Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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IMPRENSA EM QUESTãO > SENSACIONALISMO

Se furar, espirra sangue…

Por Robson Terra em 29/07/2008 na edição 496

Programas tradicionais do rádio como Ronda policial ou A cidade contra o crime promovem, desde os anos 1960, a felicidade da audiência das emissoras. O jornalismo de sensações, ou jornalismo sensacionalista, com manchetes ‘desenhadas’ com sangue, estimula o deleite do público ávido por novas emoções e revelação de expressões sádicas. É comum ouvir que tal jornal, ‘se espremer, sai sangue’. Hoje, a programação da televisão brasileira que se autodenomina portadora de certificado de qualidade, pretende camuflar ou fazer a maquiagem do conteúdo popularesco que inspira a pauta de suas edições em apelação, vigorosa e desesperada, no sensacionalismo dos telejornais.

Com o advento das novas mídias, os meios de comunicação de massa estão disputando centímetros de leitores ou pontos preciosos na audência para reposicionamento estratégico de mercado. Um desespero nunca visto antes. A ditadura da classe D, que ainda prestigia a audiência televisiva com olhares submissos e envolvidos nos melodramas mexicanos e brasileiros, promove a volta da programação aos primeiros anos da história da TV, classificada por Sérgio Mattos, no livro A história da televisão brasileira, como a ‘fase populista’, no período de 1964 a 1975, ‘quando a televisão era considerada um exemplo de modernidade e programas de auditório de baixo nível tomavam grande parte da programação’. Foram anos de sedução do espectador ao modelo de programação televisiva, inspirada no rádio e com o toque pouco sutil do grotesco que Muniz Sodré definiu como ‘o signo do excepcional, do mau gosto, do marginal’.

A ‘purgação da paixão’

Brilharam, nesse período, Dercy Gonçalves e o seu Dercy de verdade, na TV Globo, com as tragédias humanas expostas para cativar audiência. Jacintho Figueira Jr e seu O homem do sapato branco, Sílvio Santos em Boa noite, cinderela e Raul Longras exploravam a infelicidade humana. Nos anos 2000, O programa do Ratinho reconstruiu esse momento ímpar na TV com seus testes de DNA, anarquia, sadismo, desestruturação da família, pancadas, palhaços e reportagens cujo enfoque jornalístico revelava caráter duvidoso. Até o asséptico autor Manoel Carlos, em Laços de Família, da Rede Globo, usou em sua obra a poção divina do Ratinho, porém glamourizada pelas paisagens do Leblon, a beleza de Vera Fischer e embalada por Tom Jobim. Deu certo: o Ibope respondeu positivamente.

Hoje, a juventude se afasta da televisão e busca no computador, cibers ou lans outra opção de lazer, ou de estar inserido no mundo, na busca da espetacularização do eu e da possibilidade formidável de gerar conteúdo para a mídia eletrônica. Os programadores precisam manter cativos os telespectadores que, ainda assustados com as novas tecnologias, garantem a vigília da programação. Mesmo a terceira idade está descobrindo, aos poucos, o mundo fascinante, mágico e livre da internet. E aqui a produção da nova programação da TV traz o cheiro do ralo onde os telejornais, as novelas, as atrações de entretenimento e os programas de auditório apelam para o velho e definitivo grotesco, promovendo, a cada edição, uma nova enxurrada de crimes, tiros, sangue, violência, acidentes e muita catarse, fenômeno do teatro que significa ‘a purgação da paixão’ e que dá ao telespectador a sensação de proteção e alívio quando o mundo lá fora está um caos.

Velhos mecanismos

É ver o sofrimento do outro protegido no sofá da sala. É o ápice do conforto. No noticiário da TV, a epidemia de dengue e as mortes conseqüentes ganham um apelo sensacionalista cruel. Não se vê uma campanha de prevenção ou de esclarecimento sobre a doença. Só morte e morte. Com direito a obituário eletrônico, como nas grandes tragédias mundiais. E reportagens com as famílias das vítimas num apelo de sedação e oportunidade. Os feriados prolongados promovem um festival de imagens de carros com ferros retorcidos e estatísticas apavorantes de mortos e feridos.

Com tanta tragédia explícita nos telejornais, a mídia televisiva garante pontos do Ibope na engrenagem da nova programação, ressuscita velhos mecanismos do tradicional e bom rádio e dos jornais sensacionalistas. Porém, seus apresentadores não conseguem disfarçar o constrangimento de pautar, editar e anunciar tanta notícia apelativa. Ou seja, se alguém furar a televisão, espirra sangue…

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Jornalista, professor universitário e mestrando em comunicação; Juiz de Fora, MG

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