Sábado, 25 de Fevereiro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº935

IMPRENSA EM QUESTãO > OI NA TV

Questão ambiental: a mídia no papel de tradutor

Por Claudio Savaget, Sérgio Abranches, Cristina Amorim em 10/02/2007 na edição 419

O Observatório da Imprensa na TV, exibido na terça-feira (6/2/2007) [leia aqui o editorial do programa], discutiu o papel da mídia na diminuição dos efeitos do aquecimento global, a partir da divulgação do relatório do IPCC que chamou a atenção de todo o mundo para a questão ambiental.


Participaram do programa, no Rio de Janeiro, o jornalista e diretor geral do Globo Ecologia, Claudio Savaget e o colunista do site O Eco, Sérgio Abranches. Em São Paulo, estiveram presentes a repórter Cristina Amorim, do O Estado de S.Paulo, e o editor da revista Astronomy Brasil, Ulisses Capozzoli.


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Sérgio Abranches falou sobre a importância do desenvolvimento econômico aliado à preservação ambiental. Trechos de sua intervenção:


** ‘É o primeiro desafio realmente global que o mundo enfrenta. É um desafio importante porque tem base científica e deixou de ser aquela questão apenas de defender a biodiversidade. A questão climática redefiniu o problema e mudou nosso olhar. Portanto, é preciso que tenhamos a cobertura da questão ambiental e que todos os jornalistas eduquem seu olhar para, no seu setor, encontrar o ângulo ambiental. Construção civil, energia, transporte, produto de consumo, tudo tem o motivo da questão climática. […] Quando muda o eixo da discussão, a Amazônia deixa de ser apenas árvore e biodiversidade. Hoje, ela tem que ser entendida como reguladora do clima. Significa que se nós levarmos a Amazônia para o seu limite, ela vai levar o nosso clima para o seu limite e vamos pagar um preço elevado. Qual o resultado? Pó e pobreza. Como já há vários exemplos na Amazônia […]. Quando eles se retiram da parte desmatada, que já não interessa mais, deixam pó e pobreza, mais desemprego e menos condição de vida para a população.’


** ‘A discussão do desenvolvimento tem que ser revista. Não sobre o nível de desenvolvimento, mas de que maneira vamos nos desenvolver daqui para frente. É preciso saber que há limites. Esses limites são biofísicos e estão postos diante da nossa vida. Precisamos encontrar novos padrões de produção, de uso de energia e de consumo de produtos que nos levem a uma economia de baixo carbono, ou seja, uma economia que emita muito menos carbono do que emitimos até agora’.


** ‘O imaginário brasileiro é de que a Amazônia é uma área enorme que as pessoas podem explorar, plantar, desmatar, fazer pecuária e que ela vai agüentar. Mas ela não vai agüentar. Não se pode parar o desenvolvimento da região, então temos que buscar um desenvolvimento que use sua biodiversidade, que use indústria da conservação, que use o potencial biotecnológico. Enfim, temos que redefinir o padrão de desenvolvimento da Amazônia, do Brasil e do capitalismo em geral’.


** ‘O Brasil é viciado em olhar para Brasília e dizer `o que Brasília vai fazer com relação a isso?´. Brasília não vai fazer nada se a sociedade brasileira não pedir que faça. Brasília reage lentamente com atraso às demandas sociais e o Brasil vive um momento de enorme complacência com todos os problemas porque parte do nosso problema ambiental, da destruição da Amazônia, por exemplo, tem a ver com o fato de que o poder público é omisso em todas as áreas: não faz respeitar a lei, há muita corrupção e nós temos tolerado o intolerável. Se pararmos de tolerar e demandarmos mais seriedade, mais aplicação das leis, vamos poder desenvolver’.


** ‘A mídia pode fazer o papel do tradutor. Ela pode dar cultura científica, traduzir as soluções científicas e as econômicas numa linguagem que a população entenda e consiga introduzir no seu cotidiano. É preciso que todas as editorias lancem esse olhar sobre as matérias e mostrem para o leitor ou para o ouvinte como fazer’.


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Cristina Amorim sugeriu manter a questão ambiental numa pauta permanente:


** ‘A questão é permear esse assunto por todas as editorias. Não é dar uma manchete ou uma chamada na capa e, sim, inserir esse assunto dentro das redações, em todos os repórteres, em todas as editorias, em toda cúpula do jornal […]. Assim, como todo mundo que leu o jornal, no sábado (3/2), ficou assustado e percebeu que o problema era muito maior do que imaginava, dentro das redações também houve esse impacto e a tendência é que esse impacto ressoe daqui para frente. Quem cobre economia e relações internacionais, por exemplo, sabe que a sustentabilidade, a busca por novos modelos econômicos, é uma pauta diária. A tendência é só aumentar. Então, mais do que uma editoria fortalecida, o próprio jornalismo ambiental sai fortalecido uma vez que ele expande os seus limites. Deixamos de fazer uma página, de fazer um especial, para servir como referência. Esse é o caminho’.


** ‘Esse relatório do IPCC mostrou claramente que o problema é muito grave, que deve ser tratado com muita seriedade e, sendo assim, os jornais não deram espaço e a força necessária para esse assunto. Mas eu vejo com bons olhos as mudanças graduais que têm ocorrido de algum tempo para cá. Na primeira conferência que fui, em 2004, falar sobre aquecimento global era quase uma aventura e, em pouco mais de dois anos, as pessoas incorporaram esse assunto no seu dia-a-dia. Antes, vender uma pauta era, praticamente, ter que dar uma aula. Hoje, elas já sabem do que eu estou falando. Suficiente não é ainda, mas eu acredito que essa cobertura vai aumentar e permear todas as editorias.’


A partir da sua experiência como repórter, Cristina referiu-se à substituição dos combustíveis fósseis pelo biocombustível:


** ‘Os combustíveis fósseis, que são a base do modelo econômico praticado em todo o mundo, principalmente petróleo e carvão, precisam ser deixados de lado o mais rápido possível. As opções alternativas sustentáveis estão ainda muito incipientes, não são capazes de substituir totalmente, por diversos motivos econômicos, políticos e tecnológicos. Temos como alternativa a energia nuclear […] e os biocombustíveis. No Brasil, temos o modelo de biocombustíveis muito bem desenvolvido. Ao longo de duas décadas de existência, sofreu altos e baixos mas hoje está bem fortalecido, com um investimento alto em tecnologia e em pesquisa. Temos países, como os EUA, que precisam investir nisso, conforme o presidente Bush disse em seu último pronunciamento à nação’.


** ‘Nós temos o Brasil nesse momento de vanguarda e será preciso decidir se vai investir pesado para se tornar um grande produtor mundial e se isso ameaça suas florestas. Ou se vamos começar a exportar tecnologia, que pode ser um caminho também. A questão é colocar tudo na mesa do debate e fazer as escolhas certas, considerando todos os pontos, seja do relatório do IPCC, seja do relatório do PIB.’


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Claudio Savaget sublinou a importância de pequenas ações:


** ‘No dia-a-dia das pessoas pode-se fazer muito, mostrando e procurando onde estão as pessoas que fazem. Tem muita gente fazendo coisas bacanas: ações individuais, coletivas, associações de moradores. Eles estão se virando e, de uma certa forma, contribuindo mesmo em vários níveis. E isso foi uma experiência que estamos mostrando no Globo Ecologia. Os exemplos do homem comum e da comunidade são muito importantes. A gente não pode abrir mão de ninguém.’


** ‘Tudo vai virar um canavial gigante, uma grande cultura de soja ou mamona. Isso é um delírio. James Lovelock, o homem que formulou a teoria de Gaia, hoje é absolutamente a favor da energia nuclear. Não se pode queimar mais carbono […]. A matriz energética do Brasil é predominantemente hidroelétrica. Mas incentivar leilões de compra de energia a gás? Expandir a fronteira agrícola para plantar cana? É uma insânia. […] A energia eólica no Brasil ainda é muito incipiente. Algumas experiências no Nordeste, onde a gente tem ventos bem constantes e de grande velocidade, podem ser mais bem aproveitadas.’


** ‘Tudo o que a gente faz, na verdade, está aquecendo o planeta, infelizmente, de uma forma ou de outra. […] E isso vai ter impactos seriíssimos em tudo: na saúde, na agricultura, na economia. Energias alternativas e pesquisa são importantíssimas e precisa se pressionar muito mesmo para se conseguir.’


** ‘A mídia tem mesmo que influir muito, tem que falar muito sobre isso. Tem que se lembrar sempre que esse planeta, em milhões de anos, já passou por algumas extinções muito fortes, causadas pelo aquecimento global e meteoros. Dessa vez, nós somos o meteoro, temos que imaginar isso. E será que a gente vai estar lá para ver? Acho que é importante lembrar isso. Não é ser catastrofista. As coisas são muito piores do que nos anos 1980. E ouvindo as pessoas, a gente pode reverter a situação.’


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Ulisses Capozzoli comentou o papel da imprensa nessa questão:


** ‘O jornal tem que mudar completamente sua cobertura. Nós precisamos de inteligibilidade possível para esse assunto. Não basta os jornais publicarem matérias. É preciso enfrentar essa questão como um desafio inédito e, sem dúvida, seria muito importante que os jornais tivessem um caderno de ciência onde esse assunto pudesse ser desdobrado mais exaustivamente. É preciso fazer uma convocação de toda a sociedade, quer dizer, cada cidadão pode e deve dar sua contribuição. […] O que falta na mídia, fundamentalmente, é uma idéia de processo. A mídia sempre enfoca coisas como acontecimentos isolados. […] Os jornais, por falta de reflexão interna, por falta de usinagem, pela busca aos fatos, não se preocupam com essa questão estratégica.’


** ‘Se as pessoas não entenderem claramente o que está acontecendo, e é possível explicar isso para as pessoas, ou nós vamos ter desespero e oportunistas e fundamentalistas religiosos explorando isso, ou vamos ser incapazes de criar alguma coisa que, ao menos, minimize esse efeito e que a gente possa ter tratamento ao longo do tempo. […] Isso deve fazer com que as redações abram os olhos, tirem a preocupação em cima de futilidades e enfoquem aquilo que é de fundamental importância.’


** ‘No Brasil não temos tradição em ciência. Eu penso que esse tipo de desafio traz a possibilidade que se construa tudo isso e se faça uma revisão profunda e não se aceite, digamos assim, colocações definitivas. Dentro da imprensa, de modo geral, é preciso repensar profundamente, entre outras coisas, por que a imprensa, principalmente a escrita, enfrenta uma crise absolutamente inédita. A imprensa escrita precisa encontrar um caminho de reação ao efeito, à chegada, à influência da internet. Nós precisamos fazer jornalismo interpretativo, jornalismo que contextualize historicamente os acontecimentos. E nós, nesse momento, chegamos extremamente atrasados. Nós perdemos um tempo enorme em discussões não-relevantes. É preciso rever valores capitalistas, essa idéia do consumismo, onde pessoas vão substituindo as coisas, […] é tudo uma indústria de consumo que está atrás disso e que é uma sugadora de energia, tem impactos ambientais enormes nessas questões. As pessoas precisam entender que chegou um ponto em que a população faz pressão em cima do planeta, com recursos limitados, que precisam ser revistos e compreendidos para garantir a nossa sobrevivência.’


** ‘Vou discordar um pouco sobre a capacidade da mídia de reverter a situação. Eu tenho minhas dúvidas. Acho que a Cristina tem razão quando fala que a mídia é um espelho da sociedade, mas é uma comparação relativa. Os jornalistas têm como obrigação de ofício informar, com boa qualidade, a sociedade. O jornalista tem como função levantar informações, processá-las e alimentar a sociedade com boas informações.’

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