respeito da sucessão na empresa. Mas o primeiro contato do ministro da Fazenda com o banqueiro Lázaro Brandão virou notícia no Estado de S.Paulo e, a partir desse momento, o reinício do jogo tornou-se assunto público.


A manobra inicial do ministro Mantega foi considerada inábil no Palácio do Planalto, segundo se informou logo em seguida, mas ele continuou responsável pela negociação. A sucessão de Agnelli deverá ser decidida oficialmente na segunda quinzena de abril. Até lá, os jornais terão muitos detalhes para levantar. Nesta altura, não faz muita diferença a decisão da presidente Dilma Rousseff de se mostrar distante da questão.


A voz do mercado


O presidente do Banco Central (BC) Alexandre Tombini andou empenhado em desfazer a impressão, alardeada principalmente por economistas do mercado financeiro, de uma mudança no estilo e talvez nos objetivos da política monetária. A nova política, segundo os comentários, daria menor ênfase aos juros e seria mais tolerante à inflação no horizonte de um ano. Em poucos dias ele se encontrou, mais de uma vez, com analistas do setor financeiro, com empresários de outros setores e com a imprensa.


A leitura dos jornais não deixa dúvida: os jornalistas têm uma capacidade extraordinária de repetir as perguntas e de raciocinar segundo os padrões do ‘mercado’. Os mais velhos talvez ainda sem lembrem: num tempo remoto, inflação e política monetária eram discutidas como assuntos de interesse de todo mundo e não só do setor financeiro – ou desse tal ‘mercado’. Além disso, os velhotes ainda não muito estragados pelo tempo devem ter na memória os antigos instrumentos de política. Além da taxa de redesconto, o BC manipulava também o recolhimento compulsório e regulava a liquidez, no curtíssimo prazo, por meio de operações de mercado aberto.


Algumas velhas linhas de ação foram retomadas e agora são conhecidas como ‘medidas macroprudenciais’.

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