Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > JORNAL NACIONAL

Renovado e o mesmo de sempre

Por Gustavo Barreto e Pedro Aguiar em 30/01/2006 na edição 366

Parece que, na segunda-feira 23/1, William Bonner voltou das férias com as energias (e ideologias) renovadas. Nas últimas edições do Jornal Nacional, o âncora-editor tem carregado na dramaticidade da locução e na ordem da edição das matérias. Nesta quinta-feira (26/1), ele e sua esposa-colega apresentaram, aos sorrisos, uma parceria entre uma orquestra e a bateria de uma escola de samba. A mesma tática de dramatização foi adotada e abandonada, há cerca de 8 anos, depois de um episódio em que Fátima apresentou o nome do jogador de futebol Sonny Anderson, então escalado para a seleção brasileira e, em seguida, Bonner soltou um sarcástico e ensaiado ‘Quem?!!’.

Mas as mudanças no telejornal começaram ainda nas férias do Casal 20 – ou melhor, Casal 20h15. Desde o início do ano, o noticiário do horário nobre da Rede Globo reformatou sua estrutura, apresentando um primeiro bloco inteiriço de 30 a 35 minutos sem intervalos. Matérias mais ‘quentes’ têm sido jogadas para o fim. Na segunda-feira passada, a CPI do mensalão foi ao ar no último bloco, enquanto uma reportagem-ensaio poético de Neide Duarte sobre o cenário urbano de São Paulo entrou no meio do ‘espelho’.

Tudo indica que as alterações foram feitas para segurar a audiência contra a ameaça do momento, a telenovela Prova de amor, da Record. No sábado 21/1, a Folha de S.Paulo noticiou uma estranha mudança repentina no Ibope. Na medição prévia feita na Grande São Paulo, na quarta 18, Prova de amor chegou a abrir quatro pontos de vantagem sobre o JN (25 a 21 pontos, às 20h30). No relatório com os dados consolidados, remetido pelo instituto às redes no dia seguinte, em nenhum minuto a Record vence a Globo, fato que provocou protestos da direção da Record. Nada foi anunciado sobre alterações na metodologia de medição.

Tons distintos

O que chama a atenção, porém, são os valores que continuam arraigados. Talvez nenhuma assessoria de imprensa de uma entidade sionista faria tão bem quanto o repórter Marcus Losekann, baseado em Jerusalém, para depreciar o resultado das primeiras eleições parlamentares nos Territórios Palestinos em 10 anos. Em vez de tratar o Hamas, partido político vitorioso nas urnas, como tal, o JN chama a matéria da seguinte forma: ‘O grupo Hamas, dos homens-bomba, surpreende e vence as eleições…’.

Na matéria sobre a Palestina, apesar das chamadas conservadoras, o JN efetivamente deu voz aos principais conceitos levantados pelo Hamas. Que são mais ou menos os seguintes: a resistência armada deve ser feita caso Israel continue nos atacando; e o processo de paz é uma falácia. Tudo evidentemente descontextualizado. Faltou relacionar o ‘mapa da paz’ unilateral israelense com os bantustões sul-africanos do século passado, imagem usada pelo Hamas em seus discursos. Ou bastaria mostrar o mapa da paz, incluindo aí a tentativa de Oslo (1993), como forma de demonstrar que ele simplesmente elimina qualquer avanço no processo de paz.

É interessante notar que a mesma notícia vai ao ar de maneiras distintas no Jornal Hoje (no ar durante o almoço), no Jornal Nacional (horário nobre) e no Jornal da Globo (último jornal da noite). O correspondente é o mesmo, mas o tom muda entre os três telejornais: enquanto JH e JN pintam o Hamas como ‘grupo terrorista’ e não um partido político, o JG tem lembrado que o radicalismo palestino foi fortalecido pelas políticas opressivas e violentas de Israel.

Esforço ‘homérico’

Diante deste quadro, algumas questões poderiam ser desenvolvidas. A primeira é que o direito à resistência em caso de ataques cruéis já obteve várias aprovações da ONU, no Conselho de Segurança e em outros âmbitos da organização multilateral. A segunda: se os ataques de Israel cessarem e nossas terras – aquelas roubadas unilateralmente em 1967, contra resoluções da ONU – forem devolvidas, pararemos com nossa resistência armada, avisam os radicais. A reportagem do JN chega a identificar levemente que a Autoridade Palestina é corrupta, algo que é de grande valor e com forte conteúdo de realidade. Uma outra questão é tentar entender por que o Hamas diz que o processo de paz é uma falácia.

Em um primeiro momento, poderia o telespectador supor que o grupo fosse contra o processo de paz e estivesse se retirando das negociações. Isso seria, digamos, pedagógico, porque em um segundo momento, com pouca pesquisa, ele veria que o Hamas sempre esteve aberto a negociações, incluindo aí os grupos mais radicais, e passaria a entender quem efetivamente vitima o processo de paz. A surpresa seria o aparecimento de pessoas detentoras de prêmios Nobel da paz como empecilhos fundamentais para as negociações.

Mas será que Homer Simpson (tal como Willian Bonner identifica carinhosamente parte de ‘seus’ telespectadores) entenderá o que são ‘ataques de Israel’? Ele terá que fazer um esforço ‘homérico’ (ou simpsoniano), porque sempre que o tema Israel/Palestina (re)aparece, vêm à mente imagens de israelenses chorando por conta de um atentado suicida, algo efetivamente terrível e cruel. E Bonner inteligentemente identifica essa imagem na expressão ‘Hamas, dos homens-bomba (…)’ (26/1/2006, expressão repetida duas vezes, nas chamadas antes dos intervalos). Mas não há imagens de helicópteros americanos guiados por pilotos israelenses destruindo aldeias palestinas desprotegidas. Quando há – e já houve, em diversos e isolados momentos, de maneira fragmentada –, o mundo cai na real, se mobiliza e Israel fica sob forte pressão, avançando assim o processo de paz efetivo.

Diferenças nada sutis

Aliás, os telespectadores que quiserem ampliar suas referências sobre o passado do conflito podem assistir a Munique, o polêmico último filme de Steven Spielberg, que estréia nesta sexta-feira, 27 de janeiro. A produção conta a história de como agentes israelenses gastaram milhões de dólares numa operação para assassinar dirigentes palestinos, nem todos ligados a atentados. Como Spielberg é uma fonte nada insuspeita, por ser judeu e hollywoodiano, fica difícil entender por que o adjetivo ‘terrorista’ é usado pelo JN para o Hamas, mas não para o Mossad. Talvez seja porque Homer Simpson não compreenderia esta associação. Mazel tov, William!

No mesmo dia, também foram perceptíveis as diferenças gritantes na cobertura entre os dois fóruns mundiais paralelos: o Econômico e o Social. Enquanto o VT de Marcos Uchôa em Davos ressalta o prestígio do evento, que contou com a participação de celebridades como Pelé e Brad Pitt, a matéria do enviado a Caracas, Alberto Gaspar, comenta que o FSM valoriza ‘mais discussão em si’ do que ‘resoluções e decisões’ – o que, obviamente, é de se esperar de um fórum. Aliás, o repórter optou por abrir seu texto citando a ‘polêmica’ sobre o custo de realização do evento, sem que o mesmo seja mencionado para a outra reunião, sediada em hotéis alpinos com teleféricos para estações de esqui.

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