Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > Contextualização da notícia

Ligando os pontos

Por Alexandre Marini em 28/04/2017 na edição 941

Revistas de passatempos parecem ter se tornado “coisas de gente velha” e de lembranças infantis diante das inovações tecnológicas que temos disponíveis hoje. Entre palavras cruzadas e caça-palavras, havia um em particular que toda criança gostava:  o “ligue os pontos”. Bastava ligar um ponto a outro, com uma linha feita a caneta ou lápis, que éramos presenteados com um desenho que estava ali, oculto, apenas disfarçado diante de nossos olhos.

Uma brincadeira infantil, sem dúvida, mas também muito didática. Se houvesse uma moral nela, seria: se quisermos vislumbrar o todo, ver algo de maneira mais ampla, precisamos não somente dos pontos, mas suas conexões.

Trazendo para o jornalismo, trata-se de algo imprescindível a quem procede a feitura de uma entrevista. Por mais que as perguntas sejam elaboradas antes das entrevistas, as respostas podem trazer informações novas ou que tenham escapado durante a pesquisa de preparação. Assim, ligar os pontos após a entrevista é extremamente importante para oferecer ao leitor um panorama mais completo, crítico e menos centrado no mero discurso do entrevistado.

Segue um exemplo recente. Na Folha de São Paulo do dia 23/4, o entrevistado foi Pedro Luiz Passos, um dos donos da empresa de cosméticos Natura. Tanto no texto de apresentação, como nas perguntas feitas, pouca contextualização diante da enxurrada de opiniões contidas nas respostas do entrevistado, meramente transcritas. No caso, a contextualização era por demais importante, tendo em vista que o título da matéria na capa do site da FSP era “ Brasil ganha se for possível manter Temer até 2018, diz sócio da Natura”.

Mas se quem entrevistou não ligou os pontos antes e nem depois, segue alguns pontos a serem ligados logo abaixo:

  • A lei é frágil. É só uma MP de 2001.
  • Com base nela é assegurado às comunidades indígenas os “benefícios pela exploração econômica por terceiros, direta ou indiretamente, de conhecimento tradicional.
  • A Natura foi acusada de apropriação do conhecimento por tribos indígenas. Outras acusações, de outras comunidades (não só indígenas) também aconteceram. Quem conhece a justiça brasileira descobre (fácil, fácil) quem ganhou e quem perdeu.
  • Início de 2017: Temer nomeia o pastor e general da reserva Antônio Costa para a FUNAI e começa um desmantelamento da fundação de proteção ao índio. As pautas da bancada ruralista estão a todo vapor.
  • O Brasil passa por um processo de terceirização do mercado de trabalho, perda de direitos trabalhistas e previdenciários que estão sendo levados a cabo pelo atual governante.
  • Acrescente aos pontos acima o fato da Natura Cosméticos S/A ser devedora de mais de R$ 700.000,00 com a Fazenda e o FGTS.
  • Folha de São Paulo, 23-04-17: dentre suas manchetes, uma delas é “Brasil ganha se for possível manter temer até 2018, diz sócio da Natura”.

Agora, ligue os pontos. A entrevista poderia ser, no mínimo, muito mais interessante.

Resumindo: o perigo da falta de criticidade é, com o passar dos anos, o jornalismo virar passatempo.

Obs.: caso esteja curioso e quiser conferir o valor acima ou dívidas de outras empresas, escreva o nome ou razão social que queira pesquisar nesse link: https://www2.pgfn.fazenda.gov.br/ecac/contribuinte/devedores/listaDevedores.jsf;jsessionid=A5CCA56625F83201EED589A578C7DA1F.app1

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Alexandre Marini  é sociólogo e professor

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