Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > PÚBLICO

Rui Araújo

13/02/2007 na edição 420

‘‘Leitor do Público todos os dias, desde o primeiro dia, custa-me vê-lo resvalar, por vezes, cada vez mais vezes, para o mau jornalismo.

Dois exemplos à consideração do Provedor:

1º exemplo. ‘Violador de menino deficiente condenado a 12 anos de prisão’ (14/12/2006, p. 21, José Bento Amaro). Li a última parte do artigo (‘Elogios e suspeitas’) com crescente perplexidade. Já a anterior (‘Feios, porcos e maus’) parecia mais um recorte literário do jornal O Crime que do Público, mas aqui faz-se do jornalismo uma aberração: sobre a mãe da vítima (o pequeno Daniel), ilibada das acusações de que era alvo, o jornalista (?) perora: ‘a miséria aludida não se fica, no entanto, pelo agregado familiar de Fábio (o condenado). Mónica tinha dois filhos de pais diferentes, sendo que nenhum deles era o agora condenado.’

E prossegue na descrição da ‘miséria’: ‘supostamente sabia dos abusos, mas calara-se porque não queria perder o namorado’ (a miséria de que foi ilibada) ‘com quem praticava sexo ‘várias vezes ao dia’’ (só um invejoso pode apelidar isto de ‘miséria’) ‘nas modalidades de vaginal, oral e anal’ (nada intrusivo na vida da mulher a quem mataram o filho, nada moralista) e continua achando ‘ainda de referir’, como se já não bastasse, ‘que, quando do orgasmo’ – que miséria, até orgasmos tinha – ‘ela arranhava-lhe as costas e ele mordia-a’.

2º exemplo. Leio o título: ‘Portugueses têm mais filhos fora do casamento do que os espanhóis’ (21/12/2006, p. 19. Catarina Gomes).

Interessado leio o destaque: ‘Na área da igualdade de género Portugal apresenta sinais de progresso que o colocam à frente do país vizinho (…)’.

Como o tema ‘igualdade de género’ é um dos meus divertimentos favoritos fui ver, já antecipando uma gargalhada, quais os tais ‘sinais de progresso’, que nos põem na vanguarda peninsular. E ei-los explicados ao povo com a ajuda da académica Karin Wall, ‘socióloga da família’:

1. Os portugueses casam-se cada vez menos. Os espanhóis mantêm-se estáveis.

2. Em Portugal, o crescimento das uniões de facto parece maior que em Espanha ‘em convergência com o resto da Europa’, rejubila a socióloga.

3. A taxa de participação feminina no mercado de trabalho é muito superior em Portugal.

4. No ensino superior, em Portugal, a proporção de mulheres é de 66% e em Espanha é (só) de 58%.

5. Os espanhóis só nos ganham por já terem o casamento homossexual, no resto são mais conservadores.

Ora, com é óbvio, os pontos 1, 2 e 4 nada adiantam ou atrasam em relação a qualquer, supostamente benévola e desejável, ‘igualdade de género’. Que apareçam sociólogas da família a regozijar-se com o decréscimo dos casamentos e o aumento dos divórcios e uniões de facto é, do ponto de vista científico, muito suspeito. Que a jornalista não pergunte como é que o facto de haver o dobro de mulheres a estudar na universidade é sinal de progresso na ‘igualdade’ entre homens e mulheres, é espantoso. Será que já ninguém se espanta com estas coisas?’, escreve Alberto Magalhães, um leitor de Nossa Senhora de Machede.

Os reparos são pertinentes apesar de o provedor não reconhecer ao leitor as competências legais para determinar quem é ou não jornalista.

O artigo ‘Violador de menino deficiente condenado a 12 anos de prisão’ é controverso.

O provedor solicitou, portanto, esclarecimentos ao jornalista José Bento Amaro.

‘As alusões feitas pelo leitor estão fora de contexto. Porquê? Porque estão seccionadas. O leitor pega em algumas passagens da notícia e junta-as como se elas assim tivessem sido publicadas.

Nenhuma das passagens da notícia resulta da imaginação do jornalista. Antes são resultado do acórdão proferido em tribunal e, também, expressões utilizadas pela juíza que presidiu ao julgamento.

O leitor entende que há passagens na notícia que não deveriam ser citadas. Pois bem: acompanhei quase todas as audiências do julgamento (falhei uma). Apesar de ter em minha posse (como todos os restantes jornalistas) a acusação, nunca antes da data da sentença a reproduzi. Só o fiz após ter sido ditada a sentença porque entendi, e continuo a entender, que essas mesmas frases eram essenciais no processo para sustentar uma das partes da acusação (relativa à mãe). Os restantes jornais, só a título de exemplo, usaram o teor da acusação logo após a primeira audiência.

Ainda assim, antes de escrever a notícia tal como a mesma veio a ser publicada, tive o cuidado de falar com o meu editor acerca do conteúdo da mesma. Ambos concluímos que havia matéria, por chocante que possa parecer, que deveria ser relatada para que, desse modo, os leitores pudessem ter uma mais profunda percepção e conhecimento da acusação e do caso em julgamento.

Devo, enquanto jornalista, questionar o veredicto do tribunal (este caso teve jurados)? Admito que, em algumas situações (que não esta) o possa fazer. Sei, e isso com toda a certeza, que o meu principal dever enquanto jornalista é informar. E se tiver que relatar alguns pormenores mais sensíveis, desde que tal sirva para ajudar os leitores a compreender o porquê de determinadas acusações, então fá-lo-ei.

Houve um leitor que ficou chocado com algumas passagens do texto final? Aceito. Mas também tive outro tipo de reacções, de outros leitores e colegas de trabalho, que reconhecendo a dureza das palavras, acabaram por concordar que as mesmas eram justificadas, uma vez que resultam da sentença proferida pelos jurados e lida por uma magistrada.’

O problema é o jornalista ter confundido informação e opinião e descrito exaustivamente pormenores da vida íntima que não são, de todo, indispensáveis para a boa compreensão da notícia.

A juíza tem de fundamentar as razões da sentença até ao ínfimo pormenor. Assim manda o Direito.

Ao jornalista compete transmitir os factos essenciais para a boa compreensão do acontecimento, sem ferir desnecessariamente a sensibilidade dos leitores. A isso o obriga o Jornalismo. E o próprio Livro de Estilo do Público.

José Bento Amaro descreveu a vida íntima de cidadãos publicamente identificados com uma minúcia obscena e opinou sobre a suposta miséria social do casal, o que é uma conclusão da sua lavra.

É o ‘rigor’ elevado a 80.

O segundo artigo é igualmente polémico, mas a contrario sensu. Contém erros e imprecisões, quando a base do texto é um relatório do INE.

Eis alguns exemplos:

ERRO: ‘Só 11% das pessoas empregadas em Portugal têm uma licenciatura’.

O INE menciona 13% (11% são os patrões). Se as percentagens são importantes, o erro, aqui, é de 15,3%…

ERRO: ‘Um português pode contar em média com 75 anos de vida, menos três anos do que um espanhol’.

Segundo o INE, a esperança de vida à nascença para um homem é de 74,9 anos e para uma mulher 81,4 anos, em Portugal.

Eis a resposta da jornalista: ‘Quando escrevo no meu artigo que ‘na igualdade de género Portugal apresenta sinais de progresso que o colocam à frente’ antecipo os dados numéricos e afirmações que são referidos nos parágrafos seguintes do meu texto. Refiro-me a indicadores respeitantes à taxa de participação feminina no mercado de trabalho, que é muito superior em Portugal do que em Espanha (e cuja média não é referida porque o relatório permite perceber as diferenças mas centra-se nas comparações regionais), e que no ensino superior, em Portugal, a proporção de mulheres é de 66% e em Espanha é de 58%. O aumento da proporção de mulheres no ensino superior é um inequívoco sinal de progresso nesta área, ainda mais se recuarmos, por exemplo, aos números de 1960: 29 por cento de mulheres matriculadas no ensino superior (António Barreto, A Situação Social em Portugal).

Antes de mais noto que o leitor diz jocosamente ter o tema da igualdade de género como ‘um dos meus divertimentos favoritos’, o que revela que não o reputa como sério. Compreendo que o facto de os portugueses se casarem menos do que os espanhóis e de as uniões de facto terem crescido até possa ser questionado como indicador de igualdade de género. Mas estas afirmações, que são devidamente atribuídas à socióloga Karin Wall, uma das mais eminentes cientistas sociais em Portugal na área da família, são da sua responsabilidade e são de teor científico.

Tive o cuidado do voltar a falar com a socióloga a este propósito depois da recepção da crítica. A socióloga Karin Wall explicita que o juízo nada tem de ideológico, é uma afirmação científica. Passou-se de um Portugal em que ‘o casamento pela Igreja era o modelo único de família’, e o papel social da mulher quase restrito ao de dona de casa, para um contexto que dá à mulher ‘maiores oportunidades de organização conjugal’, mais flexibilidade e hipóteses de escolha. Também a legalização das uniões gay é vista como ‘um sinal de progresso porque é sintoma de orientações sexuais mais diversas e de práticas menos discriminatórias’. ‘A diversificação da família tem promovido a igualdade nas mulheres’, remata a especialista.

Em momento algum se refere que ‘o aumento dos divórcios’ é um sinal de progresso na igualdade de género, como menciona o leitor. A socióloga refere a alteração da lei do divórcio a seguir ao 25 de Abril, considerada um progresso na igualdade de género porque passou a permitir o divórcio por mútuo consentimento aos casados pela Igreja, algo não permitido na ditadura.

O leitor refere que existe ‘o dobro de mulheres a estudar na universidade’, a afirmação é incorrecta e não consta do texto, a taxa de participação feminina em Portugal na universidade é de 66 por cento (face a 58 por cento em Espanha). Reafirmo que é um sinal de progresso, face a um atraso de décadas em que as mulheres estiveram quase arredadas do meio universitário. É também sabido que o peso feminino na população universitária é ‘um sinal de progresso’ que não se repercute na ocupação feminina igualitária de lugares de chefia em termos políticos e empresariais.

Em resumo, as críticas do leitor não são feitas em tom sério e não são sequer rigorosas contendo as duas incorrecções que referi.

O Provedor pergunta: ‘Como explica a sucessão de erros? (vários números errados, comparação entre dados diferentes, arredondamentos nuns casos e noutros não, omissões, etc.).’

Quanto à questão dos ‘arredondamentos nuns casos e noutros não’: todos os números do texto principal foram arredondados por uma questão de legibilidade do texto, que ficaria sobrecarregado de vírgulas e mais vírgulas sem ganhos de compreensão (na caixa de números não se fez o arredondamentos porque em termos gráficos a informação fica clara sem a mesma sobrecarga).

No texto houve uma única excepção a esta regra do arredondamento, porque isso esbateria uma diferença que é ténue mas existe: entre 4,7 casamentos por mil habitantes em Portugal e 5,1 em Espanha. Se fossem arredondados ambos seriam lidos como cinco por mil habitantes.

Quanto aos erros que refere o Sr. Provedor, é importante dizer nenhum deles altera as premissas do texto: que a esperança de vida é menor em Portugal do que em Espanha, que o número de doutorados é maior em Portugal do que em Espanha e que o número de pessoas empregadas com licenciatura é mais baixo em Espanha do quem Portugal.

Dito isto, reconheço um erro numérico que depois implicou lapso em duas referências: de facto 74,9 anos é a esperança de vida dos homens portugueses e não dos portugueses em geral (que é de 78, média dos homens (74,9) e das mulheres (81,4)). Portanto, a diferença de esperança de vida em relação aos espanhóis – que está correcta é a média de homens (76,7) e mulheres (83,2) e é de 80 anos – não é de três anos mas de dois.

No gráfico vem erradamente referido o número de doutorados por mil habitantes e o correcto seria dizer por cem mil habitantes.

E por fim, não são 11 por cento ‘as pessoas empregadas em Portugal’ com licenciatura mas 12 por cento – se somarmos empregados (13 por cento) e patrões (11 por cento) que também são trabalhadores) e fizermos a média – ou 13 por cento se forem tidos em conta apenas os patrões. O lapso deveu-se a um erro de leitura entre colunas. As minhas desculpas aos leitores’.

As explicações são parcialmente aceitáveis. Num artigo (baseado em estatísticas) em que o rigor e os pormenores são essenciais Catarina Gomes apresenta várias percentagens erradas, dados incompletos e emite opiniões (que não são produzidas pela entrevistada). Por outro lado, a jornalista comete erros crassos no plano científico: calcula a esperança de vida de ‘um português’ adicionando o valor da esperança de vida dos homens ao das mulheres e dividindo o resultado obtido por dois.

‘Não é correcto do ponto de vista metodológico. O cálculo das esperanças médias de vida decorre da aplicação das funções das tábuas de mortalidade, calculadas para o conjunto da população (homens e mulheres) e para ‘sexos’ em separado’, disse ao provedor fonte do INE.

A comparação com a esperança de vida de ‘um espanhol’ também é, por essa mesma razão, incorrecta.

O provedor considera, por outro lado, que os conceitos de Progresso são discutíveis.

66% de mulheres na universidade é um sinal de progresso?

Os casamentos homossexuais são um sinal de progresso?

A diminuição dos casamentos é um sinal de progresso?

O aumento do número de filhos nascidos fora do casamento é um sinal de progresso?

O que é o Progresso? E de acordo com estes critérios onde se situaria o Progresso absoluto?

A única constatação a que o provedor chega é que a instituição Família está a sofrer uma profunda mutação.

O provedor duvida também do carácter científico da seguinte afirmação: ‘A legalização das uniões gay é vista como ‘um sinal de progresso porque é sintoma de orientações sexuais mais diversas e de práticas menos discriminatórias’.’

É uma afirmação tanto mais polémica quanto não está no artigo. Foi ‘rematada’ a posteriori pela socióloga (como reconhece a própria jornalista). É, portanto, uma opinião, discutível por definição. E o provedor recusa peremptoriamente juízos de valor de natureza social travestidos de informação. A jornalista tornou sua a tese da socióloga e promove a opinião dela (sobre a matéria) a facto indiscutível.

No primeiro artigo o ‘rigor’ foi elevado a 80; neste fica-se pelos 8.

Seriam dois casos de somenos importância se não ilustrassem a actual tendência dos jornalistas para o ‘facilitismo’.’

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