Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Rondônia é aqui

Por Luiz Weis em 27/04/2004 na edição 274

O ombudsman da Folha, Marcelo Beraba, pegou na veia de uma injustificada deficiência da mídia brasileira, ao destacar – a propósito da chacina dos garimpeiros pelos cintas-largas na reserva Roosevelt e do massacre dos presos tomados como reféns no presídio Urso Branco, tudo em Rondônia – que ‘os grandes jornais (…) não têm estrutura jornalística na Amazônia’.

‘A Folha tem uma correspondente em Pequim e não tem em Belém’, registrou.

Os efeitos são óbvios: inumeráveis pautas desperdiçadas sobre o que se passa na última fronteira do país – e o que ali se passa, como em qualquer terra de fronteira é a violência continuada, sob as mais diferentes formas – e a eterna corrida para apagar incêndios. Ou, nas palavras de Beraba, ‘os repórteres não têm como se especializar, porque vivem longe e são deslocados apenas quando existe crise’.

Pelo menos em relação à grande história – a dos índios e do garimpo de diamantes – faça-se justiça à mídia. Com o passar dos dias desde as primeiras informações sobre a matança na reserva, a Folha e O Estado de S.Paulo foram recuperando o prejuízo.

No domingo, 25, o leitor interessado tinha já uma visão razoável do miasma em que se misturam índios aculturados e por vezes ricos, miseráveis brasileiros de todas as misturas, contrabandistas de nacionalidades diversas – em meio à proverbial omissão do poder público e ao vazio regulatório sobre mineração em reservas indígenas.

Para este leitor, a melhor reportagem sobre o assassínio dos 29 garimpeiros foi de Michael Astor, da Associated Press, escrita no crocante estilo dos textos da agência americana. Michael foi o primeiro a ouvir do cacique Pio Cinta-Larga que ‘os guerreiros perderam a paciência, e foi isso que aconteceu’. A Folha publicou a matéria na quinta-feira, 22.



Minas há demais?

A descoberta de um tremendo arsenal armazenado por traficantes na Favela da Coréia, em Senador Camará, na zona oeste do Rio, serviu – se é que essa é a palavra certa – para se ficar sabendo que o Exército brasileiro tem em estoque 5.497 minas terrestres antipessoa (ou do tipo antepessoal), daquelas feitas para aleijar. Teria ainda 11.048 minas de outros tipos.

O Brasil é signatário da Convenção de Ottawa, de 1999, que proíbe o uso, armazenamento, produção e transferência de minas antipessoa e prevê a sua destruição até 2009.

As minas brasileiras não são segredo. Como membro da convenção, o Brasil envia à ONU um inventário anual, preparado pelo Ministério da Defesa, com a origem, quantidade e finalidade das armas em seu poder (ou vendidas a terceiros).

No entanto, concentrada em descobrir se as oito minas da Favela Coréia foram desviadas – pois são do mesmo lote, tipo e fabricante daquelas do Exército –, a mídia tratou burocraticamente de outra questão: o número aparentemente excessivo dessas abomináveis armas no Brasil.

Segundo o diretor da divisão de armas da organização americana Human Rights Watch, Steve Goose, e o coordenador brasileiro da campanha internacional para o banimento das minas terrestres, Gustavo Vieira, entre os signatários da convenção, o Brasil tem mais minas para treinamento do que qualquer outro país, salvo o Turcomenistão, na Ásia Central – que não é propriamente flor que se cheire.

O Exército alega que a quantidade é necessária para o preparo de soldados que participarão de forças internacionais de paz, que trabalham na desativação desses artefatos. ‘O trabalho é perigoso e os militares não podem só aprender a teoria’, disse um porta-voz do Exército ao Estado.

A mídia ouviu ‘os dois lados’ e deu os trâmites por findos. Poderia ir mais fundo para esclarecer se não é muita mina para pouca missão – afinal, o Brasil não é exatamente o maior provedor da ONU nesse particular. [Textos fechados às 14h20 de 26/4]

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