Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Regras democráticas, uma grande pauta

Por Rolf Kuntz em 25/03/2008 na edição 478

A democracia brasileira continua a fracassar no teste do orçamento. Esta foi uma das principais notícias de março e é preciso dar um crédito à imprensa por esse trabalho. No ano passado, o Executivo federal usou 20 medidas provisórias (MPs) para abrir créditos extraordinários de 48,2 bilhões de reais, 10,4% das despesas previstas na lei orçamentária de 2007. A informação saiu no Estado de S. Paulo de sábado (22/3). O governo conseguiu ao mesmo tempo abusar das MPs, atropelando a Constituição, e manejar de forma arbitrária as verbas do Tesouro. No dia anterior, Sexta-feira Santa, a Folha de S. Paulo havia noticiado a inclusão, no orçamento de 2008, de emendas genéricas – também conhecidas como ‘rachadinhas’ – no valor de 900 milhões de reais.

Essas emendas, patrocinadas por bancadas de parlamentares, já eram proibidas por uma regra do próprio Congresso, mas esse detalhe foi ignorado na votação da proposta orçamentária. Emendas genéricas não especificam projetos. Na hora da aplicação, parlamentares de uma bancada estadual podem rachar o dinheiro (daí o apelido) para atender a suas clientelas.

‘Rachadinhas’ também facilitam a corrupção, como ocorreu, há alguns anos, no caso das ambulâncias superfaturadas. Reforçando a denúncia, a reportagem citou fontes da oposição e da base governista: segundo o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, e o vice-líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP-PR), aquelas emendas são mesmo genéricas e rachadinhas.

Os jornais têm dado atenção crescente a questões institucionais, em geral pouco discutidas no Brasil e ignoradas pela maior parte dos cidadãos. Assuntos como tramitação do orçamento, regras e diretrizes orçamentárias, usos e abusos de MPs vêm tendo maior importância que as tradicionais fofocas e trocas de farpas entre políticos. Detalhes complicados, mas politicamente importantes, são enfrentados e destrinchados em matérias substanciosas. Coberturas desse tipo traduzem a ordem constitucional em termos concretos e relevantes para os leitores.

A dúvida instrutiva

O tumulto nas bolsas de commodities – produtos como soja, milho, trigo, café e metais – tornou-se um desafio muito especial para os grandes jornais. O assunto era especialmente importante por ser o Brasil um grande fornecedor dessas mercadorias. Se o mercado afundasse, a crise chegaria ao país pelo canal do comércio exterior.

Até a metade de março, as cotações continuavam em alta e não havia sinal de reversão. Apesar da crise bancária e do esfriamento da economia americana, a procura de matérias-primas parecia sustentada, com firmeza, pela expansão da China e de outros emergentes. Então alguém acionou o alarme.

No domingo (16/3), Federal Reserve (Fed, o banco central americano) interveio para impedir a quebra do Bear Stearns, o quinto maior banco de investimentos dos Estados Unidos. A reação dos especuladores, liderados pelos grandes fundos, foi uma corrida às vendas, como se a ação emergencial do Fed fosse o aviso de uma catástrofe.

As cotações despencaram na segunda-feira (17), reagiram na terça e voltaram a cair nos dois dias seguintes, até os pregões se interromperem na Sexta-feira Santa. No começo da semana, parte do noticiário apontou o estouro de mais uma bolha. Algumas análises foram além disso: diante da perspectiva de uma crise maior nos Estados Unidos – e de um baque na demanda de matérias-primas –, investidores haviam decidido correr para os papéis do Tesouro americano. Mas teria começado, mesmo a grande reversão?

Perguntas e respostas

Os jornais mantiveram uma cobertura minuciosa das bolsas, mas seu desempenho foi melhor que isso. Era preciso tentar uma explicação, mas havia duas ou três versões para os fatos, algumas muito pessimistas, outras quase otimistas. Os editores mais prudentes preferiram não entrar em nenhuma das apostas.

Na quinta-feira (20/3), o índice do Commodities Research Bureau permanecia 6,4% acima do nível do início do ano. O desafio era saber se a queda dos dias anteriores indicava uma nova tendência ou se, ao longo de 2008, a demanda seria suficiente para manter cotações ainda elevadas e possivelmente superiores às do ano passado.

A melhor solução foi apresentar ao leitor os argumentos a favor de cada ponto de vista. Não se tratava, nesse caso, de ‘ouvir os dois lados’, mas simplesmente de fornecer a melhor informação – e melhor informação, nesse caso, era a diversidade dos argumentos.

A função do jornal, diziam alguns velhos editores, é publicar respostas, não perguntas. Mas de vez em quando – é preciso reconhecer – a melhor resposta é a dúvida, exposta com toda a honestidade.

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