Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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IMPRENSA EM QUESTãO > PRESSÕES & CONTRAPRESSÕES

Reportagens investigativas no interior de Minas

Por Fabiano Angélico em 27/04/2004 na edição 274

No último dia 30 de março, o Jornal Sul de Minas, de Varginha (MG), publicou uma pequena nota informando que uma série de reportagens iria investigar, a partir do dia seguinte, denúncias de corrupção no Fórum local. Na nota, nenhum nome era citado. Na manhã do mesmo dia, duas mulheres – a advogada Isabel Braga e a escrivã Ana Caldonazzo – foram à sede do jornal e perguntaram a um dos donos sobre o teor das matérias. A escrivã, segundo testemunhas, chorava bastante.

A primeira matéria (publicada dia 31 de março com o título ‘Desaparecimento de armas no fórum provoca denúncias’ e linha-fina ‘Advogada e ex-funcionária depõem na tarde de hoje’) informava que duas mulheres – a advogada Telma Nogueira e a servidora municipal Maria de Fátima Mendes – seriam ouvidas às 14h no Fórum local. Elas respondem por processo de falsa imputação de crime (acusar alguém sabendo que a pessoa é inocente). O Ministério Público propôs a ação contra as duas depois que um inquérito policial concluiu que houve interesse delas em prejudicar a escrivã Ana Caldonazzo e o policial civil Oliveira Ferreira dos Santos. O inquérito policial, instaurado em maio de 2002, apurava o furto de 14 armas de fogo que estavam guardadas na sala de arquivos do fórum local.

No interrogatório de 31 março, a advogada Telma Nogueira contou que, em novembro de 2002, a servidora Maria de Fátima a procurou e disse que sabia quem havia retirado as armas do Fórum. Maria de Fátima entregou à advogada um bilhete, que teria chegado acidentalmente às suas mãos. No bilhete – com o timbre ‘Serviço Público do Estado de Minas Gerais’ – , o texto era o seguinte:

‘Ana. Vai R$ 3.800. Não vai mais porque sujou. E as armas quando vai vir. Oliveira’.

Além disso, a servidora contou à advogada que tinha visto a escrivã Ana Caldozzo retirar as armas da sala de arquivos e colocá-las numa sacola preta. Depois de Telma Nogueira, a própria Maria de Fátima foi ouvida e repetiu toda a história. No dia seguinte (1º de abril), a matéria narrou o interrogatório e acrescentou declarações dadas ao repórter pela servidora (entre outras coisas, Maria de Fátima disse à reportagem que havia mudado de endereço quatro vezes nos últimos dois anos). Uma retranca com o título ‘outro lado’ trazia declaração de Ana Caldonazzo. Ela dizia que era inocente e acusava a advogada Telma Nogueira de ter forjado o bilhete.

Naquela semana, o vice-presidente da OAB/Varginha, Vitor Comunian, esteve na redação do Jornal Sul de Minas e disse que havia sido procurado por duas mulheres – Ana Caldonazzo e a advogada Isabel Braga – para que ele intercedesse junto ao jornal. ‘Eu disse a elas que não poderia fazer nada’, conta Comunian. O presidente da OAB/Varginha, Marco Antônio Salles, disse que também foi pressionado e até ameaçado.

Precisão

Na sexta-feira (2/4), o Jornal Sul de Minas publicou na íntegra um documento enviado ao jornal pela escrivã Ana Caldonazzo. O documento cita a Lei de Imprensa e lembra que um inquérito policial havia inocentado funcionários do Fórum. Na mesma edição do jornal, um texto preparado pela equipe de jornalismo noticiava que nova documentação havia chegado à Redação. No entanto, como não havia sido possível fazer uma apuração cuidadosa, decidiu-se pela publicação de novas informações na edição seguinte.

Assim foi feito. Na edição nº 4.239 (3 a 5 de abril), a matéria principal trazia informações que questionavam o inquérito policial realizado entre maio de 2002 e maio de 2003. Um dos pontos em que se apoiou a conclusão do inquérito foi a negativa no exame grafotécnico do policial civil Oliveira dos Santos. Pela comparação dos padrões gráficos do policial com a fotocópia do bilhete, o inquérito concluiu que Oliveira não era autor do bilhete. Entretanto, um documento do Instituto de Criminalística de Belo Horizonte informava que a fotocópia não era de boa qualidade e o exame grafotécnico só teria precisão se comparado com o bilhete original, que está na corregedoria, em Belo Horizonte, desde dezembro de 2002.

Na edição seguinte (6 de abril), nova matéria sobre o caso. O jornal entrevistou o policial Oliveira, que negou as informações apresentadas pela servidora Maria de Fátima Mendes.

Naquele dia, uma segunda-feira, Maria de Fátima contou ao repórter do Jornal Sul de Minas que uma pessoa teria a ameaçado num telefonema. Um homem teria dito que se ela continuasse a fornecer informações ao jornal, ela morreria.

‘Cuidado’

Na quarta-feira, 14/4) o Jornal Sul de Minas voltou a conversar com Maria de Fátima Mendes. Chegou à redação a informação de que o juiz-corregedor Wanderley Salgado de Paiva, do Tribunal de Justiça, havia estado em Varginha, ao lado do juiz-corregedor Octavio Boccalini, para investigar as denúncias no Fórum (além do assunto das armas, há outras duas denúncias envolvendo funcionários do Fórum).

A matéria – com título ‘Corregedor que apurou caso do fórum de Varginha está afastado’ e linha-fina ‘Bilhete sobre suposta venda ilegal de armas está na corregedoria há 1 ano e 4 meses; Perícias grafotécnicas ainda não foram realizadas na capital’ – conta que o corregedor Salgado de Paiva havia pedido afastamento, alegando motivos de saúde. O corregedor é suspeito de envolvimento no caso Fadel (Marco Túlio Fadel, delegado da Polícia Civil, acusado de uma série de crimes. O delegado ficou preso, em Belo Horizonte, entre outubro e fevereiro. No período, o Ministério Público gravou as conversas telefônicas de Fadel. Salgado de Paiva, que foi professor de Fadel, aparece várias vezes nas fitas).

Maria de Fátima Mendes disse que havia estado com Salgado de Paiva em Varginha e ele lhe dissera que cuidaria do caso do fórum de Varginha ‘com cuidado’.

Na manhã de 15/4, a advogada Isabel Braga telefonou para a colunista social do Jornal Sul de Minas, Isabel Gusmão. A advogada sugeriu que o jornal parasse com as reportagens porque a conseqüência poderia ser ruim. ‘Vocês estão mexendo com gente muito grande’, disse a advogada, de acordo com Isabel Gusmão.

O jornal decidiu, então, suspender as reportagens.

Blindagem

Em nenhum momento, o jornalista que escreve este texto – e que também redigiu todas as matérias sobre o caso do Fórum de Varginha – sofreu ameaças diretas. Adotei a estratégia de declarar publicamente que havia conversado com jornalistas de grandes veículos de comunicação a respeito das matérias. Parece que deu certo.

No dia 2 de abril, escrevi na minha coluna ‘Notas Soltas’ que havia recebido bons conselhos do ombudsman da Folha de S.Paulo, Marcelo Beraba, a respeito de como conduzir matérias investigativas. Conversei com Beraba por telefone na quinta-feira, dia 1º. Também escrevi na coluna que havia conversado com pessoas de grandes jornais de Belo Horizonte.

O Jornal Sul de Minas se retirou de cena, mas enviou sugestões de pautas para os diários mineiros Hoje em Dia e Estado de Minas, de Belo Horizonte. Torço para que, mais uma vez, a estratégia de agregar forças funcione.

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Redator e editor-responsável do Jornal Sul de Minas (Varginha, MG)

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