Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > LEITURAS DA FOLHA

Repórteres no pelourinho

Por Leandro Fortes em 09/03/2010 na edição 580

A direção da Folha de S.Paulo, simplesmente, autorizou a um elemento estranho à redação (mas não aos diretores), o sociólogo Demétrio Magnoli, a chamar de ‘delinquentes’ dois repórteres do jornal, autores de matéria sobre a singular visão do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) da miscigenação racial no Brasil. Vocês, não sei, mas eu nunca vi isso na minha vida, nesses 24 anos de profissão. Nunca. Por tabela, também o colunista Elio Gaspari, que desceu a lenha no malfadado discurso racista de Demóstenes Torres, acabou no balaio da delinquência jornalística montado por Magnoli.


Das duas uma: ou a Folha dá direito de resposta aos repórteres insultados (Laura Capriglione e Lucas Ferraz), como, imagino, deve prever o seu completíssimo Manual de Redação, ou encerra as atividades. Isso porque Magnoli, embora frequente os saraus do Instituto Millenium, não entende absolutamente nada de jornalismo e confundiu reportagem com opinião.


A matéria de Laura e Lucas nada tem de ideológica, nem muito menos é resultado de ‘jornalismo engajado’ (contra o DEM, na Folha??). A impressão que se tem é que houve falha nos filtros internos da Redação e deixaram passar, por descuido ou negligência, uma matéria cujas conseqüências aí estão: o senador Torres, sujeito oculto da farsa do grampo montada em consórcio entre a Veja e o STF, virou, também, o símbolo de um revisionismo histórico grotesco, no qual se estabelece como consensual o estupro de mulheres negras nas senzalas da Colônia e do Império do Brasil.


Rumos finais


A reação interna à repercussão de uma matéria elaborada por dois repórteres da sucursal de Brasília, terceirizada por Demétrio Magnoli, é emblemática (e covarde), mas não diz respeito somente à Folha de S.Paulo. O artigo ‘Jornalismo delinquente’ [ver íntegra abaixo], publicado na edição de terça-feira (9/3), na seção ‘Tendências/Debates’ da pág. 3 do jornal, nada tem a ver com políticas de pluralidade de opiniões, mas com intimidação pura e simples voltada para o enquadramento de repórteres e editores – e não só da Folha – para os tempos de guerra que se aproximam.


A recusa de Aécio Neves em ser vice de José Serra deverá jogar o DEM, outra vez, no vácuo dos tucanos, a reviver a dobradinha iniciada entre Fernando Henrique Cardoso e o PFL, de triste lembrança. O imenso mal estar causado pela fala de Demóstenes Torres na tribuna do Senado Federal, resultado do trabalho rotineiro de dois repórteres, acabou interpretado como inaceitável fogo amigo. Capaz, inclusive, agora, de a dupla de jornalistas correr perigo de empregabilidade, para usar um termo caro à equipe econômica tucana dos tempos de FHC.


Demétrio Magnoli, impunemente, chama a reportagem da Folha de S.Paulo de ‘panfleto disfarçado de reportagem’, afirmação que jamais faria, e muito menos a publicaria, sem autorização da direção do jornal, precedida de uma avaliação editorial e política bastante criteriosa. O fato de se ter permitido a Magnoli, um dos arautos da tese conceitualmente criminosa de que não há racismo no Brasil, insultar dois repórteres e o principal colunista da Folha, em espaço próprio dentro de uma edição do jornal, deixa a todos – jornalistas e leitores – perplexos com os rumos finais da velha mídia e de seu inexorável suicídio editorial em nome de uma vingança ideológica, ora baseada em doutrina, ora em puro estado de ódio racial e de classe.


***


O jornalismo delinquente


Demétrio Magnoli # reproduzido da Folha de S.Paulo, 9/3/2010


As pessoas, inclusive os jornalistas, podem ser contrárias ou favoráveis à introdução de leis raciais no ordenamento constitucional brasileiro. Não é necessário, contudo, falsear deliberadamente a história como faz o panfleto disfarçado de reportagem publicado nesta Folha sob as assinaturas de Laura Capriglione e Lucas Ferraz (‘DEM corresponsabiliza negros pela escravidão’, Cotidiano, 4/3).


A invectiva dos repórteres engajados contra o pronunciamento do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) na audiência do STF sobre cotas raciais inscreve no título a chave operacional da peça manipuladora.


O senador referiu-se aos reinos africanos, mas os militantes fantasiados de repórteres substituíram ‘africanos’ por ‘negros’, convertendo uma explanação factual sobre história política numa leitura racializada da história.


Não: ninguém disse que a ‘raça negra’ carrega responsabilidades pela escravidão. Mas se entende o impulso que fabrica a mentira: os arautos mais inescrupulosos das políticas de raça atribuem à ‘raça branca’ a responsabilidade pela escravidão.


Num passado recente, ainda se narrava essa história sem embrulhá-la na imaginação racial. Dizia-se o seguinte: o tráfico atlântico articulou os interesses de traficantes europeus e americanos aos dos reinos negreiros africanos. Isso não era segredo ou novidade antes da deflagração do empreendimento de uma revisão racial da história humana com a finalidade bem atual de sustentar leis de divisão das pessoas em grupos raciais oficiais.


Demóstenes Torres disse o que está nos registros históricos. Os repórteres a serviço de uma doutrina tentam fazer da história um escândalo.


O jornalismo que abomina os fatos precisa de ajuda. O instituto da escravidão existia na África (como em tantos outros lugares) bem antes do início do tráfico atlântico. Inimigos derrotados, pessoas endividadas e condenados por crimes diversos eram escravizados. A inexistência de um interdito moral à escravidão propiciou a aliança entre reinos africanos e os traficantes que faziam a rota do Atlântico. Os empórios do tráfico, implantados no litoral da África, eram fortalezas de propriedade dos reinos africanos, alugadas aos traficantes.


O historiador Luiz Felipe de Alencastro, convocado para envernizar a delinquência histórica dos repórteres (‘África não organizou tráfico, diz historiador’), conhece a participação logística crucial dos reinos africanos no negócio do tráfico. Mas sofreu de uma forma aguda e providencial de amnésia ideológica ao afirmar, referindo-se ao tráfico, que ‘toda a logística e o mercado eram uma operação dos ocidentais’.


Os grandes reinos negreiros africanos controlavam redes escravistas extensas, capilarizadas, que se ramificavam para o interior do continente e abrangiam parceiros comerciais estatais e mercadores autônomos. No mais das vezes, a captura e a escravização dos infelizes que passaram pelas fortalezas litorâneas eram realizadas por africanos.


Num livro publicado em Londres, que está entre os documentos essenciais da história do tráfico, o antigo escravo Quobna Cugoano relatou sua experiência na fortaleza de Cape Coast: ‘Devo admitir que, para a vergonha dos homens de meu próprio país, fui raptado e traído por alguém de minha própria cor’. Laura e Lucas, na linha da delinquência, já têm o título para uma nova reportagem: ‘Negros corresponsabilizam negros pela escravidão’.


O tráfico e a escravidão interna articulavam-se estreitamente. No reino do Ndongo, estabelecido na atual Angola no século 16, o poder do rei e da aristocracia apoiava-se no domínio sobre uma ampla classe de escravos.


No Congo, a população escrava chegou a representar cerca de metade do total. O reino Ashanti, que dominou a Costa do Ouro por três séculos, tinha na exportação de escravos sua maior fonte de renda. Os chefes do Daomé tentaram incorporar seu reino ao império do Brasil para vender escravos sob a proteção de d. Pedro 1º.


Em 1840, o rei Gezo, do Daomé, declarou que ‘o tráfico de escravos tem sido a fonte da nossa glória e riqueza’.


Em 1872, bem depois da abolição do tráfico, o rei ashanti dirigiu uma carta ao monarca britânico solicitando a retomada do comércio de gente.


O providencial esquecimento de Alencastro é um fenômeno disseminado na África. ‘Não discutimos a escravidão’, afirma Barima Nkye 12, chefe supremo do povoado ganês de Assin Mauso, cuja elite descende da aristocracia escravista ashanti. Yaw Bedwa, da Universidade de Gana, diagnostica uma ‘amnésia geral sobre a escravidão’.


Amnésia lá, falsificação, manipulação e mentira aqui. Sempre em nome de poderosos interesses atuais. [Demétrio Magnoli, sociólogo, é autor de Uma Gota de Sangue – História do Pensamento Racial‘ (SP, Contexto, 2009)]

******

Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/03/2010 Lau Mendes

    Alo Sr.Egypto.
    O assunto pede no mínimo um comentario seu. Na semana passada em artigo do Sr.Dines, por o sr. tomou as dores depois de comentário de um ‘advogado’ que descambava para … deixa prá lá, mas neste caso de a Folha estar apenas dando voz(e que volume) ao artigo de Magnoli de cunho opinativo e ideológico, dele e não dos jornalistas como acusa, eu e todos que leram o artigo de Leandro Fortes gostariamos de saber qual analise o editor de OI faria do(s)editores da Folha que deixam passar em brancas este apedrejamento de seus jornalistas.

  2. Comentou em 10/03/2010 Alberto Nasiasene

    Fiz meu comentário apoiando o ponto de vista do jornalista Leandro Fortes e reitero meu apoio. Aqui não é o espaço mais adequado para debater com outros. Somo-me ao ponto de vista do historiador, profundo conhecedor da história colonial escravista, atual professor da cadeira de História do Brasil na Sorbonne, Luiz Felipe de Alencastro. Não tenho ilusão de que, pelo argumento, irei mudar o ponto de vista de quem defende o tal senador e o tal sociólogo. É inútil, tão inútil quanto deixar que a sociedade brasileira, espontaneamente, deixe de ser racista e excludente de amplas camadas de descendentes de ex-escravos. Defendo medidas afirmativas sim, mas não as tenho como um fetiche. Pouco importa para mim se as classes dominantes são brancas ou negras, aqui ou lá na África. Não defendo uma sociedade fortemente estratificada, dominada por uma minoria, seja lá branca ou negra. Entretanto, há um fato que sofisma retórico de tribuna ou de coluna em jornal pode anular: não há uma verdadeira democracia racial no Brasil. É só interpretar superficialmente os dados sócio-econômicos do IBGE. Além disso, manifestei-me aqui em defesa do artigo de Leandro Fortes, porque concordo com ele que o artigo do tal geógrafo foi ofensivo e autoritário. Quem é ele para cassar o direito dos jornalistas? O que ele pensa que é? O dono da verdade? Não há monopólio da verdade na ciência, muito menos o dele.

  3. Comentou em 10/03/2010 Alberto Nasiasene

    Fiz meu comentário apoiando o ponto de vista do jornalista Leandro Fortes e reitero meu apoio. Aqui não é o espaço mais adequado para debater com outros. Somo-me ao ponto de vista do historiador, profundo conhecedor da história colonial escravista, atual professor da cadeira de História do Brasil na Sorbonne, Luiz Felipe de Alencastro. Não tenho ilusão de que, pelo argumento, irei mudar o ponto de vista de quem defende o tal senador e o tal sociólogo. É inútil, tão inútil quanto deixar que a sociedade brasileira, espontaneamente, deixe de ser racista e excludente de amplas camadas de descendentes de ex-escravos. Defendo medidas afirmativas sim, mas não as tenho como um fetiche. Pouco importa para mim se as classes dominantes são brancas ou negras, aqui ou lá na África. Não defendo uma sociedade fortemente estratificada, dominada por uma minoria, seja lá branca ou negra. Entretanto, há um fato que sofisma retórico de tribuna ou de coluna em jornal pode anular: não há uma verdadeira democracia racial no Brasil. É só interpretar superficialmente os dados sócio-econômicos do IBGE. Além disso, manifestei-me aqui em defesa do artigo de Leandro Fortes, porque concordo com ele que o artigo do tal geógrafo foi ofensivo e autoritário. Quem é ele para cassar o direito dos jornalistas? O que ele pensa que é? O dono da verdade? Não há monopólio da verdade na ciência, muito menos o dele.

  4. Comentou em 10/03/2010 angelo azevedo queiroz

    O comentário do Sr Alberto é um bom exemplo do quanto é preciso forçar a história e os fatos para impor as cotas no Brasil. O argumento da participação dos negros na escravidão não tem nada de sofístico, pois ele não foi usado pelo senador para culpar negros brasileiros pela escravidão de negros brasileiros. Este conclusão foi colocada na boca do senador pelos militantes, para fugir do debate que os incomoda. A afirmativa de que foi a pressão da demanda européia que fez os “coitadinhos” dos donos do poder na África aprisionarem e venderem pessoas é de uma pobreza sem paralelo. O argumento de que abolição não contemplou os ex-escravos com medidas sociais é fato, mas não se aplica, porque, na época, não havia essa preocupação com ninguém, inclusive em relação aos brancos, mestiços e índios. A falta de inclusão social não decorreu de um regime jurídico de discriminação racial voltado para a perseguição de negros, mas de uma atividade econômica atrasada e da prestação ineficiente de serviços públicos, o que, infelizmente, não foi remediado até hoje.e não o será com as cotas.

  5. Comentou em 10/03/2010 Alberto Nasiasene

    Delinquente é este senhor que defende, por ambição de poder, as plataformas políticas mais conservadoras, atropelando o bom senso e a erudição aprofundada de uma pesquisa historiográfica séria (ele é apresentado como ‘sociólogo’, mas, em outras mídias, apresentam-no também como ‘geógrafo’; seja lá como for, ‘sociólogo’ ou ‘geógrafo’, está claro que ele não é historiador, muito menos um diletante sério no estudo da escravidão brasileira). Um argumento sofístico como o do senador provinciano Demóstenes que ‘os próprios negros participaram do tráfico’ não anula o fato histórico que, no Brasil, os milhões de africanos que foram vendidos como escravos eram as vítimas do tráfico negreiro. Claro que a demanda por escravos, feita pelos negreiros portugueses fazia pressão sobre os reinos africanos que atacavam outras sociedades africanas para conseguir escravizá-las, mas isto se deu na África, não no Brasil. Os negros que chegaram aqui foram vítimas duplamente, dos europeus e africanos, na África e dos brasileiros para os quais foram vendidos. Quando houve a abolição da escravidão no Brasil, ela não contemplou os ex-escravos com medidas sócio-econômicas que pudessem nivelar as desigualdades de condições sócio-econômicas destas amplas camadas exploradas face às camadas brancas. É necessário enfrentar este círculo vicioso sim com políticas afirmativas que corrijam as desvantagens iniciais

  6. Comentou em 10/03/2010 Lucius Mauros Sorber

    O foco da discussão não é a questão racial, mas a etica da empresa jornalistica. Acho que muitos não entenderam a crítica do Leandro.

    Imagine você em seu trabalho, desenvolva um produto (texto) que passou pelos seus gerentes (editores) e a empresa lançou ele no mercado (publicou). Após essas etapas, imediatamente, algum outro gerente ou o próprio dono da empresa lança um outro produto (texto) que questiona a maneira que você concebeu o seu produto (texto), lhe acusando-o de usar de deliquencia para fazer esse produto.

    Isso é procedimento ético? No mais me parece um fritamento dos jornalistas.

  7. Comentou em 10/03/2010 fernando cabral

    Só faltou dizer que qualquer semelhança das iniciais dos nomes Demétrio e Demóstenes com um certo Partido é mera coincidencia.

  8. Comentou em 09/03/2010 Renato Golby

    Nabuco também achava que os escravos gostavam da escravidão, é o que ele defende em suas memórias ‘Minha Formação’, e Freyre tem a obra reconhecida por sua importância na introdução do tema, e não por sua precisão dos eventos descritos, que cometeu o erro de generalizar um período(a decadência da economia açucareira) e uma condição específica(a escravidão doméstica) da escravidão.

    Já o Demétrio, do Instituto Millenium, esse é totalmente isento de ideologias, não é mesmo?

    A distinção entre ‘africano’ e ‘negro’ foi das mais despropositadas. Seguindo sua própria linha de ‘raciocínio’, Demétrio deveria ser contrário a concessão de cotas apenas aos ‘africanos’, e não aos ‘negros’, já que os últimos foram os únicos responsáveis pela escravidão (sim, para o neoliberal Demétrio, os brancos não tiveram participação alguma na escravidão, eles apenas compraram um produto oferecido no livre mercado, num processo civilizado de trocas voluntárias).

    O papel de valentão intelectual tanats vezes demonstrada por essa lamentável figura que é o sr. Demétrio é um bom exemplo do tipo de Democracia defendida por institutos como o Millenium, que em seu seminário nos brindou com Arnaldo Jabor defendendo a ruptura da ordem democrática, e Reinaldo Azevedo, pregando o fim do ‘outroladismo’.

    A Democracia dessa gente é a ditadura do pensamento único.

  9. Comentou em 09/03/2010 sergio ribeiro

    O mesmo Magnoli já tinha feito um artigo insultuoso ao PT e ao Presidente da República com relação à última visita à Cuba. Depois da baixaria de César Benjamin, tudo era esperado mesmo. Não demorará também para desenterrarem o grotesco Olavo de Carvalho e suas teorias conspiratórias.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem