Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > CHARADA NOS JORNAIS

Quem é o verdadeiro Osmar Serraglio?

Por Alceu Nader em 30/01/2006 na edição 366

O noticiário de sexta-feira (27/1) trouxe a reprodução de um fenômeno não de todo raro nos jornais brasileiros: a divisão de uma única pessoa em duas ou mais entidades. No noticiário daquele dia, o indivíduo em questão é o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), relator da CPMI dos Correios, que se reproduz nos jornais com opiniões e declarações diferentes uma das outras, embora geneticamente seja um só e portador do mesmo RG.

A face múltipla do parlamentar começou a ser desenhada no início da semana passada, com a entrevista à revista Veja, na qual ele é todo coragem e destemor e nos dá a entender – voluntária ou involuntariamente – que incluirá o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, como ‘negligente’ no documento final sobre as investigações dos serviços prestados pela lavanderia do publicitário Marcos Valério para diversos partidos e campanhas. A citação direta do presidente como ‘negligente’ cairia como uma luva na argumentação da oposição que, em tese, poderia desdobrar o desmazelo presidencial em acusação de crime de responsabilidade – o que, em tese, levaria Lula direto para o paredão do impeachment.

Na segunda-feira (16/1), alguns jornais repetiram as declarações dadas pelo deputado à revista. Outros, como a Folha de S.Paulo, o entrevistaram novamente para arrancar do parlamentar a mesma palavra mágica sobre a ‘negligência’ presidencial – e conseguiram.

A língua-solta de Serraglio incomodou não só o Palácio do Planalto, mas também o presidente da CPMI dos Correios, senador Delcídio Amaral (PT-MS), não pelo que o relator disse ou deixou de dizer, mas pela antecipação de seu julgamento.

Para o senador, Serraglio ‘falou demais’. Falou tanto que, nos jornais de sexta-feira, Serraglio 1 contradisse Serraglio 2 e precisou da participação de Serraglio 3 para desmentir os dois primeiros.

‘Moderado e comedido’

A reprodução de Serraglios é comprovada na reprodução dos títulos abaixo:

** Folha de S.Paulo – reportagem de Fernanda Krakovics

‘Delcídio reclama de pressão; Serraglio diz que mantém decisão de citar Lula’

** O Estado de S.Paulo – reportagem de Vannildo Mendes

‘Pressionado, relator desiste de atacar Lula’

** O Globo – reportagem de Bernardo de La Pena e Adriana Vasconcelos

‘Serraglio: Lula será poupado no relatório da CPI’

Na reportagem da Folha, que dá a entender que o presidente da República será citado como ‘negligente’ no relatório, o parágrafo que inspira o título começa com a queixa (não confirmada) que o presidente da comissão teria feito a terceiros:

‘‘Tenho sofrido muita pressão por causa das posições avançadas do relator’, disse Delcídio, segundo parlamentares da oposição e aliados presentes no jantar, marcado para discutir o relatório final da CPI. Serraglio estava na mesa.

‘Apesar disso, o relator repetiu ontem que citará o presidente Lula em seu parecer. ‘Existem provas no processo de que o assunto foi levado ao presidente da República, tanto que ele teria pedido providências ao Aldo Rebelo [então ministro da Articulação Política]. Vou dizer que ele sabia do mensalão, mas ainda não sei o nível de informação que ele tinha’, afirmou Serraglio, para quem Lula foi ‘negligente’.’

Linhas abaixo, embora o título não deixe margem para dúvidas, a reportagem, precavidamente, abre a possibilidade outra versão:

‘Apesar de Serraglio ressaltar que não pretende responsabilizar o presidente, apenas ‘relatar’ que ele supostamente sabia da compra de apoio pelo governo, parlamentares do PSDB e do PFL afirmam que isso equivale a um crime de responsabilidade, porque Lula não teria tomado providências para coibir a prática.’

O problema é que o Serraglio que falou à Folha não parece ser o mesmo do Serraglio que aparece no O Estado de S.Paulo:

‘Acuado pela pressão dos governistas, o deputado Osmar Serraglio recuou da decisão de citar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ‘negligente’ no relatório que apresentará, em meados de março, sobre as denúncias de corrupção envolvendo o governo federal e sua base aliada. Ele disse que vai se limitar a relatar que Lula foi informado da existência do mensalão pelo ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ).

‘Ao contrário do que anunciou no início da semana, Serraglio afirmou ontem que não vai emitir juízo no relatório nem expressar qualquer convicção que abra espaço para processo de impeachment contra o presidente por crime de responsabilidade. ‘Ainda não cheguei a uma definição e não tenho como emitir juízo nesse sentido, embora tenha chegado muito próximo disso’, observou o relator, alertando que pode alterar sua posição até a entrega do parecer, caso surjam fatos novos’.

O Globo traz ainda, digamos, um terceiro perfil psiquíco-emocional traçado pela reportagem. O Serraglio 3, aqui, mostra-se mais responsável e ciente de obrigações e deveres que lhe cabem como parlamentar. Diz a reportagem:

‘Um dia depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrar do presidente da CPI dos Correios, Delcídio Amaral (PT-MS), que o relatório final da comissão não contenha exageros na citação de seu nome, o relator da CPI, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), disse que não há motivos para preocupação. Embora ressalve que não tomou conhecimento da conversa entre Lula e Delcídio, Serraglio afirmou que o relatório vai se limitar aos fatos conhecidos pela comissão.

‘O deputado frisou, porém, que pretende fazer referência ao depoimento do ex-deputado Roberto Jefferson no texto. Na ocasião, justificou, Jefferson disse ter informado ao presidente da existência do mensalão e que Lula teria ficado chocado.

‘– Tenho sido sempre muito moderado e comedido. Não há porque se ter preocupações e não há por que esperar de mim exageros. Vou me limitar aos fatos que são de conhecimento da CPI – disse Serraglio.’

Qual a que vale?

Após a leitura das três reportagens na íntegra, o leitor é que se vire para decifrar qual dos três Serraglio é o verdadeiro. Qual é o que vale? O destemido que vai citar o presidente como negligente? Ou o que diz não haver motivo para preocupações? Foi o deputado que mudou em cada uma das reportagens? Ou foram os jornais que adaptaram a disposição e o estado, digamos, psico-emocional do nobre deputado às suas conveniências?

Pelo menos duas respostas saem da comparação. A primeira, e mais evidente, é o ‘empurrãozinho’ que a Folha deu à suposta resistência do deputado no título. Exagerou no título, e na reportagem, com texto escorregadio e sinuoso, diz que não é bem assim, que a ‘citação’ pode virar ‘menção à suposição’. Um oceano divide as duas possibilidades.

O brioso deputado da Folha – ‘o relator repetiu ontem que citará o presidente Lula em seu parecer’ – no Estado mostra-se vencido pela pressão ao ser ‘acuado’ pela base governista.

O Globo traz um Serraglio mais equilibrado e acima de todas as pressões. Ele nos tranqüiliza com a garantia de que ‘o relatório vai se limitar aos fatos conhecidos pela comissão’.

Qual versão de Serraglio é a verdadeira? [Postado às 17:04 de 27/1/2004]

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Editor do blog Contrapauta

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/02/2006 Alexandre Carlos Aguiar

    Podemos estender a velha máxima, de que ‘de cabeça de político e bumbum de neném saem coisas inesperadas’ a alguns jornalistas e seus jornais, pois é crível que alguns enfunam velas ao sabor dos ventos.

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