Terça-feira, 19 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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RBS inaugura novo jeito de noticiar

Por Fábio Carvalho em 27/03/2007 na edição 426

Yeda Crusius, que se elegeu governadora do Rio Grande do Sul prometendo um ‘jeito novo de governar’, acaba de anunciar atraso no pagamento de parte do funcionalismo público. Reportagem do jornal Zero Hora, o principal periódico gaúcho, afirma queo atraso é inevitável porque faltam entre R$ 45 milhões e R$ 60 milhões para custear a folha mensal de R$ 450 milhões’.

O editorial do dia 22 de março, além de endossar o discurso da inevitabilidade, vai além. ‘Age com absoluta transparência a governadora Yeda Crusius ao expor as dificuldades do Estado e o condicionamento que lhe impõe a Lei de Responsabilidade Fiscal. Parece não haver dúvidas de que o Executivo está fazendo a sua parte.’ Questionamento? Não, não tem. Os atrasos vão continuar até agosto, estima o governo.

Informação dificulta compreensão

No Jornal do Almoço, da TV Globo regional, um famoso comentarista observou a coragem da governadora e criticou a insensibilidade do governo federal ante os problemas de caixa do Estado. Estima-se, vale registrar, que o grupo RBS controle 80% do mercado de comunicação do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Não há, no país, tanta concentração e tanta propriedade cruzada que sejam dignas de comparação.

Na campanha eleitoral, o programa de governo da tucana afirmava que não havia espaço para aumento de impostos. Ela mudou de idéia depois do resultado das urnas. Antes de assumir, no final de dezembro, tentou reeditar o tarifaço implementado pelo antecessor, Germano Rigotto (PMDB), cujo vice era tucano. Yeda quis prorrogar o aumento de ICMS na luz, telefone e combustíveis. Sua proposta foi derrotada – com a ajuda de seu próprio vice, Paulo Feijó (PFL).

Pois no dia 23 de março a tucana apresenta exatamente essa justificativa em outra reportagem de ZH, que repercute o atraso no pagamento de salários. ‘A total incapacidade do Estado de honrar a folha de pagamento se dá por razões que a gente tentou explicar com os projetos enviados à Assembléia Legislativa, no guarda-chuva que criava os fundos estruturantes (leia-se: o tarifaço). Quem sabe, muita informação possa ter dificultado a compreensão. O que a gente queria era evitar isso’, diz a governadora. Questionamento? Não, não tem.

Imprensa ignora matemática

O noticiário de ZH mirou a segurança pública nos dois primeiros meses do governo Yeda Crusius. Foram sucessivas manchetes destacando ações de segurança – enquanto vários assassinatos viraram pequenas notas. A partir da fábrica de números da estatística criminal – o jornal não ousa questionar de verdade –, a governadora e o secretário Ênio Bacci concedem coletiva para comemorar a ‘nova política de segurança pública’ que faz cair indicadores de criminalidade.

É incrível. Contando ninguém acredita. No carnaval, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) anunciou queda de 34% nos registros de homicídio. A imprensa, ressalvadas as honrosas exceções que confirmam a regra, reproduziu os tais 23 registros de assassinatos oficialmente vendidos. Contei cadáveres pelas páginas de jornais gaúchos. Somando 1 + 1, encontrei 28 corpos durante os dias de folia. Como explicar o erro de 21%?

Presos não estão nos presídios

Tentei mais informações junto à assessoria da SSP (sou assessor de imprensa de um sindicato de agentes policiais). Seguindo orientações, fui encaminhado ao serviço de comunicação da Polícia Militar (PM-5). Algumas ponderações foram feitas por um interlocutor da PM-5. Identifiquei-me e pedi a lista de nomes das vítimas de homicídio para conferência. A informação me foi negada.

A morte do carioca João Hélio foi manchete de ZH. Sua morte repercutiu na capa do jornal até o dia 28 de fevereiro. Mas a violência parece confinada ao Rio de Janeiro – aqui, ela cai, dizem Yeda, Bacci e ZH. Na primeira madrugada de carnaval, Kamila, 12 anos, foi violentada e assassinada em Porto Alegre. Na quarta-feira de cinzas, Michele, 10 anos, foi esfaqueada em Carazinho, no interior do estado. Infanticídios bárbaros merecem capa? Ambos ficaram nas páginas internas de ZH.

No dia 26 de fevereiro, manchete de ZH afirma que foram efetuadas ‘8,7 mil prisões’ desde o início de 2007. No Rio Grande do Sul, ao contrário do restante do país, felizmente não existem presos nas delegacias. A Superintendência de Serviços Penitenciários (Susepe), responsável pela tutela, não acusa a entrada desse significativo contingente nos presídios. Questionamento? Não, não tem.

Aprovados aguardam posse

Não há sequer explicação para o suposto fato de se ‘prender’, em dois meses, o equivalente a um terço da atual população carcerária, que gira hoje em torno de 24 mil pessoas. Está em 8 mil o déficit de vagas estimado pela Associação dos Monitores, Agentes e Auxiliares Penitenciários (Amapergs). ZH não diz onde foram parar mais de 8 mil presos. Questionamento? Não, também não tem.

Aliás, dirigentes da Amapergs estão em praça pública, cobrando lotação e posse de agentes aprovados em concurso público. Existem cerca de 2,2 mil servidores ativos no Rio Grande do Sul. O protesto deles não tem destaque em ZH, que também não questiona o governo sobre a razão de tanta demora, posto que o efetivo de servidores da Susepe é baixo. Deve ser o novo jeito de noticiar.

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Jornalista, Porto Alegre, RS

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