Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Receita para evitar boas notícias

Por Luciano Martins Costa em 27/01/2009 na edição 522

Durante boa parte da segunda-feira (26/1), um dos principais destaques nos serviços informativos pela internet era a notícia de que, apesar da crise financeira global, o investimento estrangeiro direto no Brasil havia alcançado a cifra de 45 bilhões de dólares em 2008. Era o maior volume de ingresso de capital estrangeiro para investimento produtivo ou aquisição de empresas no país desde 1947. Era não apenas um número surpreendente pelo volume de recursos, mas também por contrariar as expectativas dos analistas consultados pelos jornais.


No ano passado, desde as primeiras manifestações da crise, as multinacionais instaladas no Brasil aproveitaram os altos lucros obtidos por aqui e transferiram quase 34 bilhões de dólares para tentar melhorar as contas de suas matrizes e subsidiárias em outros países.


Nessa ocasião, os jornais brasileiros fizeram barulho, anunciando que o estoque brasileiro de divisas estava sangrando, quando na verdade tratava-se do movimento cíclico de repatriação de lucros, ainda mais natural por causa das dificuldades geradas pela crise.


Essa é uma das razões para a surpresa: os analistas prediletos dos jornais achavam que, com o agravamento da crise financeira, a remessa de lucros e dividendos para o exterior iria aumentar. Mas quando se esperava a má notícia, ocorreu o contrário, com um detalhe curioso: quase metade dos investimentos estrangeiros no Brasil aconteceu depois de setembro, quando estourou a chamada bolha imobiliária nos Estados Unidos e o mundo se deu conta do desastre financeiro em que estava metido.


Segundo plano


Essa era a notícia econômica que predominava na tarde de segunda-feira (26) na internet. Mas essa não foi a notícia escolhida para a manchete da maioria dos jornais de terça (27).


Dos chamados grandes jornais brasileiros, apenas a Folha de S.Paulo colocou a boa notícia entre os principais destaques, ainda assim misturada a uma notícia sobre restrições a importações.


A maioria dos editores escolheu para manchete a pior notícia econômica disponível – a informação de que, na segunda-feira, empresas multinacionais anunciavam milhares de demissões pelo mundo afora. Os números variam conforme o jornal: para a Folha, foram 75 mil. Segundo o Estado de S.Paulo, foram 86 mil demissões. Para o Globo, foram 76 mil.


A boa notícia que era destaque na internet ficou em segundo plano no jornal de papel.


***


As interpretações da notícia


Há sempre alguma controvérsia sobre as escolhas dos editores entre as notícias de maior destaque, porque se acredita que a maioria dos leitores se deixa influenciar mais pelas manchetes do que pelos detalhes das reportagens.


Existe algum fundamento nessa teoria, embora o crescimento do número de pessoas que se informa preferencialmente pelos meios digitais esteja provavelmente reduzindo o poder de influência da mídia impressa.


Além disso, há quem diga que a influência sobre a opinião do público não ocorre diretamente pelo discurso objetivo do jornal ou revista, podendo acontecer até o contrário, ou seja, uma manchete pode produzir num grande número de leitores um efeito oposto ao que foi pretendido.


Mais importante, no entanto, é a manutenção de determinados temas em destaque, pois é isso que supostamente mantém o interesse do público. Por essa razão, é interessante observar como o Globo e a Folha de S.Paulo noticiaram a iniciativa do novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de fixar limites mais rigorosos para os veículos, para forçar a redução da emissão de gases do efeito-estufa.


Razões da troca


A meta anunciada pelo governo americano é diminuir as emissões em 40%, e as indústrias automobilísticas têm 18 meses para se adaptarem. O tema também freqüentou a conversa telefônica entre Obama e o presidente do Brasil, Lula da Silva. Segundo relatam os jornais, o presidente americano se mostrou interessado em fazer avançar a parceria com o Brasil sobre biocombustíveis, como parte da estratégia que o Globo chama de ‘agenda verde’.


O leitor atento há de constatar que essa notícia pode influenciar diretamente a disposição dos investidores estrangeiros com relação ao Brasil, a se confirmar o interesse de Obama pela indústria brasileira de etanol.


O noticiário dos jornais não costuma fazer essas correlações. Na internet, a tecnologia remete o leitor diretamente para os vários contextos em que determinado acontecimento pode ser analisado. Na imprensa de papel, ele depende do eventual interesse do editor em ampliar o leque de interpretações.


Talvez seja esta uma das razões pelas quais um grande número de leitores esteja trocando a imprensa tradicional pelas mídias digitais.

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/01/2009 Paulo Cezar Soares Soares

    Em primeiro lugar, parabéns pelo artigo. Felizmente ainda há profissionais que praticam um jornalismo não engajado.
    Existe uma cultura velada no nosso jornalismo, de excluir do noticiário as boas notícias, principalmente no campo político. A rigor, elogio não demonstra nenhum comprometimento com o elogiado. A questão é ter compromisso com a verdade, com a ética.
    Em relação à crise, como é comum nesses casos, existe uma precipitação de cunho apocalíptico por parte da classe empresarial brasileira. Eles aproveitam o momento para fazer modificações de cunho excludente, como demissões, por exemplo. e justificam todas as suas ações colocando a culpa na crise. Está ocorrendo em vários campos, precipitações totalmente desnessárias . Não há motivo para isso no Brasil.

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