Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Quem determina a parcialidade

Por The Economist em 04/11/2008 na edição 510

Recentemente, Barack Obama disse a um repórter do New York Times Magazine que estava convencido que poderia ter uma vantagem de mais dois ou três por cento nas intenções de voto para a eleição presidencial norte-americana se a Fox News – uma emissora com posições mais à direita – não existisse. Sarah Palin, a candidata a vice-presidente republicana, numa declaração atrapalhada, queixou-se da ‘mídia liberal’, segundo ela, tendenciosa. Alegações de matérias jornalísticas parciais são comuns na política norte-americana. Mas são poucas as pessoas que param para se perguntar o que contribui para a forma pela qual as notícias são relatadas.

A predisposição pode ser encarada como um fenômeno dissimulado que tem origem ideológica. As opiniões políticas dos donos ou dos empregados irão determinar como um jornal ou uma emissora interpreta sua cobertura de uma reportagem. Mas isso não significa assumir que os leitores e espectadores valorizem a exatidão. Se assim fosse, a competição iria atingir profundamente as agências de notícias, que distorcem sistematicamente a informação (em qualquer direção). O alvoroço sobre jornalismo tendencioso nos Estados Unidos – um mercado midiático tão livre quanto qualquer outro – sugere que algo mais está ocorrendo.

A medida da postura política

A chave para se compreender por que essa predisposição prospera num mercado competitivo pode estar numa reflexão mais clara sobre o que os leitores realmente querem. Sendhil Mullainathan e Andrei Shleifer, dois economistas de Harvard, sugeriram num artigo para um jornal influente (‘The Market for News’, American Economic Review, setembro de 2005), que pode ser ingênuo pensar que as pessoas se preocupam exclusivamente com a exatidão da informação. Ao invés disso, eles projetaram as conseqüências de pressupor que os leitores de jornal também gostam de ter suas convicções confirmadas pelo que lêem. Na medida em que os leitores têm convicções distintas, a projeção feita por Mullainathan-Shleifer sugere que a competitividade, ao invés de excluir o jornalismo tendencioso do mercado, incentivaria os jornais a suprir as predisposições de diferentes segmentos do público leitor.

Num documento mais recente, escrito por Matthew Gentzkow e Jesse Shapiro (‘What Drives Media Slant? Evidence from U.S. Daily Newspapers‘, maio de 2007), dois economistas da Faculdade de Administração da Universidade de Chicago, se propõem a testar essa proposta.

Para fazê-lo, eles precisavam, inicialmente, de uma forma de avaliar a postura política da cobertura jornalística norte-americana. A solução que encontraram foi bastante criativa. Os pesquisadores instalaram programas de computador que analisavam os debates no Congresso e identificavam frases que eram usadas de forma desproporcional por republicanos e democratas. A lista das frases mais freqüentes dos democratas incluía, por exemplo, ‘imposto sobre a propriedade’, enquanto, em relação ao mesmo assunto, os republicanos tendiam a usar a frase ‘imposto sobre a herança’.

(Isso não é apenas uma coincidência. Gentzkow e Shapiro citam um funcionário republicano anônimo que teria dito que a máquina do partido treinava os políticos a dizerem `imposto sobre a herança´ porque ‘`imposto sobre a propriedade´ soa como se atingisse apenas os ricos, ao passo que `imposto sobre a herança´ soa como se atingisse todo mundo’.)

Uma vez identificadas as frases ‘partidárias’, os pesquisadores analisaram, em seguida, a cobertura jornalística de mais de 400 jornais norte-americanos para ver a freqüência com que as frases surgiam nas matérias. Isso deu-lhes uma medida precisa da ‘postura política’, evidenciando até que ponto a cobertura jornalística tendia a usar frases de cunho político nesses jornais.

Maximização dos lucros

Em seguida, Gentzkow e Shapiro precisavam acessar as convicções políticas dos leitores de diferentes jornais, o que fizeram utilizando dados com a proporção de votos referente ao mercado de cada jornal que foi para o presidente Bush na eleição de 2004, assim como informações sobre a confiabilidade de pessoas em distintas partes do mercado contribuírem para entidades democratas ou republicanas. Agora, os pesquisadores tinham condições de avaliar as relações entre circulação, postura política e as opiniões políticas das pessoas.

Primeiramente, avaliaram se a circulação do jornal correspondia a uma identificação entre sua posição política e as opiniões dos leitores. Não por acaso, detectaram que um maior número de jornais ‘republicanos’ tinha uma circulação relativamente maior em endereços postais ‘republicanos’. Mas os cálculos que utilizaram para avaliar até que ponto a circulação correspondia às convicções políticas permitiram-lhes fazer uma coisa mais interessante: calcular até que ponto a posição política seria mais lucrativa para que cada jornal a adotasse, levando em conta o mercado político que cobria. Depois, compararam essa postura de maximização de lucro com a posição política real da cobertura de cada jornal.

Depararam com uma coincidência impressionante entre as duas coisas. A tendência dos jornais, de uma maneira geral, era de se situar nem à esquerda, nem à direita, do nível de parcialidade política que Gentzkow e Shapiro achavam que maximizaria seus lucros. E por bons motivos comerciais: sua fórmula demonstrou que mesmo um desvio insignificante desse nível de parcialidade ‘ideal’ prejudicaria os lucros através de uma perda de circulação substancial.

Pontos de vista distintos

Demonstrar que os jornais têm uma postura política que é economicamente racional não responde, necessariamente, à pergunta que questiona se são os donos ou a demanda que determinam a parcialidade. Aqui, os pesquisadores são ajudados pelo fato de que grandes empresas podem possuir vários jornais, muitas vezes em mercados politicamente muito distintos. Isso permitiu-lhes testar se as tendências de jornais com o mesmo dono correspondiam de maneira mais forte entre si do que aquelas de dois jornais escolhidos ao acaso. Descobriram que não era o caso: os proprietários exerciam uma influência insignificante sobre a parcialidade. A opinião política dos leitores representava cerca de um quinto do total de parcialidade avaliada, enquanto a do proprietário quase nada significava.

Nada disto é especificamente útil para quem procura a verdade nua e crua. Essas pessoas conscienciosas ainda terão que arrumar tempo para ler bastantes jornais até poderem ter um retrato não-tendencioso do mundo. Porém, na medida em que atende à demanda a partir de uma variedade de visões políticas, a competitividade permite que pontos de vista distintos sejam representados. Afinal, assim como Sarah Palin não passa seu tempo condenando a Fox News, Barack Obama dificilmente terá muito que reclamar do New York Times.

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