Domingo, 26 de Março de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº937

IMPRENSA EM QUESTãO > AFEGANISTÃO

Repórteres temem riscos após caso Mastrogiacomo

27/03/2007 na edição 426

Ameaçados e acuados, jornalistas afegãos dizem arriscar a vida para continuar a trabalhar no violento sul do país. Na cidade de Kandahar, repórteres instalados em um ‘centro de imprensa’ em um hotel passam grande parte do tempo correndo para cenas de explosões recém ocorridas e contando os mortos e feridos de ataques suicidas. O pequeno grupo, formado por homens que, na maioria, trabalham como freelancers para a imprensa estrangeira, diz que a segurança na região foi extremamente prejudicada no último ano.

Segundo artigo de Sylvie Briand na AFP [24/3/07], eles são ameaçados pela insurgência Talibã e por policiais corruptos e vivem em um clima de medo e desconfiança. Agora, depois da libertação do jornalista italiano Daniele Mastrogiacomo em troca da soltura de cinco prisioneiros talibãs, eles afirmam que os riscos se tornaram ainda maiores.

Poder de barganha

A troca apoiada pelo governo italiano foi condenada por críticos e por parte da imprensa da Itália, por ter aberto um perigoso precedente. ‘A soltura do jornalista italiano foi uma vitória para o Talibã’, resume Fazal Rahman, presidente do sindicato de jornalistas de Kandahar. ‘Eles agora sabem que, ao seqüestrar um jornalista, podem conseguir o que quiserem. É difícil se sentir seguro neste contexto’.

Mastrogiacomo foi capturado na província de Helmand e ficou por duas semanas em poder do Talibã. Seu motorista afegão foi decapitado na sua frente e ainda não se sabe o paradeiro de seu tradutor.

Viajar pelos arredores de Kandahar já era complicado pelos riscos de violência, mas agora, segundo o jornalista Salih Mohammad Salih, ‘ficou 10 vezes mais perigoso’ encarar as estradas. A chegada de um afegão fazendo perguntas estranhas em uma área tribal fora do controle do governo costuma levantar suspeitas, diz ele, um dos poucos que ainda se arriscam em Helmand. ‘Eu venho originalmente da província. Eles conhecem minha tribo, minha família, mas, apesar disso, eu não digo que sou um jornalista… Às vezes é difícil saber com quem você está lidando. Eu sei que, se o Talibã me prender, é o fim para mim’, afirma o jornalista, que trabalha para a Radio Free Europe/Radio Liberty.

Punição para os ‘infiéis’

Segundo Abdullah Shahood, repórter da al-Jazira, o alto índice de analfabetismo e falta de instrução nas áreas do sul do país são um problema sério. ‘As pessoas não sabem qual é a função de um jornalista’, conta. A insurgência, que teve início logo depois que o Talibã foi retirado do governo, em 2001, faz uso pesado de propaganda com a população local. O líder Talibã Mullah Dadullah, responsável pelo seqüestro de Mastrogiacomo, ameaçou no ano passado quem espalhasse ‘mentiras’ para forças estrangeiras. Ele também prometeu matar jornalistas que trabalham para os ‘infiéis’.

Jornalistas estrangeiros que viajam com tropas da Otan em Kandahar são alertados dos perigos da região assim que chegam ao país. ‘Profissionais de imprensa se tornaram alvos de grande valor para o Talibã’, afirma John Nethercott, porta-voz do Exército canadense.

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