Sexta-feira, 24 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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ENTRE ASPAS >

Quarto Poder pediu demissão

Por Alberto Dines em 17/05/2011 na edição 642

Até recentemente quem estava nas manchetes da mídia impressa era a própria mídia impressa: ‘O jornalismo no papel vai acabar’, ‘Jornais estão condenados’ etc., etc., são títulos fake, obviamente inventados por este observador para retratar o clima funesto e apocalíptico que envolvia e envolve tudo o que se relaciona com a mídia impressa.


Acontece que nos últimos tempos o noticiário vem se encaminhado na direção contrária: quem está visivelmente atrapalhada é a vasta galáxia cibernética. E, apesar disso, nem os veículos impressos nem os digitais conseguem recolher, compactar, contextualizar e dimensionar a sucessão de acidentes numa análise serena e ordenada.


Em pouco menos de um mês tivemos os buracos na ‘nuvem’ da Amazon, a admissão do fracasso do jornal-tablete The Daily, depois o perturbador aviso da Sony de que as conexões do sistema Playstation foram manipuladas por hackers.


Agora são emitidas sérias advertências sobre a iminência de uma bolha causada pela irracionalidade da competição entre as empresas de TI. Campeia uma briga de foice entre os alucinados gigantes do setor. O mundo midiático jamais assistiu a um vale-tudo com estas proporções e intensidade.


Real e virtual


Entre as dramáticas revoluções ocorridas desde o fim do século 19 no campo da comunicação – pelo menos 10 – nenhuma foi tão drástica, surpreendente, trepidante e desnorteadora como a que estamos vivenciando, como agentes ou pacientes.


O grande problema é que este desvario está sendo informado de forma fragmentada, intermitente, insuficiente e disfarçada. A mídia digital não tem fôlego nem perspectiva para se autoanalisar enquanto a mídia tradicional encontra-se tão emasculada e autoaviltada que perdeu suas referências e a capacidade de enunciá-las.


‘Paramos as máquinas, amanhã estaremos no twitter’, proclama o ‘Cidadão Kane, Parte II’. A mídia impressa assumiu-se como moribunda quando anunciou o seu funeral como se fosse façanha. E, enquanto não some definitivamente, saracoteia travestida de internet fingindo-se wired, plugada. O virtual impõe-se ao real, tudo é símile e simulação.


Processo irrefreável


O espetáculo chamado progresso tem os comunicadores como protagonistas, mas não consegue se comunicar. Estamos vivendo uma hora estelar com a cabeça enfiada na areia e o bumbum apontado para a Via Láctea. Simplesmente porque os papeis estão trocados e truncados – vendedores de maquinetas imaginam-se filósofos e filósofos estão mesmerizados: preferem investir nas bolsas em vez de tomar a sua dose diária de cicuta.


É evidente que o processo digital não será revertido, nem freado. É evidente também que esta alucinação generalizada só interessa àqueles que cansaram de ser Quarto Poder.


 


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