Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > LEITURAS DE O GLOBO

Semiótica da caixa de isopor

Por Muniz Sodré em 19/01/2010 na edição 573

Na primeira página do Globo (13/1/2010), uma charge mostrava a escala da evolução humana com o presidente da República na quarta posição, logo após o Homo Sapiens, com uma caixa de isopor na cabeça. O noticiário da catástrofe no Haiti monopolizou as atenções gerais, mas permaneceu a sensação de ter havido algo de curioso, senão de intrigante, no repetido interesse da imprensa escrita pela imagem do primeiro mandatário na saída de uma praia baiana. A foto, tomada à distância, sabidamente sem o conhecimento do presidente, mostra-o com a primeira-dama na retaguarda (nenhum ajudante de ordens visível), carregando o que seriam as sobras dos líquidos ingeridos a beira-mar. Água, refrigerantes, cervejas, sabe-se lá.


Em princípio, é assunto de pauta jornalística qualquer momento singular da autoridade suprema da República, esteja ele no palácio ou em gozo de férias, o que era o caso. Intrigante apenas é o fato de que a imagem repercutiu, repetiu-se e se estendeu à charge, sem que ficasse muito claro por quê.


Uma hipótese explicativa: presidente da República não costuma carregar isopor na cabeça. Nada aí que tivesse ferido a liturgia do cargo, uma vez que o cidadão-presidente estava de calção, à margem do banho de mar, em suposta privacidade. Ainda assim, algo no instantâneo impressionou as retinas editoriais e de tal maneira que o fotografado terminou servindo de mote para a transformação (grotesca) da cadeia evolutiva em involutiva: depois dele, na charge, o humanóide é progressivamente rebaixado até o australopithecus, o macaquinho saltitante (como é mesmo o nome daquele país onde se costumava chamar os brasileiros de macaquitos?).


Quadro de referências culturais


Em Câmara Clara, Roland Barthes sugere dois conceitos para a análise das fotografias: punctum e studium. O primeiro diz respeito àquilo que, na foto, impressiona o olhar do contemplador ao modo de um dardo desferido. Pode ser um gesto, uma postura corporal ou um detalhe insólito. O segundo refere-se ao quadro cultural que recobre a cena, revelando significações latentes e apontando mesmo para as motivações sociais, senão para a axiomática – a ordem impositiva dos valores, como no discurso moral – que presidiu ao ato de fotografar ou editar.


Na foto em questão, o punctum é certamente a caixa na cabeça, que o studium do senso comum e jornalístico associa ao vendedor ambulante nas praias ou ao habitus do lumpesinato nas favelas, onde sobe à cabeça quase tudo que pesa, do isopor à lata d´água. Correu mundo a letra do samba em que ‘lata d´água na cabeça/lá vai Maria…’ Voltando à foto: o ‘dardo’ perceptivo é que o presidente foi flagrado em sua falta de refinamento, algo como um instante de desenvolto retrocesso à condição operária.


Sim, certo, dirão, é interpretação demais para isso que, na prática das redações, define-se melhor como automatismo profissional. A imagem era simplesmente interessante, nenhum editor experiente ia deixá-la passar impune. Tudo isso pode ser verdadeiro (é de fato uma ‘verdade’ corporativa) e não se trata aqui de fazer o processo da má consciência pelo que possa haver de depreciativo no ápice da edição repetida da imagem, isto é, a charge da involução humana. Mas é preciso ler criticamente a imprensa não apenas a partir do que ela nos diz ao pé da letra, mas principalmente do que parte de seu quadro de referências culturais, portanto, de sua representação do homem nacional.


A ‘involução humana’ na escala do poder


Toda idéia de nação, sabe-se, alimenta-se de uma etnicização fictícia, que se divide em etnicidade lingüística e etnicidade racial. O domínio da língua comum não tem apenas valor instrumental, mas também valor de marca de pertencimento à classe social que, por meio de seus clérigos ou letrados, legisla sobre o vernáculo. Quanto à etnicidade racial, a discussão é longa e, atravessando todo o século 20, mantém-se acesa neste terceiro milênio.


O preconceito relativo a uma ou outra das diferenças étnicas geralmente as congela como diferenças de casta, tendendo a atribuir aos indivíduos ‘destinos’ sociais diferentes. Os julgamentos implícitos em classificações como ‘regional’, ‘popular’, ‘erros de português’ são secundados pela estigmatização de habitus (conceito disseminado pelo sociólogo Pierre Bourdieu) corporais, que funcionam como marcações étnicas das diferenças. A imagem do presidente com o isopor na cabeça deve ser lida nesse quadro problemático: foi um punctum na consciência de classe do senso comum editorial, um habitus de gente pobre. Daí, a ‘involução humana’ na escala supostamente ascendente do poder.

******

Jornalista, escritor, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/01/2010 João Batista Gomes

    Eu sou do tempo em que assinávamos o Jornal do Brasil e o Globo. O primeiro para nos informarmos e o segundo para limpar o xixi e o cocô do nosso cachorrinho. O problema hoje é que é dificil achar nas bancas um periódico para a primeira função: informação. Para segunda a melhor opção ainda é o Globo, principalmente o de domingo, que vem com mais papel.

    Ainda bem que o meu cachorrinho não sabe ler, se não correria o risco de ficar alienado.

  2. Comentou em 22/01/2010 Lisandrea Costa

    Muito bom o seu texto. É recorrente na imprensa brasileira a estigmatização da imagem do presidente, que já não é mais o sapo barbudo, mas frequentemente aparece como um homem suado (acho que FHC não sua, nunca vi uma imagem dele suado), cabelos despenteados, amarfanhado… Um operário!

  3. Comentou em 22/01/2010 Lilica Ripilica Tigor

    Andrea,
    num inteindi…
    Com base num comentário anterior, você tá dizendo que o lula não é machista, mas duvida da veracidade da informação trazida por esse mesmo comentário?
    De qualquer forma, o discurso existe. O ômi falou aquilo mesmo que está escrito: basta ir na página da presidencia, em ‘discursos e entrevistas’ e abrir os do dia 15/01/2010.

  4. Comentou em 22/01/2010 Marcelo Ramos

    O acontecimento certamente permite mais de uma leitura, embora nem todas depreciativas. Evidentemente, há um certo acúmulo de sentimento negativo contra os grandes jornais, em razão da manipulação, distorção de informações e da oposição irracional e sistemática movida contra um presidente que possui alta aprovação nas camadas mais populares. Também existe a leitura (possível), muito em moda, de publicar assuntos ‘polêmicos’. Agora mesmo, no site do Globo, o jornal publicou suposta fala do presidente Lula chamando Sérgio Guerra de babaca, em mais uma tentativa de desgastar o presidente. Indo pelo lado da estratégia, do jogo político, (ninguém mais tem dúvida que os jornais viraram partidos) é uma estratégia gasta e contra-producente, já que a aprovação do presidente vem acompanhada da consciência, pelas classes populares, de que ‘há algo de podre nas editorias jornalísticas’, ou seja, como pontuou o atual prefeito do Rio, na ‘crise’ do Caixa 2 em 2005, o Lula está blindado. Nada que esses grupos de mídia façam vai alterar a percepção que o povo tem do presidente e, inversamente, vai desgastar (como tem ocorrido, com queda de tiragem) os grupos que estão indo por esse lado. Também cabe ressaltar que, entre outros méritos, Lula estabeleceu um novo relacionamento com a cultura de massa, prescindindo dos meios de comunicação que usualmente interferiam nesse universo.

  5. Comentou em 21/01/2010 Cristiana Castro

    ‘A charge fala muito mais sobre O GLOBO do que sobre Lula.’ Carlos N. Mendes, definitivo!

  6. Comentou em 21/01/2010 Ney José Pereira

    Mas a foto do Lula com a caixa de cerveja é ela própria uma charge!. E ninguém segura a midiatice do Lula!. O futebolista Lula é o roupeiro e o treinador e o jogador e o árbitro e o torcedor e o repórter e o ‘comentarista’ e o cartola e o empresário e o juiz desportivo!. Concomitantemente!. O Lula é o factótum ‘imprescindível’ do Brasil!. Observação: Na hora da retirada da imprensa pela ‘privacidade’ do Lula quem faz isso são os ‘milicos’. Afinal, fotografou, dê o fora!. PS: Mas, vida dura mesmo quem tem são os vendedores de cerveja com caixa de isopor na cabeça nos estádios de futebol!. E os consumidores, né!. Pois, tomam cada cerveja de qualidade horrível!. Em tempo: O Lula toma em palácio essas mesmas cervejas vendidas à galera por R$ 1,00?!. Com a palavra o chefe da despensa do Palácio da Alvorada!. Ou da Granja do Torto!.

  7. Comentou em 21/01/2010 Fernando Alves

    Como o articulista é ingênuo, achando que a foto foi feita sem o conhecimento de quem deve ter conhecimento. Não o Lula, que este não sabe de nada, mas do Franklin ‘Goebels’ Martins. Isso tudo é arranjado previamente, para fazer o ex-operario, que pouco trabalhou na vida, parecer que é ‘gente como a gente’. Ingênuos todos, e bocós os comentários anteriores.

  8. Comentou em 21/01/2010 Arnaldo Costa

    Esse tipo de preconceito é perigoso. São típicos de ditaduras, o pior dos mundos, como aconteceu no nazismo. Felizmente, o mundinho fechado desses hipócritas não comporta a globalização e não faz frente à opinião mundial. O presidente Lula é aclamado nos quatro cantos do mundo. Receberá a homenagem de “Estadista Mundial”.
    ‘Estamos encantados que o presidente Lula retorne a Davos em seu último ano de mandato. Queremos fazer uma homenagem pela alta estima do mundo e por seus bem-sucedidos anos à frente do Brasil. Um país em constante crescimento e que será chave no futuro próximo”, assinalou em entrevista coletiva Klaus Schwab, diretor executivo do Fórum Econômico Mundial (FEM).

    Enquanto isso, alguns têm que se contentar e se recolherem a sua a insignificância de serem “figurinhas carimbadas da Rede Bobo”.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem