Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > VENEZUELA

Rede Chávez de notícias

Por Luiz Egypto em 28/01/2010 na edição 574

Mais um quiproquó entre o presidente Hugo Chávez e a mídia venezuelana. Desta vez a truculência chavista emparedou seis emissoras de TV por assinatura, entre elas a RCTV, este um canal oposicionista cuja concessão em sinal aberto não foi renovada ano passado pelo governo – daí sua opção por transmitir via cabo.


A verdade é que não há inocentes nessa história. O debate está radicalizado, há mortes nas ruas, a Venezuela é hoje um país dividido.


A mídia oposicionista pega pesado, foi cúmplice de uma tentativa de golpe de Estado em 2002, e o governo, que não deixa barato, responde sempre uma oitava acima. Com maioria folgada no Parlamento, aprovou, em 2004, uma de Lei de Responsabilidade Social em Rádio e TV e nela embutiu, no final do ano passado, um decreto segundo o qual as emissoras a cabo passaram a submeter-se às mesmas regras daquela legislação.


E onde foi que o caldo entornou? As emissoras por assinatura que tiverem pelo menos 70% de sua produção de conteúdo nacional agora são obrigadas a formar as cadeias de radiodifusão convocadas pelo governo, no mais das vezes para transmitir discursos do presidente Chávez. Quem não obedecer está sujeito a penas de multa e ‘suspensão administrativa’. De acordo com a ONG Human Rights Watch, citada na quarta-feira (27/1) pela Folha de S.Paulo, em 2009 foram 141 discursos – um deles com 7 horas e 34 minutos de duração.


O que será?


A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) monitorou a formação dessas cadeias governamentais de radiodifusão e contou, em 2008, 154 episódios desse tipo, nos quais o presidente Chávez usou 190 horas de falação – o que equivale a oito dias inteiros de palavrório. Noves foras o programa semanal Alô Presidente, veiculado aos domingos pela VTV (Venezolana de Televisión), que, como a antiga e brasileiríssima Discoteca do Chacrinha, ‘só acaba quando termina’.


Registre-se: há quem goste dessas longas perorações. Registre-se também: agride o espírito democrático o apetite com que o presidente se lança ao projeto de controle absoluto do espaço midiático. Ano passado, segundo levantamento da RSF, Chávez fechou 34 veículos audiovisuais e confiscou 29 frequências de radiodifusão para distribuí-las em favor do ‘desenvolvimento de meios de comunicação comunitários’. Pelo menos uma delas, a da emissora AN Radio, foi atribuída à Assembléia Nacional da Venezuela.


Nos emissoras estatais, é o presidente no céu e Deus na terra, nesta ordem. O contraditório ali não existe. Nessa batida, o que será da Venezuela?


 


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Todos os comentários

  1. Comentou em 15/02/2011 Djair Carlos Carzola

    Sr. Adamo, sou proprietario de onibus que circula na zona leste da capital, pertenço a um grupo de oposição contra uma diretoria corrupta de uma empresa e tenho noticias reveladoras que ja encaminhamos ao ministerio público, mas a demora é muito grande e precisamos da ajuda de voces. Aguardo sua comunicação

  2. Comentou em 28/01/2010 Marcelo Ramos

    Pois é, Nélio, concordo com você. E agora, depois da Confecom, as mesmas pessoas que defendem essa ‘liberdade absoluta’ para mídia, ficam questionando ‘qual sociedade civil’ foi na Confecom. Essas pessoas parece que tem um filme na cabeça, e toda a vez que alguém junta, na mesma frase, ‘controle social’, ‘botar um limite’ e ‘mídia’, essas pessoas saem recitando o rosário: isso é coisa de ‘comunista’, isso é coisa de ‘regimes totalitários’ e por aí vai. Bem, o melhor que podemos fazer é pontuar a verdade, apesar de eu estar cansado de ser chamado de petista, de defensor de ‘comunista’. Não que os termos em si me ofendam, pelo menos não como essas pessoas gostariam que ofendesse. Mas o rotulamento dificulta uma discussão objetiva. É tudo baseado no ‘filme’ que as pessoas tem na cabeça.

  3. Comentou em 28/01/2010 Eduardo Lima de Medeiros

    Eu apoiava Hugo Chavez mas tenho que admitir que ele passou dos limites. O pior é que esta confusão na Venezuela vai alimentar as mentes insanas dos jornalistas da grande mídia brasileira para criticar ainda mais a Confecom e o decreto sobre direitos humanos.

  4. Comentou em 28/01/2010 Marcelo Ramos

    Ih, rapaz, a enquete do OI está empatada. Por que será? Na minha humilde opinião, a maioria dos frequentadores do OI tem o que chamo de opinião qualificada. Está relativamente bem informada sobre o que acontece na Venezuela. E sabe como se pode ver que a pessoa está bem informada? Quando não repete os termos usados pela mídia manipuladora. Termos como facínora, ditador, etc. apenas demonstram que quem repete são apenas papagaios da mídia nacional. Só falta dizer que ele também come criancinhas. Como muito bem observou o Luiz Egypto, não há inocentes nessa história. Os papagaios daqui deviam, ao menos, meditar sobre essa frase.

  5. Comentou em 28/01/2010 paulo santhos santhos

    O difícil é conviver com o oportunismo do PiG. Na hora de faturar comercialmente ou politicamente, o espectro eletromagnético é sua propriedade privada. Então deveria haver tantas rádios e canais de TV quanto açougues e botecos por aí. Aí não pode trata-se de uma concessão estatal e só ‘os homens bons da nação’ como diria o professor Hariowaldo, podem desfrutar. O ouvido e os olhos do povo é que se dane com as apelações comercias ( como casas baia, ricardo eletro e concessionárias) além de filmes e programas de de gosto duvidoso. Pior mesmo é o vaso comunicante que faz toda grande mída se comportar como ovelhinhas clonadas, comportando igualmente ao condenar os movimentos sociais, os governos não alinhados, defender os poderosos e recusar participar do debate nas conferencias. Ora deve ser um saco ouvir ou divulgar 8 horas de discurso do Chaves mas é este mesmo governo cumpre a obrigação legal de não permitir que em cada esquina da Venezuela não tenha um sistema de comunicação para avacalhar com a imprensa radiônica. Dura é a lei mas é a lei; e tem de ser cumprida. O governo tem a obrigação de
    realizá-la e não fazer vistas grossas como nosso próprio. Por que o PiG não distribui boa parte dos seus polpudos ganhos (com cerca de 10 horas diárias de comerciais e defesa dos capitalistas) aos pobres do mundo inteiro e sem dúvida aprovarão muitas leis que lhes interessa!

  6. Comentou em 28/01/2010 Moacir Moreira

    Os empresários da mídia sentem-se no direito de distorcer os fatos, difamar e caluniar pessoas de bem, impor a autocensura, estimular o preconceito entre tantas outras barbarides antijornalísticas, e ainda tem coragem de chamar essas práticas nocivas de liberdade de expressão. Que liberdade é essa, cara pálida?

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