Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > CRISE DA VARIG

Queda no vácuo

Por Alberto Dines em 17/04/2006 na edição 377

O piloto sentiu os golpes, vacilou e entrou numa arriscada área de turbulência. As metáforas saíram da inocente área futebolística e agora estão na perigosa esfera da aeronáutica: o relatório da CPI dos Correios e a denúncia do Procurador Geral da República abalaram os controles da aeronave palaciana e mesmo sem recorrer à caixa preta percebe-se a confusão na cabine de comando. A prova está na absoluta inépcia com que o governo conduz a crise na Varig.

Agarrados às simplificações ideológicas que os levaram ao abismo, alguns membros do primeiro escalão balbuciam uma esfarrapada desculpa que não fica bem em pessoas que sempre defenderam soluções intervencionistas e jamais aceitaram as soluções de mercado: ‘O dinheiro público não pode ser gasto para salvar uma empresa privada’.

Neófitos neste time, estes comissários indevidamente transformados em comandantes, ignoram o chamado efeito-dominó, a dinâmica que comanda o mundo dos negócios. Uma grande empresa mesmo em situação agônica tem potencial para contaminar todo o setor e ainda contagiar parte da economia.

Espetáculo doloroso

A Varig não é apenas uma empresa de transporte aéreo, é um dos pilares da indústria do turismo. Não é apenas um grande empregador, é um dínamo que movimenta o setor aéreo há mais de meio século. Depois do desastre da Panair foi uma das responsáveis pela integração deste país-continente.

Enquanto os marqueteiros chapa-branca tentavam enfiar uma réplica do chapéu de Santos Dumont na cabeça do sempre sorridente astronauta Marcos Pontes, os operadores do governo não conseguiam perceber que sua inoperância ajudava a derrubar um dos símbolos do nosso pioneirismo na navegação aérea.

Não se trata apenas do caso clássico do dinossauro que não conseguiu adaptar-se aos novos tempos. O setor como um todo ainda tem muito de jurássico. Enquanto a estatal Infraero, nem sempre conduzida por profissionais do ramo, dispõe de um poder excessivo, a ANAC levou quase quatro anos para sair do papel – só foi formalizada recentemente e dá mostras evidentes do seu despreparo para enfrentar a catástrofe anunciada.

O mesmo governo que agora adota uma fingida lealdade à livre iniciativa, desde o período da transição FHC-Lula procrastinava a criação da agência reguladora da aviação civil simplesmente porque não pretendia dar força a um instrumento capaz de opor-se ao aparelhamento partidário da máquina administrativa. Um organismo verdadeiramente autônomo e competente já teria evitado o doloroso espetáculo que o jornalista Luis Nassif designou muito apropriadamente como ‘a imolação da Varig’.

Piruetas deletérias

Nestes dias tão propícios à meditação, o governo deveria ao menos perceber que ‘o caso Varig’ transcende à Varig. Uma empresa-zumbi é capaz de criar um setor-zumbi, a Varig tem proporções para arrastar o segmento inteiro para o buraco e criar um enorme mal-estar na sociedade. O brasileiro aprendeu a voar e não apenas para divertir-se nas férias ou feriados. O negócio da aviação produziu profundas alterações na vida brasileira que já não podem ser revertidas.

O mercado, sozinho, não conseguirá substituir a empresa-ícone. As concorrentes – nacionais ou estrangeiras – terão muitas dificuldades para integrar as rotas abandonadas, atender à demanda crescente, honrar as passagens compradas e, sobretudo, quitar os compromissos com os cinco milhões de clientes do seu programa de milhagem. E se este compromisso for rasgado as conseqüências serão arrasadoras.

Os neo-neoliberais que agora estão com as mãos no manche precisam atentar para a importância da credibilidade no mundo das relações sociais. Os ‘Sem Passagem’ aliados aos ‘Sem Milhas’ e apoiados pela militância dos trabalhadores da Varig podem fazer enormes estragos nas próximas sondagens eleitorais.

Atarantados, desatentos ao radar, preocupados apenas com algumas piruetas deletérias, estes que agora pilotam o avião chamado Brasil o empurraram para um vácuo. No vácuo as quedas assustam.

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/04/2008 Romilson Marco dos Santos

    Estou divulgando minha pesquisa sobre o documentário proibido sobre a TV Globo que em 2008 completa 15 anos de sua proibição. Vou defender minha dissertação de mestrado na PUC-SP no programa de Comunicação e Semiótica, parte da pesquisa já foi apresentada na ESPM em São Paulo. SEgundo minha pesquisa um documentário tão importante e não há nenhuma pesquisa sobre o assunto por isso, estou em fase de divulgação, já que também tem muitos professores e alunos universitários que nunca ouviram falar em tal documentário.
    Aguardo retorno
    Prof. Romilson Marco

  2. Comentou em 18/04/2006 rolando rodrigues da silva

    Excelente editorial,fico pensando no partido trabalhista do lula e suas contradiçoes.Dinheiro público pro mensalão pode,tramóias do lulinha pode,colocar as raposas tomando conta do galinheiro também pode,mas salvar um empresa aérea que sinônimo do Brasil, não.É claro que o preço politico a ser pago vai ser bem alto.O preço social não importa.O único objetivo de lula pode era de provar que um nordestino também poderia ser presidente, o resto é balela.Quando o governo lula vem falar de economia esquece que o que temos aí foi fruto do Fernando Henrique, o partido dos trabalhadores não fez nada, apenas usufruiu o poder até cair em profunda desgraça.

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