Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Semiótica da caixa de isopor

Por Muniz Sodré em 19/01/2010 na edição 573

Na primeira página do Globo (13/1/2010), uma charge mostrava a escala da evolução humana com o presidente da República na quarta posição, logo após o Homo Sapiens, com uma caixa de isopor na cabeça. O noticiário da catástrofe no Haiti monopolizou as atenções gerais, mas permaneceu a sensação de ter havido algo de curioso, senão de intrigante, no repetido interesse da imprensa escrita pela imagem do primeiro mandatário na saída de uma praia baiana. A foto, tomada à distância, sabidamente sem o conhecimento do presidente, mostra-o com a primeira-dama na retaguarda (nenhum ajudante de ordens visível), carregando o que seriam as sobras dos líquidos ingeridos a beira-mar. Água, refrigerantes, cervejas, sabe-se lá.


Em princípio, é assunto de pauta jornalística qualquer momento singular da autoridade suprema da República, esteja ele no palácio ou em gozo de férias, o que era o caso. Intrigante apenas é o fato de que a imagem repercutiu, repetiu-se e se estendeu à charge, sem que ficasse muito claro por quê.


Uma hipótese explicativa: presidente da República não costuma carregar isopor na cabeça. Nada aí que tivesse ferido a liturgia do cargo, uma vez que o cidadão-presidente estava de calção, à margem do banho de mar, em suposta privacidade. Ainda assim, algo no instantâneo impressionou as retinas editoriais e de tal maneira que o fotografado terminou servindo de mote para a transformação (grotesca) da cadeia evolutiva em involutiva: depois dele, na charge, o humanóide é progressivamente rebaixado até o australopithecus, o macaquinho saltitante (como é mesmo o nome daquele país onde se costumava chamar os brasileiros de macaquitos?).


Quadro de referências culturais


Em Câmara Clara, Roland Barthes sugere dois conceitos para a análise das fotografias: punctum e studium. O primeiro diz respeito àquilo que, na foto, impressiona o olhar do contemplador ao modo de um dardo desferido. Pode ser um gesto, uma postura corporal ou um detalhe insólito. O segundo refere-se ao quadro cultural que recobre a cena, revelando significações latentes e apontando mesmo para as motivações sociais, senão para a axiomática – a ordem impositiva dos valores, como no discurso moral – que presidiu ao ato de fotografar ou editar.


Na foto em questão, o punctum é certamente a caixa na cabeça, que o studium do senso comum e jornalístico associa ao vendedor ambulante nas praias ou ao habitus do lumpesinato nas favelas, onde sobe à cabeça quase tudo que pesa, do isopor à lata d´água. Correu mundo a letra do samba em que ‘lata d´água na cabeça/lá vai Maria…’ Voltando à foto: o ‘dardo’ perceptivo é que o presidente foi flagrado em sua falta de refinamento, algo como um instante de desenvolto retrocesso à condição operária.


Sim, certo, dirão, é interpretação demais para isso que, na prática das redações, define-se melhor como automatismo profissional. A imagem era simplesmente interessante, nenhum editor experiente ia deixá-la passar impune. Tudo isso pode ser verdadeiro (é de fato uma ‘verdade’ corporativa) e não se trata aqui de fazer o processo da má consciência pelo que possa haver de depreciativo no ápice da edição repetida da imagem, isto é, a charge da involução humana. Mas é preciso ler criticamente a imprensa não apenas a partir do que ela nos diz ao pé da letra, mas principalmente do que parte de seu quadro de referências culturais, portanto, de sua representação do homem nacional.


A ‘involução humana’ na escala do poder


Toda idéia de nação, sabe-se, alimenta-se de uma etnicização fictícia, que se divide em etnicidade lingüística e etnicidade racial. O domínio da língua comum não tem apenas valor instrumental, mas também valor de marca de pertencimento à classe social que, por meio de seus clérigos ou letrados, legisla sobre o vernáculo. Quanto à etnicidade racial, a discussão é longa e, atravessando todo o século 20, mantém-se acesa neste terceiro milênio.


O preconceito relativo a uma ou outra das diferenças étnicas geralmente as congela como diferenças de casta, tendendo a atribuir aos indivíduos ‘destinos’ sociais diferentes. Os julgamentos implícitos em classificações como ‘regional’, ‘popular’, ‘erros de português’ são secundados pela estigmatização de habitus (conceito disseminado pelo sociólogo Pierre Bourdieu) corporais, que funcionam como marcações étnicas das diferenças. A imagem do presidente com o isopor na cabeça deve ser lida nesse quadro problemático: foi um punctum na consciência de classe do senso comum editorial, um habitus de gente pobre. Daí, a ‘involução humana’ na escala supostamente ascendente do poder.

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Jornalista, escritor, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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